Pensar, escutar e agir para prosseguir em Igreja Sinodal

| 19 Fev 2024

Papa Francisco em oração no Momento de Reflexão que deu início ao Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade, em outubro de 2021. Três meses depois, era constituído o grupo sinodal na diocese de Braga. Foto © Vatican Media

 

Vou partilhar convosco os dois anos de percurso do grupo sinodal, na diocese de Braga.

Na descrição que vou fazer, não vou falar-vos especificamente de dificuldades, mas de caminho realizado, ressalvando que as dificuldades existem, a começar pela apatia e pouco interesse de tantos responsáveis na Igreja por este processo sinodal, o desânimo que se vai sentindo em cada um, a cada momento; os muitos outros compromissos que impedem participações, os silêncios, o gerir diferenças e formas de pensar diferente, os que vão ficando pelo caminho sem explicação ou porque o entusiasmo deste caminho sinodal “arrefeceu”.

As dificuldades de saber escutar e deixar o Espírito Santo trabalhar em cada um de nós são muitas, como acontece sempre que trilhamos um caminho que não conhecemos. Para o percorrer, temos que “partir muita pedra”, dentro de cada um de nós, da Igreja e do mundo em que vivemos. Ficamos na esperança de que sejam estas dificuldades que, a cada momento, nos despertem e nos façam renovar e recriar novas dinâmicas, diálogos e partilhas deste percurso sinodal.

A leitura que faço é uma leitura pessoal. Não escrevo em representação do grupo.

Quem somos e de onde vimos

O grupo, que começamos por designar “grupo de cristãs e cristãos de Braga e Guimarães”, iniciou o seu percurso sinodal em janeiro de 2022.

Integra mulheres e homens dos meios operários e intelectuais, com profissões nas industrias têxteis, no comércio, nos serviços, na educação e ensino superior, que partilham na sua trajetória de vida cristã e cívica a pertença a movimentos específicos da Ação Católica dos meios operários e estudantis.

Tiveram e têm responsabilidades de diferentes naturezas na vida da comunidade eclesial, movimentos e associações sociais e eclesiais diversas, no movimento sindical, mas por diversas circunstâncias, encontram-se, na sua maioria, afastados/desligados de algumas dinâmicas paroquiais.

Este grupo contribuiu ativamente no apelo à escuta, através da reflexão, do envio da síntese para a diocese e da participação e intervenção nas Assembleias Sinodais.

Em 2023 decidimos, identificar o grupo com o nome “nós entre nós”.

 

Origens deste grupo

Começamos por nos sentir preocupados pela apatia, desinteresse, silêncio, da maioria dos cristãos, das muitas paróquias da diocese, dos próprios párocos, e mesmo de alguns responsáveis diocesanos, que pareciam mostrar-se mais preocupados em falar das regras e dos cuidados com esta consulta ao Povo de Deus, em contraste com a dinâmica do caminho sinodal da escuta e do discernimento que esta escuta ao Povo de Deus e aos homens de boa vontade poderia proporcionar.

A dinâmica da diocese parecia mais focada numa auscultação ao interior da Igreja, que foi o que acabou por acontecer, e o anterior arcebispo tinha mesmo dito não ser necessário a realização de assembleias sinodais na diocese.

Ao mesmo tempo, cada um de nós sentia a interpelação e o apelo constante do Papa Francisco e pensávamos o quão oportuna podia ser esta escuta sinodal para um olhar mais renovado e uma leitura dos sinais dos tempos mais atualizada, na Igreja e na sociedade.

O impulso vinha-nos também do testemunho evangélico e profético, do Papa Francisco,  manifestado em tantas atitudes de encontro, de escuta, de pedidos de perdão, de humildade.

Destas preocupações, interpelações e da vontade de realizar este percurso sinodal como grupo, começamos por refletir e partilhar uns com os outros:

1º – Um olhar à nossa fé em Jesus Cristo e à Igreja a que pertencemos;

2º – Como imaginamos/sonhamos a igreja, e o que seria capaz de nos mobilizar;

Salientamos nas respostas que surgiram:

O sonho de que junto com outros crentes poderíamos protagonizar o renascer de uma Igreja mais reconhecida e identificada no Evangelho da Alegria, das Bem-aventuranças, encarnada na vida das pessoas, nas suas alegrias e esperanças, angústias e sofrimentos;

Uma Igreja acolhedora e determinada na valorização e concretização do caminho sinodal;

Reconhecedora do valioso contributo das mulheres em toda a dinâmica eclesial e na sociedade;

Uma Igreja sem clericalismo, abusos de poder, transparente nas decisões e na gestão dos recursos económicos e financeiros; aberta à escuta, que aceita rever e atualizar a linguagem, a forma de comunicar destes novos tempos; mais dialogante e atenta ao Espírito e aos Sinais dos Tempos;

Uma igreja de comunidades e paróquias pautadas pela cultura do encontro, do acolhimento e da escuta de todos, sem exceção, valorizando movimentos eclesiais, catequese, formação continua, com conselhos paroquiais vivos e dinâmicos.

