Novo livro de Joaquim Félix de Carvalho

Pentateuco das Passagens

| 28 Mar 2024

Joaquim Félix de Carvalho é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Poeta de grande sensibilidade, é colaborador do 7MARGENS e autor de vários livros, entre os quais VERNA e Livro da Deslocação.

Joaquim Félix oferece agora aos seus leitores e amantes de poesia uma série de “viagens caminhadas” através de um livro de “haikus de instantes e detalhes” como descreve o subtítulo. Ou, como diz o próprio, “Cinco livros. É um Pentateuco, um livro de livros. O leitor acolhe uma pequena biblioteca de mão.”  A apresentação do livro será feita durante o tempo pascal, em data ainda a anunciar, na cidade de Braga e na freguesia de Fragoso, concelho de Barcelos, lugar de nascimento do autor.

O 7MARGENS publica a seguir o texto de apresentação da obra, que está em pré-venda até ao dia 10 de abril no site da editora Officium Lectionis. Da autoria do próprio, a quem agradecemos, a apresentação leva-nos em viagem a cada um dos lugares dos cinco livros: Livro da Escandinávia, Livro do Sul da Gália, Livro da Helvécia, Livro da Estiagem e Livro das Teorbas. O título dado a seguir e a escolha dos haikus são da responsabilidade do 7MARGENS.

 

 

 a leitura cresce
com flores romãs e vinho –
o livro é um campo solar

 

Pedras escritas

 

Cinco livros. É um Pentateuco, um livro de livros. O leitor acolhe uma pequena biblioteca de mão. E a tenda, digamos assim, abre-se nas linhas das suas palmas. Depois, sim, comparecem os olhos. Ela, a biblioteca itinerante, visita o seu amparo, convidando à recíproca hospitalidade na leitura. Que, de forma tátil – como quem lê um corpo, nem que seja só pelo índice –, permite reconhecer a sua ossatura, livro a livro, na articulação dos capítulos. Ainda que carecida de ulteriores esclarecimentos, – devido, talvez, às sonoridades finais das teorbas –, a leitura aponta de imediato a uma revelação: «É um livro de Passagens!». Efetivamente, é. Lá iremos à recortada cartografia, que não é de agência de viagens ou de posto de turismo, nem de roteiros desprovidos de desvios.

Que há de diferente no Pentateuco das Passagens? Está todo ele escrito em haiku. Isto é, em poesia de raiz tradicional japonesa, necessariamente reinventada na contemporaneidade. Isso mesmo, numa forma textual brevíssima. E, acrescente-se, ao mesmo tempo, tão densa, como é uma pedra quartzítica, na intensidade da sua concentração. Pedra, sim, mas a luz atravessa-a. E, em todas as faces e arestas, gera irradiações para os leitores. São pedras escritas. Mesmo que nem tudo seja dito, na propositada suspensão da linguagem, a obra dispensa prefaciadores. Sem requerer explicações, penso, todavia, que podem servir de orientação três breves notas aos leitores.

 

dura é a luz

 

A luz adentra no corpo

Foto © Joaquim Félix de Carvalho

 

dura é a luz
por onde a quilha sulca
as viagens

 

Em si, a luz é dura. Consegue ser ilha na escuridão, rasgar a noite. E, aqui e agora, oferece resistência – pronta a acender-se – aos peregrinos que se autoentregam às passagens. O tempo é, em seus ritmos, um gerador de transparência. Assim é, repleta de milénios, a pedra preciosa. Assim é a leitura demorada de cada haiku. A seu modo, nenhuma permite voracidades. Porque a cupidez não dá tempo à cicatriz – silêncio, inesperado, espanto, chispa, vazio, plenitude… –, na revelação do admirável mundo novo, que ele gera nas suas possibilidades.

Noutra dimensão, o tempo serviu-me de horizonte na criação poética: os haikus foram ditados no respeito pela sua multissecular tradição, interpretada em progresso. Eis porque há continuidade e cortes. Iluminei-me, confesso, naquela história que se conta em relação a Agostinho, enviado por Gregório a Inglaterra: atravessando as Gálias, aquele reconhece que, além da unidade básica comum à práxis romana, há diferentes costumes locais. Ao que Gregório lhe recomenda: «Dessas diferenças, reúne tudo o que possa ser útil aos ingleses». De forma semelhante, lembrado dos primeiros haikus do século XIII, ainda na inscrição haicai do renga, investi na sua autonomia, enquanto poemas curtos, aprendendo com Matsuo Bashô, já no século XVII, e outros maiores, Kobayashi Issa, Yosa Buson, entre outros. E, claro, com Masaoka Shiki, que, no século XIX, inventa o haiku moderno.

