Perder a guerra, ganhar a paz

| 4 Abr 2024

Marino Mazzacurati, "Os Horrores da Guerra", Sant'Egidio

Marino Mazzacurati, Os Horrores da Guerra. Obra na igreja de Santa Maria in Trastevere (Roma), na sala onde foi assinado o acordo de paz de Moçambique, em 4 de Outubro de 1992. Foto © António Marujo/7MARGENS

1.

Estaremos já adormecidos pelas guerras? E os crentes, onde andam?

Aproximamo-nos das eleições para o Parlamento Europeu. Essa chamada à escolha democrática deveria provocar já, da parte das igrejas cristãs e das restantes comunidades religiosas, uma exigência a uma maior intervenção: não só na promoção da formação de uma consciência pacífica, pacifista e não-violenta entre os seus membros, como também na exigência junto dos governos no sentido da paz, do desarmamento, da negociação, do alargamento da democracia.

Se não ganharmos o combate cada vez mais intenso pela democracia, pelos direitos humanos e pela paz, perderemos todos perante a morte e a destruição que nos atingirá a todos. É isso que queremos? Queremos ganhar guerras ou ganhar a paz? Estarão os crentes das diferentes confissões rendidos à devastação que alastra?

 

2.

Olhemos para exemplos dos últimos dias: esta semana, os militares de Israel bombardearam a embaixada iraniana na Síria e, no dia seguinte, mataram (por “erro” diz a versão oficial) sete agentes humanitários na martirizada Faixa de Gaza. Neste último caso, os dados conhecidos remetem para três ataques sucessivos sobre os três automóveis da World Central Kitchen que levavam comida para os refugiados/deslocados forçados de um campo onde milhares de pessoas sobrevivem já abaixo de qualquer limiar de subsistência. Às sete vítimas (provenientes do Reino Unido, Polónia, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Palestina), já não valeram nem a retórica de governantes nem os renovados apelos de António Guterres ou do Papa Francisco. O Governo de Israel considera-se impune com o argumento de estar a defender-se de um ataque contra cidadãos do país – mesmo se a defesa neste caso é o ataque e o bombardeamento sistemático contra milhares de pessoas inocentes, incluindo, como recordava também a BBC, os quase 200 trabalhadores humanitários que já foram mortos desde 7 de Outubro. Um erro, deveria perceber o primeiro-ministro de Israel, já seria demais. Duzentos erros ou mais de 30 mil erros são uma infâmia. Mas para este Governo, a vida de qualquer palestiniano assassinado vale muito menos do que a dos israelitas assassinados a 7 de Outubro, no ataque do Hamas.

Perto, um pouco mais a Norte no globo, o Governo russo continua a bombardear Kyiv e outras cidades ucranianas, enquanto acusa a Ucrânia de terrorismo porque os militares deste país bombardearam alvos na Rússia – exactamente o que este país faz no território ucraniano há mais de dois anos.

Marino Mazzacurati, "Os Horrores da Guerra", Sant'Egidio

Marino Mazzacurati, Os Horrores da Guerra. Foto © António Marujo/7MARGENS

3.

O cinismo dos governantes russos e israelitas não tem limites. Como não tem limites a inércia quase absoluta em relação ao que acontece em múltiplos países do mundo, envolvidos em guerras civis, conflitos étnicos ou guerras fronteiriças. Síria, Iémen, República Centro Africana, Congo, Haiti (de onde ainda nesta quinta-feira chegaram mais notícias trágicas), Moçambique (Cabo Delgado), Nagorno Karabakh (alguém reparou na limpeza étnica feita pelo Azerbaijão?) são apenas algumas das incontáveis tragédias humanas que não terminam, que se intensificam. Tragédias que confirmam que estamos, como diz o Papa Francisco, a viver uma guerra mundial aos pedaços. Tragédias que nos colocam perante o risco de um conflito alargado a uma escala imensa.

 

4.

Do “nosso” lado, somos poucos os que, nesta Europa adormecida, queremos saber da tragédia em que o mundo tem mergulhado vertiginosamente. Vemos e ouvimos cada vez mais líderes europeus a tocar os tambores da guerra. Além dos tristes exemplos da Suécia e do presidente do Conselho Europeu, já referidos há dias por Manuel Pinto aqui no 7MARGENS, os últimos dias multiplicaram a retórica belicista e militarista: a cimeira da NATO debateu por estes dias a possibilidade de um fundo de 100 mil milhões de euros à Ucrânia, fazem-se apelos a aumentar os orçamentos para a Defesa, escutam-se avisos de que estamos a entrar numa economia de pré-guerra. Ao invés, o martírio da população de Gaza não merece qualquer arrepio, o Nagorno apenas teve direito a umas declarações retóricas inconsequentes, o Iémen só interessa quando os houthis ameaçam a navegação no Mar Vermelho; a Síria já quase não importa; a África subsariana só interessa para retirar riquezas à custa de escravatura. E um longo etc…

 

5.

