Diário de viagem: Pelo deserto, até à Guiné-Bissau, um jipe salva-vidas para sarar a dor alheia

| 4 Fev 19

Parte do grupo de viajantes, domingo à tarde, junto à Sé do Porto, ao lado do bispo Manuel Linda; Almiro Mendes é o terceiro a contar da esquerda (foto direitos reservados)

 

Foi em 2005 que o padre Almiro Mendes, então pároco de Ramalde (Porto), decidiu passar um ano na Guiné-Bissau a fazer uma experiência missionária: “Magoou-me muito o sofrimento daquele povo extraordinário. Onde a gente sofre é na dor alheia”, diz, 14 anos depois de ter feito um voto: “Prometi que iria lá levar um jipe, porque na Guiné um carro assim salva vidas.”

Almiro Mendes, agora com 57 anos, escreveu um livro a contar a sua experiência e, com o dinheiro recolhido, conseguiu comprar o veículo. Levou-o em 2007. Desde então, já repetiu a ideia por mais quatro vezes. Desde este domingo, dia 3, o sexto jipe salva-vidas está a caminho. Conduzido à vez pelo padre Almiro e por mais três colegas padres. Terão também a companhia de uma furgoneta pickup, que será levada por outros quatro amigos – um médico, um engenheiro, um professor e um gestor. A rota está estabelecida: Portugal (de domingo para segunda a primeira paragem é em Faro – ver texto do diário, no final), sul de Espanha, Gibraltar, Marrocos, Sara Ocidental, Mauritânia, Senegal e Guiné, até chegar a Bissau.

Será uma espécie de rali Dakar, em versão ainda mais longa – e a comparação não é despropositada, já veremos porquê. Um total de 5800 quilómetros, com alguns riscos. “Na primeira vez atravessei a Gâmbia, agora fazemos mais 800 quilómetros porque a situação é mais difícil.”

Na despedida do Porto, feita junto da Sé, na tarde de domingo, esteve também o bispo da diocese, Manuel Linda, já que desta vez o veículo é oferecido pela diocese. Daqui a dez dias, o próprio bispo irá à Guiné entregar pessoalmente o veículo, acompanhando com uma oferta para as missões católicas no país.

“Gestos como esse, do nosso bispo, traduzem a fidelidade da Igreja à sua missão e evidenciam a sua catolicidade. Os bispos não vão normalmente a África, por causa do trabalho. Com esta viagem, D. Manuel Linda pode ir ver a realidade e ajudar a diocese a ganhar consciência missionária.”

Almiro Mendes dá o seu próprio exemplo: “Com a consciência que ganhei, as comunidades que servi são dinâmicas e missionárias porque perceberam o que se passa nesses países.” Por isso, também só terá vantagens o bispo do Porto ir à Guiné, sublinha. Depois de chegar, dia 12, o bispo irá visitar instituições das duas dioceses guineenses – Bissau e Bafatá –, várias missões católicas e um hospital, além de se encontrar com missionários que trabalham no país.

 

Muitas crianças dentro de um carro de corrida

As despesas da viagem foram assumidas pelos viajantes – padres, bispo e leigos. No caso dos que levam os veículos, todos dividiram os custos de gasóleo e tiveram outras pessoas a ajudar para despesas da viagem. Ainda por cima, recorda o padre Almiro, os católicos portugueses estão a ser sensibilizados para um ano missionário, que irá até Outubro deste ano.

O bispo do Porto, Manuel Linda, a fazer a sua assinatura no jipe com destino à Guiné-Bissau (foto: direitos reservado)

Almiro Mendes dá outros argumentos racionais para esta opção de levar um jipe por terra: “Fica muito caro mandar por avião ou barco e nunca sabemos se o veículo chega direito ao destino. Deste modo, chegamos e no dia seguinte sabemos que ele estará ao serviço.” Além do jipe e da furgoneta, irá por barco uma ambulância, oferecida pelos Bombeiros de Ameã. Essa, sim, não aguentara a viagem do deserto, teve de se fazer de outra maneira.

As ajudas – veículos e dinheiro – já têm destino: o bispo de Bafatá, Pedro Zilli, uma missão das Irmãs Espiritanas em Caió (interior da Guiné-Bissau), um lar de crianças deficientes gerido na capital do país pelas irmãs Marianitas e uma organização não-governamental que trabalha no interior do país.