Bebi, também, do Book of Haikus, de Jack Kerouac. Porém, neste ponto, por justiça às fontes de inspiração, não posso ignorar quanto os quatro volumes de haikus, escritos por Reginald Horace Blith durante a guerra do Japão e publicados entre 1949 e 1952, o influenciaram a ele, Kerouac, tal como a Gary Snyder, Alan Watts e à Geração Beat norte-americana. Influxo que aliás se pode aferir noutros escritores como Ezra Pound, Rainer Maria Rilke, Jorge Luis Borges e Fernando Pessoa.

Atenda-se, ainda, a uma particularidade: se a língua inglesa serviu para universalizar o haiku, a língua portuguesa detém outro mérito, anterior no caso. Qual? A receção e a promoção do haiku. Sem remontar aos primeiros contactos dos portugueses com o Japão, assinala-se a sua entrada com os primeiros imigrantes japoneses no Brasil, na primeira década do século XX. Entre outros, destacam-se Uetsuka Shuhei, que terá escrito o primeiro haiku em terras brasileiras, e Nempuku Sato, que seguia a escola de Masaoka Shiki, acima citado. Depois, em linha discipular de Sato, aparecem Masuda Goga e Teruko Oda. Nesta linhagem, multiplicaram-se os autores a escrever haikus em japonês e português. E, bem assim, por influência da produção de haikus em inglês, reconhecidos escritores brasileiros deram-lhe grande atenção como Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Haroldo de Campos, Paulo Leminski. Por sua vez, em Portugal, nos últimos anos, o haiku ganha cada vez mais cultores. Isso deve-se, por um lado, à tradução dos clássicos, e, por outro, aos haikus escritos por reconhecidos autores como José Tolentino Mendonça e Gonçalo M. Tavares.

 

 
por onde a quilha sulca

 

Foto © Freestockcentera / Freepik

 

não sou marinheiro de jangadas
em bexigas insufladas
mas peregrino de outras margens

 

Poderá o sulco ser comparado ao rompimento da superfície ― conservando-a como ferida, leito, vazio, espera, separação, cava ou reservatório ―, soldando a realidade pela costura do fundo, invisível e inesperadamente? E, mergulhando nela, não seriam originados, nestes ou noutros modos, frutos novos? Afastada a racionalização, é neste jogo de metáforas que dito os haikus. Como primícias, recordo. Por onde sulcará, então, a quilha? Onde se afia o gume da poesia?

Fiel ao estilo do haiku clássico, recorro ao kireji, isto é, à «letra ou sílaba de corte». Que, na construção dos haikus, corresponde ao corte da ubiquação temporal ou do lugar. Também é possível estabelecê-lo tanto na enunciação como na perceção. E, ainda, na possível conjugação de todas estas categorias, criando, em quaisquer dos haikus, o choque luminoso, o salto inesperado. Sempre no contraste imagético, sublinho. No Livro das teorbas, o último deste Pentateuco, por uma questão de princípio, usei-o em todos os haikus. Mais, neste mesmo livro, adotei não a métrica definida das 17 sílabas nos três versos, no formato 5-7-5, dita clássica, mas na sequência 7-7-7. É uma convenção pessoal. Porém, nos outros quatro livros, sigo a forma de verso livre, que Reginald Horace Blith adotou nas suas traduções; formato que veio a tornar-se o padrão do haiku mundial.

Por onde a quilha sulca? Numa aprendizagem infindável, a ser afinada na contemplação, tento que a navegação privilegie o instante e o detalhe. Tomo-me de espanto nos campos da imanência ― o mundo real envolvente ―, na perceção do brilho que a sensibilidade, acesa nos sentidos, me doa a cada acontecimento, seja ele relance, opacidade, abalo ou transfiguração. Quiçá por formação própria, procuro relacionar-me com o mundo como quem participa na liturgia cósmica, que não só atende ao instante, mas também o celebra. Nisto, revejo-me em Roland Barthes e Octavio Paz, no sentido de apontar à «reconquista do instante» pela sua celebração, na consciência que dele se tem. Instante, não como medida cronológica mínima, mas na sua incomensurabilidade. Instante, sim, num presente de plenitude. E, por isso, como intensifica Barthes, «instante privilegiado».

Como sulcar nos detalhes? Primeiro, esclareço que o detalhe não é ornamento. Antes, é o punctum mora oculi, o ponto que assinala a demora do olho. Melhor ainda: princípio da excelência, o detalhe é o olho que me vê. Por certo, tanto mais consciente quanto me considero contemplado pela realidade. No fundo, nesse olho, toda a realidade habita. Reside aí. Na sua alma de luz. Pode até ser abstrata, em zoom ou numa excisão aparentemente descontextualiza. Todavia, todo o real nele se concentra, como vaso de relação. E, aí, nesse instante privilegiado, o detalhe torna-se silêncio à sombra da totalidade incomensurável. Na atenção ao detalhe, o haiku nasce de um olhar outro, que nos admira. E, estando perante nós, nos olha dentro. Será um olhar icónico? Sem dúvida. Porém, na reciprocidade do encontro: no entrelaçamento sensível dos olhos que se olham. Por cada um desses toques dito haikus.