Tudo isto é, há muito, o contrário do que se pede à Europa. Durante anos, tolerou-se, negociou-se, apoiou-se, mesmo, um tirano como Putin, deixando crescer as suas ambições; fazemos o mesmo há muito tempo com a China, que alarga à descarada a sua influência em largas regiões do mundo; fazemos negócios com a Índia mas não se fala de direitos humanos com o primeiro-ministro do país, cada vez mais agarrado à sua retórica nacionalista e xenófoba contra as minorias; somos complacentes com regimes, como os do Médio Oriente, onde a liberdade política e religiosa é inexistente. Havendo dinheiro, há sempre argumentos para desculpar a opressão, omitir ou esquecer o sofrimento de milhões e milhões de pessoas.

Não. O caminho da Europa não pode ser o da militarização. Esse é o caminho que levará à tragédia inominável que já vivemos em 1939-45 e que, seguramente, os povos não desejam reviver (mesmo se muitos de entre nós, consciente ou inconscientemente, muito fazem para que tal aconteça, quando alimentam o ódio e a linguagem de exclusão do outro, como ainda agora percebemos nas eleições portuguesas, com a eleição de 50 pesssoas adeptas desse discurso). Nesta matéria, Portugal tem tido uma posição ambígua – por exemplo, não ratificou ainda o Tratado para a Proibição das Armas Nucleares – e, conhecidas que são algumas ideias dos novos ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, é de prever que continue alinhado pelas posições mais militaristas que grassam na União Europeia.

Marino Mazzacurati, "Os Horrores da Guerra", Sant'Egidio

Marino Mazzacurati, Os Horrores da Guerra. Foto © António Marujo/7MARGENS

6.

É certo que o equilíbrio não é fácil: entre apoiar a Ucrânia e preparar o caminho para a negociação, estamos no fio da navalha. E a negociação deverá acontecer antes mais cedo que tarde. É essa a “bandeira branca” de que falava o Papa Francisco; não é a rendição, porque ela terá de acontecer. Há um ano, recordava-se aqui no 7MARGENS o apelo de Edgar Morin a alguns caminhos de solução que o filósofo francês propunha: apoio à resistência ucraniana, incluindo financeiro e militar; empenho simultâneo na procura de uma solução de mediação; “possibilidades de um compromisso, necessário em qualquer guerra, com o reconhecimento da especificidade da cultura russófona do Donbass ou a criação de zonas livres e desmilitarizadas no leste da Ucrânia e na Crimeia”, por exemplo.

Para Gaza, o mesmo desafio da criatividade é necessário: Israel tem de pôr um fim imediato aos bombardeamentos insanos e à incursão dos colonos em territórios palestinianos e aceitar a coexistência de dois estados independentes, respeitando a igual dignidade de ambos – já que neste momento é impossível a utopia de um único Estado laico e democrático, onde judeus, palestinianos, cristãos e todos os outros possam conviver em paz. Há muito que a tragédia palestiniana é o combustível do terrorismo e há que pôr um ponto final neste estado de ódio e de guerra permanentes.

Depois, há todas as outras guerras – que acabam por ter consequências dramáticas nas nossas vidas, sem que muitas vezes o percebamos imediatamente. Mais um exemplo: há quase um ano, como se conta numa notícia no 7MARGENS, a guerra civil eclodiu de novo no Sudão e já provocou mais de 15 mil mortos e 30 mil feridos, além de oito milhões de pessoas deslocadas. A UE não pode ser o bombeiro de serviço que acorre a apagar todos os fogos, mas, definitivamente, tem de ter uma atitude mais pró-activa: o que se exige à União Europeia e aos nossos governos, é que sejam mais promotores da paz e da democracia no mundo, “trocando” os negócios pelo respeito pelos direitos humanos, quando estes estão em causa.

 

7.

Ganhar a paz é uma obrigação de cada cidadão em nome do futuro da humanidade. Os crentes, cristãos ou outros, têm uma responsabilidade acrescida. Sob pena de traírem de modo absoluto as suas convicções.

 

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