Saborear os Clássicos (VI )

“Pensa Fraternalmente” – Um Fernando Pessoa desconhecido

| 29 Set 21

fernando pessoa (1200 x 900 px) almada negreiros

“Retrato de Fernando Pessoa” por Almada Negreiros (1964).

 

Pedro Teixeira da Mota investigou na célebre arca de Pessoa, e também no espólio do poeta na Biblioteca Nacional, textos na sua maioria inéditos, relativos à Metafísica, Esoterismo, Caminho Iniciático. Publicou nas Edições Manuel Lencastre quatro volumes relativos a esta abordagem na obra pessoana:

I – Moral, Regras de Vida, Condições de Iniciação (1988)
II – A Grande Alma Portuguesa (1988)
III – Poesia Mágica, Profética e Espiritual (1989)
IV – Rosea Cruz (1989)

Em geral, não é muito referida nem objecto de estudo e de investigação esta vertente pessoana, exceptuando a obra de Yvette Centeno e pouco mais. No entanto, “a compreensão do percurso e da obra de Fernando Pessoa, sobretudo no seu aspecto hermético, tem ainda de ser considerada provisória face aos textos inéditos existentes no espólio e à subtileza do tema”.

Escolhemos o volume II, publicado em 1988, no centenário do nascimento de Fernando Pessoa, para uma análise mais detalhada [os números referem-se às cotas do registo bibliotecário dos documentos].

 

A Grande Alma Portuguesa

Escreve o autor na Apresentação: “No decurso das nossas investigações no espólio de Fernando Pessoa, encontrámos uma carta cujo valor intrínseco merecia uma publicação especial.” Essa carta é a resposta de Pessoa às conferências acerca da personalidade dos portugueses, dadas pelo conde Keyserling, alemão, na sua visita a Portugal em 1930. É assinada com as iniciais O.S..

Pedro Teixeira da Mota aponta que o texto (53-80) indica sete nomes de Ordens e que na obra pessoana o nome da Ordem mais usada é a Ordo Sebastica (O.S.).

A carta de Pessoa já referida é exaustivamente analisada no livro:

(55H – 9, 11) – Há… três espécies de Portugal [ou 3 espécies de portugueses] dentro do mesmo Portugal: um começou com a nacionalidade: é o português típico… trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por todas as partes do mundo… desde 1578 este português encontra-se divorciado de todos os governos e abandonado por todos… Outro é o português que o não é. Começou com a invasão mental estrangeira… que data no tempo do Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo e tornou-se grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo e quase toda a gente das classes dirigentes. Está completamente divorciado do país que governa. É… parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido. Há um terceiro português que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis começou, de Nação, a esboçar-se Império. Este português fez as Descobertas, criou a civilização transoceânica moderna e depois foi-se embora…

Segundo Pessoa, desapareceu em Alcácer-Quibir, deixando alguns portugueses à espera.

É a referência à perda do rei D. Sebastião na batalha e à tradição messiânica do Rei, agora transformado num mito de renovação espiritual de Portugal.

 

Os Princípios da Ordem espiritual da Grande Alma portuguesa

(53-81) – Talent de Bien Faire(1) – Executar na máxima perfeição todos os actos da vida, sobretudo todos os actos da vida superior; (2) – Fazer o Bem; (3) – Crear a vinda do Bem.

Acrescenta Pessoa no Testemunho autobiográfico de 1935: Ter sempre na memória o Martyr Jacques de Mollay, Grão-mestre dos Templários e combater sempre e em toda a parte os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tyrania.

Pensar fraternalmente é “realizar na Terra o reino do Céu… o que no fundo, é idêntico ao V Império” (54A – 34).

(125A-33) Assim temos que no V Império haverá a reunião das duas forças separadas há muito, mas há muito aproximando-se: o lado esquerdo da sabedoria – ou seja a sciência, o raciocínio, a speculação intellectual; e o lado direito – ou seja, o conhecimento occulto, a intuição, a speculação mystica e Kabbalistica… a paz, que Bandarra diz que haverá em todo o mundo, será a paz de não haver differenças religiosas, a de ‘um só Deus será conhecido’, como ele diz ainda.