 

as viagens

 

Pormenor da capa do livro “Entre o Céu e a Terra” de Rui Chafes.

 

frequentemente
minha órbitra é um risco
só e na aparência errático

 

O Pentateuco das passagens cumpre-se, no arco de uma década, por viagens e caminhadas. Ao longe e ao perto, em grupo de amigos e em solitude, as passagens fazem-se por dentro e por fora. É verdade, em todos os sentidos, inclusive nas camadas sonoras e do tempo. E por desvios, também. Tudo comunga na deslocação. Abandonada a escala para medi-la, é dessa deslocação que os haikus nascem. Sim, numa forma textual mínima ― sem rendas literárias nem extravagâncias estilísticas ― de poesia incomensurável, inaugurada por um olhar que nos chega e por nós se adentra. Que, insisto, nasce da deslocação para outra deslocação. Nisto me revejo, uma vez mais, com Rui Chafes, que, na obra Entre o Céu e a Terra, escreve: «O sentido poético é o que desloca o espectador para um ponto onde uma nova construção da realidade pode acontecer. O fim da poesia é estabelecer um desvio, é quebrar e desconstruir todos os códigos de comunicação existentes, alterar o mundo como os homens o conhecem, abrir fissuras no espaço com a sua presença. A poesia não é uma outra linguagem, é, sobretudo, um outro olhar.»

Os três primeiros livros ― da Escandinávia, do sul da Gália e da Helvécia ― correspondem a viagens exploratórias, feitas em grupo de amigos, cuja cartografia é recortada em função de certos objetivos, em particular no âmbito da arquitetura, religiosa e civil, e do mundo das artes. Em cada estação, e são tantas as estações, as passagens fazem-se por catedrais e igrejas, umas antigas como as de madeira, nos fiordes da Noruega, e as românicas e góticas na ilha da Gotlândia e no sul de França; outras contemporâneas como as de Sigurd Lewerentz, Le Corbusier, Maurice Novarina, Hermann Baur, Fritz Metzger, Mario Botta, Peter Zumthor. Museus, galerias e exposições de arte; parques naturais, urbanos e arqueológicos; ruas, jardins e campos, pontes e monumentos de arte pública, estradas secundárias e de montanha; restaurantes, cafés e chocolatarias são outros lugares onde nascem haikus. Que, por sincero reconhecimento, alguns deles são dedicados, em homenagem normalmente póstuma, aos artistas e a outras pessoas, também anónimas.

Do mergulho no esplendor do quotidiano, através da contemplação, é o Livro da estiagem. Na sua humilde simplicidade, por vezes austera, os eventos e lugares triviais reverberam nos haikus com as suas ressonâncias: caminhar nas ruas, viagens, visitas, deambulações, acompanhamentos. Distanciado de bucolismos ― livre, portanto, da captura do sentimento ―, o deslumbramento acontece, em instantes privilegiados, tanto na universidade como em casa, nos campos em pousio e abandonados, nos ruderais e baldios, numa floresta ripícola e na experiência de caminhar sobre ruínas, atalhos ou canais. Na sensibilidade à ecologia integral, os seres são contemplados na sua graça. Impressionante é o brilho dos seus corpos, a sua nomeação ― que, à falta de nomes comuns, é adotada a científica ―, o esbanjar das suas formas, cores e fragâncias. E todos eles sem porquê!

Do Livro das teorbas, salientámos já aspetos que, em relação à métrica e ao uso do kireji, o tornam único neste Pentateuco. Mas há mais particularidades. Por exemplo, o quotidiano do qual nascem os haikus é literário. Tal como nas paisagens acima apontadas, evitando cair nas estratégias da intertextualidade, também peregrino e espaireço por textos bíblicos. Correspondem ao sistema de leituras adotado na liturgia romana. E, em função dessa distribuição, trienal ou segundo outros critérios, reparto os haikus pelas teorbas dos tempos e pelas teorbas brancas. Três anos me levou a escrever este livro.

Por fim, ─ e se assim posso apelar, não mais do que isso ─, deixo um conselho para a leitura deste Pentateuco: por escasso que pareça cada haiku, demora, demora, e volta a demorar, em cada verso. Agora é o espaço da tua participação. Torna-te leve na leveza, na maravilha de simplesmente estares presente no quotidiano. Ao ponto de assumires como Rainer Maria Rilke, na sétima elegia de Duíno: «Estar aqui é magnífico».

 

 

 

 

 

 

Pentateuco das Passagens – Haikus de instantes & detalhes, de Joaquim Félix de Carvalho
Editora: Officium Lectionis
Imagem da capa: Capela Sogn Benedetg, em Sumvitg [Suíça], projetada por Peter Zumthor; fotografia de Joaquim Félix de Carvalho [2023]
abril 2024, 360 pp.

 

 

 

 

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