Pequeno exercício de memória ou liberdade de expressão

| 31 Dez 19

Ainda tão próximo o dia de domingo passado, em celebração da Sagrada Família, encontro a carta de 16 de Dezembro de 2014, escrita pelo Movimento Nós Somos Igreja a D. Manuel Clemente, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que tinha convocado para 2015 um Sínodo Diocesano, na mesma altura em que também em Roma se vivia o período entre as duas sessões do Sínodo dos Bispos sobre a família. Em tempo de preparação para o Sínodo, o NSI exprimia-se a manifestar apoio, proximidade, envolvimento com os nossos bispos, no exercício dos seus ministérios.

A carta afirmava o desejo de uma Igreja de amor, de uma Igreja inclusiva, atenta, acolhedora, fiel à palavra de Jesus. Pelo Vaticano tinham sido anunciados os Lineamenta para o referido sínodo, e pelo NSI eram citadas as palavras do Papa Francisco no final da assembleia geral extraordinária do Sínodo sobre a Família, em Outubro de 2014: “Deus é o Deus da lei. É também o Deus das surpresas. Deixem-se surpreender por Deus. Deus não tem medo da novidade.”

A carta também manifestava o desejo de que os trabalhos dos nossos bispos fossem sinal de esperança e misericórdia, acompanhando o Evangelho da Família, considerando as transformações sociais, não impondo regras radicais sem justificação teológica e/ou evangélica ou assente em argumentos frágeis.

Assim, o NSI acreditava que a hierarquia portuguesa poderia deixar-se “surpreender por Deus” como acima referido. Com um enunciado de esperanças, deste modo alinhado, que transcrevo:

“1 – praticar no concreto uma atitude de inclusão dos divorciados recasados, permitindo-lhes o acesso à comunhão se a sua própria consciência assim o pedir;

2 – reconhecer que existem pessoas, filhas e filhos de Deus, que nasceram com orientações sexuais distintas dos da maioria e que tal não pode, à luz da razão e do Evangelho, justificar exclusão de qualquer tipo;

3 – deixar de fazer uma distinção não científica e não teológica entre métodos contraceptivos ditos “artificiais” e métodos ditos “naturais”, sabendo que ambos iludem a natureza, como já foi sobejamente reconhecido pelos próprios casais católicos que, em boa consciência, utilizam qualquer método, encarando a parentalidade como um acto de responsabilidade que não pode ser deixado ao acaso;

4 – iniciar uma profunda reforma do sacerdócio questionando nomeadamente a sua função, a selecção dos candidatos, a sua formação – devolvendo aos mesmos a opção de quererem ou não viver o seu sacerdócio associado ao matrimónio;

5 – enveredar por um caminho sério de colaboração com mais de metade da humanidade, as mulheres – amadas e criadas por Deus – reconhecendo as que as desigualdades entre os géneros em  muito têm contribuído para a pobreza material e espiritual da humanidade e que a instituição Igreja tem tido um papel negativo neste campo; a título de exemplo, face ao pecado da violência doméstica que, neste país, e só neste ano, já resultou em mais de 40 mortes, deixando famílias destroçadas durante gerações, ainda não se ouviu uma tomada de posição firme e condenatória da parte dos nossos bispos;

6 – aguardamos igualmente uma palavra tão importante, da parte dos nossos bispos, sobre a violência de pedofilia, seja em que contexto for, os excessos nas noites de diversão, a indignidade que representam as praxes académicas, o nível rasteiro de programas de entretenimento nas televisões, apresentados em horários de grande audiência. Acreditamos que estas práticas, crescentes na realidade que nos rodeia a toda a hora, motivo de notícias de grande divulgação, deverão merecer uma palavra de reflexão dos nossos bispos. Entendidas, justamente, como integradas no Evangelho da Família, que o Sínodo de Outubro irá definir, palavra de Jesus Cristo que vivemos.

Pensamos também que não vale a pena a hierarquia vir acenar com míticos modelos de família que teriam existido no passado, mas que qualquer análise histórica superficial dá conta que ou não existiam ou não eram felizes e, por isso, não são um modelo de cristianismo. A nosso ver, a família deve ser apresentada como um comunidade de afectos em que se procura aprender a viver com a diferença, a respeitar o próximo, a superar os conflitos, onde crianças e adultos conheçam e pratiquem os valores fundamentais da nossa tradição cristã e onde se viva o amor ao próximo.”

Cinco anos depois, sinais de transformação se anunciam. Há que acreditar em esperança. Mas a inquietação permanece. A palavra do Papa Francisco atravessa o mundo. Alvoroçado mundo.

 

Leonor Xavier é escritora e jornalista e integra o movimento Nós Somos Igreja – Portugal

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