Pedro T. da Mota comenta que a obra esotérica de Fernando Pessoa deve ser levada a sério: o próprio poeta passou ao longo da sua vida por várias fases, evoluindo nos últimos anos de vida, o que é natural nos seres humanos. E se o leitor pensa que “o Sebastianismo é apenas saudosismo ou a Rosa Cruz uma mistificação, é porque não acendeu os fogos superiores da sua alma e está ainda semiconsciente”. Na resposta de F. Pessoa ao conde Keyserling, temos presente a mesma ideia:

Você encontrou inteligentes e entendedores [os intelectuais portugueses que assistiram e comentaram as conferências], porém nada há a compreender, pois estão ainda no domínio das opiniões, da superficialidade dos corpos e do mundo material.

“A evolução humana”, acrescenta P. Teixeira da Mota, “faz-se à custa de esforços de realização de novas qualidades e estados de consciência, como o pensar e o raciocinar conscientes, e a intuição que são pontes ou arco-íris da revelação do Espírito Santo ou de Cristo interno e da unidade com planos e seres superiores”.

“A unidade da ciência, arte e religião – uma das características principais dos mistérios, e nos séculos posteriores dos iniciados e dos humanistas” (Pedro Teixeira da Mota)

(54A – 23) Três corpos e mundos – physico, etherico, astral

(Fernando Pessoa)

No capítulo “A Alma tripla”, o autor descreve com grande pormenor o “aspecto trinitário da alma humana, reflexo da constituição trina da Divindade e do Universo… conhecido dos iniciados e transmitida ao longo dos séculos nas tradições religosas e espirituais”; é desenvolvida também a noção da Kabbalah: “Pessoa, como português, tem alguma ascendência judaica – não esquecer a profunda influência judaica na história portuguesa até D. Manuel – como messianista – o seu Sebastianismo é apenas uma faceta – e como esoterista ocidental”, dirá no fim da vida, na nota autobiográfica: Fiel à tradição secreta de Israel, a Santa Kabbalah.

(54A – 40) – São três os caminhos da iniciação: pela emoção, pela vontade e pela inteligência… renegar os três assassinos: o Mundo, a Carne e o Diabo, pelo voto da Pobreza, Castidade e Obediência.

 

A Origem Subterrânea da Alma Portuguesa
fernando pessoa (1200 x 900 px) (2)

Fernando Pessoa fotografado em Lisboa.

 

(55F – 42) – Nada há de menos latino que um português. Somos muito mais helénicos – capazes, como os Gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade…

O autor desta obra desenvolve as semelhanças entre os dois povos, além de referir o facto dos vestígios da presença dos Gregos desde o séc. VI a. C., em Alcácer do Sal. Indica Sagres – promontório sacro – onde “segundo a tradição existiram dois templos dedicados a Heracles/Hércules e Kronos /Saturno… [este] representava o tempo face à eternidade… o limite criativo que se impôs à não-manifestação, mas também os limites que se põem depois às almas na sua reintegração na Luz Original. Representa, na linguagem ocidental, o Satan, o príncipe deste mundo, o que guarda o limiar e que exige dos humanos um esforço heróico para serem felizes ou então iniciados, no caminho da transcendência… Heracles/Hércules é o representante dos homens candidatos à iniciação, desenvolvendo 12 qualidades face às provações que se lhes impõem”. Mas não termina aqui a história do promontório…

Também “alguns historiadores falaram da civilização dolménica, a partir de 6000 a.C., de origem peninsular, baseada na crença da imortalidade da alma, no culto dos antepassados e em cerimoniais iniciáticos… é nestas grutas, antas ou dolmens, creadoras de um espaço sagrado… nesta Finisterra, é a Deusa-Mãe, da fecundidade, da terra… cultuada subterraneamente, a mais antiga representação divina conhecida…”

“Os Deuses não morreram, o que morreu foi a nossa visão deles”

(Fernando Pessoa)

… não se foram: deixamos de os ver. Ou fechamos os olhos, ou entre eles e nós uma névoa qualquer se entremeteu. Subsistem, vivem como viveram com a mesma dignidade, a mesma calma.

(trad. 54A- 59) … o verdadeiro sentido da iniciação é que o mundo visível é um símbolo e uma sombra, que esta vida que conhecemos através dos sentidos é uma morte e um sono…o que vemos é uma ilusão. Iniciação é o dispersar gradual e parcial – dessa ilusão.