Desde há quatro anos pároco de Canidelo (Gaia), a segunda maior paróquia da diocese do Porto, com 48 mil habitantes, Almiro Mendes esteve nos anteriores 23 anos da sua vida de padre como formador no seminário, nos Pupilos do Exército, e como pároco de Ramalde.  

“A caridade trespassa todos” os que ajudaram e os que vão na expedição, diz. O padre Almiro está consciente de que há riscos, mas nas vezes anteriores foi sempre por estrada e tudo correu bem. Espera que seja assim à sexta vez.

E agora o rali: desde criança, Almiro Mendes sempre gostou de carros. Acabaria por ser o primeiro padre a participar numa corrida internacional – aconteceu no Porto, em 2012, entre pilotos internacionais na Super Seven. E como padre como se vê a fazer isso? Ouvi uma vez uma frase: ‘Há-de Deus pedir-nos contas dos prazeres legítimos que não gozámos’. Por isso, e como nunca gastei dinheiro, porque há sempre alguém que oferece a participação, tenho prazer em participar em corridas. Numa delas, o carro que levei foi decorado com os símbolos da luta contra o cancro das crianças. Entre os 25 pilotos, o meu carro era o único que levava muitas crianças lá dentro. E isso deu-me muito gosto.”

 

DIÁRIO DE VIAGEM

Dia 1 – domingo, 3 de Fevereiro: Ganhar o desafio de 5800 quilómetros

O grupo de oito viajantes no domingo, junto da Igreja de Oliveira do Douro, antes de se dirigir para a Sé do Porto (foto: direitos reservados)

 

Quando estacionamos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro. Saídos do carro, fomos engolidos por dezenas de pessoas que ali se quiseram plantar para nos dar um comovido abraço, para nos oferecer palavras benévolas, para nos presentear com comida e dinheiro para ajuda da viagem e, sobretudo, para nos desejarem boa sorte, prometendo orações. 

Não conseguimos negar aos olhos as lágrimas ao vermos tão eloquentes expressões de amizade e comunhão de gente conhecida e amiga e até de pessoas que nunca tínhamos visto. Até os turistas, que ali são sempre muitos, se aproximavam para se inteirarem da situação.

Os microfones dos jornalistas apresentaram-se sôfrega e rapidamente às nossas bocas mendigando  palavras que pudessem traduzir a razão e a ousadia da aventura Porto-Guiné por estrada. Eram tantas as perguntas que se atropelavam umas às outras e nem o senhor bispo do Porto, D. Manuel Linda, entretanto chegado, escapou à curiosidade jornalística e teve de se expor aos microfones e aos flashes das máquinas fotográficas que se apressavam a registar o momento.

Estavam todos tão animados e eufóricos, que demorou a criar-se o ambiente necessário para a oração de bênção dos peregrinos que o senhor bispo quis fazer e que todo o povo rezou. Foi nesta altura que o senhor D. Manuel Linda teceu considerações tāo belas e apropriadas para o momento, que o Terreiro da Sé se vestiu de um silêncio religioso e todos os presentes pareciam admirar tanto aquelas palavras como o tão nobre e extraordinário gesto do pastor diocesano ao oferecer um jipe à Guiné, coisa pouco habitual.

Terminada a oração de bênção, todos se precipitaram sobre nós roubando- nos um último e comovido abraço.

Entrámos no jipe, que se vestia de milhares de assinaturas, e na pickup, que gemia a carga excessiva, e nem demos conta do trabalhar dos motores,  devido ao troar das palmas que nos batiam. Arrancámos com os olhos marejados de saudade. Os primeiros quilómetros fizeram-se a ouvir o relato do Sporting-Benfica e com a esperança de também nós ganharmos este desafio dos 5.800 quilómetros que nos separam do nosso destino: a querida Guiné- Bissau. 

Até parece um Dakar. Com uma diferença: por desporto, nunca faríamos esta viagem; por caridade, ousamos realizá-la, porque “vale mais a gente gastar- se do que enferrujar-se”.

Às 23h, o seminário do Algarve, por bondade do senhor bispo D. Manuel Quintas, acolheu os nossos fatigados corpos.

Adormecemos numa oração comovida.

Padre Almiro Mendes

(O 7MARGENS acompanhará durante os próximos dez dias, através de um diário de viagem, a expedição do padre Almiro Mendes e dos seus companheiros rumo à Guiné-Bissau)

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