 

Os nossos encontros e intervenções

Com reuniões mensais ou bimensais regulares, quase sempre online, conseguimos organizar um jantar presencial para estimular o convívio e os laços de amizade entre todos nós.

Participamos, entre outras, na primeira Assembleia Sinodal Diocesana, onde todos os membros do grupo intervieram apresentando as lacunas da síntese apresentada e o que, a nosso ver, faltava incluir. Foram intervenções diversificadas, que junto com outras intervenções, melhoraram a síntese final.

Tivemos um encontro, como grupo sinodal, com o arcebispo, D. José Cordeiro, que nos acolheu bem, nos escutou e nos animou a continuar.

Realizamos um encontro público sobre os abusos de poder na Igreja e fora dela, na Igreja dos Congregados, tendo como intervenientes Ana Nunes de Almeida que tinha integrado a Comissão Independente para o estudo dos abusos sexuais na Igreja, Liliana Rodrigues, investigadora e ativista feminista, e Teresa Toldy, teóloga, que faz parte deste grupo sinodal, Este encontro púbico, apesar de alguns contratempos, foi considerado positivo, pelas intervenções e pelo diálogo que se seguiu.

 

O agora e o futuro

Temos um plano com algumas ideias do que pretendemos deste grupo e do que nos propomos fazer:

Pretendemos, entre outras: continuar a fazer este caminho sinodal; congregar outras pessoas; ser ponte entre os que estão nas margens ou fora dela e os que estão na Igreja; a fazer parte da Igreja em saída; a acolher, dialogar e acompanhar todas as pessoas, dentro e fora da Igreja;

Propomo-nos, entre outras: trabalhar para e com as fronteiras, dar visibilidade a quem está nas fronteiras; a dialogar com setores não cristãos; a dialogar com outras realidades; a procurar caminhos de inclusão; realizar atividade publicas, criar espaços de conversas, silêncio, musicais, poesia, oração;

Neste momento, estamos a refletir as propostas de resposta ao Relatório da 1ª Assembleia Sinodal, um relatório que nos pareceu bem conseguido, com sugestões bem pertinentes e conformes com as constatações e desafios da escuta ao Povo de Deus. Sublinhamos o ponto 4, os pobres, protagonistas do caminho da Igreja; o ponto 8, a Igreja é missão; o 9, as mulheres na vida e na missão da Igreja; e outros que nos ajudam a nós e às comunidades eclesiais a continuar a dar vida a este percurso sinodal.

Algumas questões que teremos de ter em conta: Como melhorar os caminhos da escuta? Daqueles e daquelas que continuam sem ter voz na Igreja; dos que são vitimas de abusos de poder; dos que têm medo de denunciar; dos que se sentem marginalizados e estigmatizados dentro da Igreja; como escutar as margens dos meios sociais, políticos e ambientais, destes tempos; como escutar o mundo do trabalho, os protagonistas do trabalho indiferenciado ou qualificado; como escutar os imigrantes e os refugiados;

Como poderemos gerir e melhorar os nossos encontros, que maioritariamente se têm realizado por Zoom, com mais vontade de os fazer face a face? Como aprender ou reaprender a deixar que as nossas ideias, as ideias de cada um, se deixem trabalhar pelo Espírito Santo, como nos é constantemente sugerido neste percurso sinodal? Como podemos acolher e encarnar os desafios e os estilos de vida que nos são propostos no relatório da Assembleia de outubro?

Termino com uma frase do poema “guardador de rebanhos” de Alberto Caeiro,

“Pensar incomoda como andar à chuva, quando o vento cresce e parece que chove mais…”

Pensar incomoda-nos, mas desinstala-nos, pensar é preciso, escutar é preciso e é essencial em cada tempo e em cada momento. Pensar e agir são precisos e essenciais para prosseguirmos em Igreja Sinodal.

 

Fátima Almeida integra a Liga Operária Católica/Movimentos dos Trabalhadores Cristãos e a Comissão Justiça e Paz de Braga. Este texto corresponde à partilha que fez no debate “Sínodo católico: promessa de futuro para pôr em prática”, promovido pelo 7MARGENS no passado dia 15 de fevereiro, e que pode ser visto no Youtube.

 

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