“… a nova humanidade em desenvolvimento terá como característica o alargamento da consciência para além do plano físico e do sono, numa comunicação mais consciente com os seres espirituais e o Cristo, constituindo tal realidade o segundo Advento.”

 

O Caos e a Noite
ernando pessoa (1200 x 900 px) (1)

“Fernando Pessoa, helenista profundo… substituiu o seu paganismo fatalista transcendental por um gnosticismo cristão iniciático.”

Para Pessoa, a civilização grega, com… (12-49) o espírito de livre procura e discussão, tornando-se implicitamente a opinião de cada um como uma coisa a que tem direito, e tomando-se explicitamente a razão como a única garantia da verdade, com o culto da beleza, com os mistérios, foi a base da nossa civilização e da obra pessoana.

Ovídio segue Hesíodo, mas aceitando a existência de um Deus superior, como iniciado que era”: antes do mar, da terra e do céu… a natureza oferecia o mesmo aspecto no Universo inteiro…Chaos, massa grosseira informe… sem laços de harmonia… Um Deus ou natureza muito mais poderosa, fez um intervalo entre o céu e a terra, separou o ar mais subtil do ar mais grosseiro, a terra e as águas… marcou-lhes lugares distintos…

“Fernando Pessoa, helenista profundo… substituiu o seu paganismo fatalista transcendental por um gnosticismo cristão iniciático.” Desenvolveu “um sistema de desenvolvimento da intuição”, mas restam poucos documentos. Por exemplo:

(54A – 45) – … Hierarquia divina: 0. Deus; 10. Seraphiins; 9. Cherubins; 8. Tronos; 7. Dominações; 6. Virtudes; 5. Potenciais; 4. Principiados; 3. Arcanjos; 2. Anjos; 1. Homens; o. Animais.

(53A – 49 trad.) – … Cristo é a ressurreição de Deus. Cristo é o laço entre o Mundo e Deus, e para atingir Cristo temos de matar as três palavras de Satanás, Desejo, Poder e Crença.

Terminamos com “dois excertos da sua belíssima e inspirada Oração à Noite – Princípio Feminino da Divindade.

“VEM, NOITE, antiquíssima e idêntica, / Noite Rainha nascida destronada, / Noite igual por dentro ao silêncio. Noite / Com as estrelas lantejoulas rápidas / No teu vestido franjado de Infinito. / Vem, vagamente, / Vem, levemente, / vem sozinha, solene, com as mãos caídas / (… )

Vem, e embala-nos, / Vem e afaga-nos, / Beija-nos suavemente na fronte que não saibamos que nos beijam / Senão por uma diferença na alma. / E um vago soluço partindo melodiosamente / Do antiquíssimo de nós / Onde tem raiz todas essas árvores da maravilha / Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos / Porque os sabemos fora da relação com o que há na vida / (…) / Vem, Noite silenciosa e extática, / Vem envolver na noite manto branco / o meu coração… “ ( Poesias de Álvaro de Campos)

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário.

 

Nós somos porque eles foram. E nós seremos nos que vierem a ser.

Nós somos porque eles foram. E nós seremos nos que vierem a ser. novidade

A homenagem aos que perderam as suas vidas nesta pandemia é uma forma de reconhecermos que não foram só os seus dias que foram precoce e abruptamente reduzidos, mas também que todos nós, os sobreviventes, perdemos neles um património imenso e insubstituível. Só não o perderemos totalmente se procurarmos valorizá-lo, de formas mais ou menos simbólicas como é o caso da Jornada da Memória e da Esperança deste fim-de-semana, mas também na reflexão sobre as nossas próprias vidas e as das gerações que nos sucederão.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Parlamento aprovou voto de solidariedade com vítimas da pandemia e iniciativa cidadã

Jornada da Memória e da Esperança

Parlamento aprovou voto de solidariedade com vítimas da pandemia e iniciativa cidadã novidade

A Assembleia da República (AR) manifestou o seu apreço pela Jornada de Memória e Esperança, que decorre neste fim-de-semana em todo o país, através de um voto de solidariedade com as vítimas de covid-19 e com as pessoas afectadas pela pandemia, bem como com todos os que ajudaram no seu combate, com destaque para os profissionais de saúde.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This