
Imagem do filme Libertad, de Clara Roquet. Foto: Direitos reservados.
A mim sempre me fascinou a adolescência, esse tempo fabuloso que cada homem e mulher atravessou – pelo qual foi atravessado – para se ir tornando adulto/a. Já tinha decidido ir ver o filme Libertad, porque tinha lido que falava precisamente de duas adolescentes e da amizade que construíram entre si, quando li o pequeno texto “Adolescência: o que os pais querem dos filhos e o que os filhos querem dos pais” (Sandra Sobreira, Público, 28 de Agosto de 2022).
Escreve a autora, apenas para dar um exemplo: “O filho autonomiza-se dos pais, passa a centrar a sua vida nos amigos e o mundo exterior torna-se mais atrativo do que a casa. É necessário construir uma identidade própria, o que por vezes implica distanciar-se dos pais, correr riscos, fazer experiências… A adolescência é uma época em que normalmente se quer muita coisa mas, ao mesmo tempo, não se sabe bem o que se quer. E, com frequência, tem-se medo de querer.”
É desta luta interior, em confronto com a família e com o modo como a sociedade está organizada, que nos fala – entre a ternura e a amargura – este filme da catalã Clara Roquet. Ela própria, numa entrevista ao Público–Ípsilon, de 26 de Agosto, diz: “A questão fulcral do filme é se a amizade entre duas raparigas é capaz de quebrar os espartilhos de classe social… Uma das questões que o filme coloca é o que é que essa rapariga aprendeu com o que lhe aconteceu. Vai recriar as mesmas normas sociais que mantêm as classes separadas ou a relação que estabeleceu com outra personagem, Libertad, mudou-a?”
É Verão e uma família rica volta, como acontece todos os anos, àquela magnífica casa na Costa Brava, onde vive a matriarca, já doente com Alzheimer, cuidada ao longo do(s) ano(s) pela empregada doméstica, Rosana, colombiana. A família da casa tem uma filha adolescente, Nora, de olhar triste e entediado, meio abandonada e sem ninguém com quem partilhar as dúvidas e sonhos que a habitam, completamente condicionada pelas regras de bom comportamento próprias do estatuto familiar que é o seu. É então que chega Libertad, filha da empregada, também ela adolescente, e que vem passar as férias com a mãe. Libertad tinha sido deixada com a avó, quando a sua mãe, sem se despedir dela, tinha emigrado para Barcelona. Libertad é liberdade, uma adolescente revoltada e provocadora, já com uma grande experiência de vida, conquistada nas ruas da cidade onde cresceu.
É por ela que Norma vai sentir-se seduzida e encantada. É com ela que Norma vai correr riscos e mentir e fazer coisas que nunca tinha feito. É com ela que vai crescer e aprender como é difícil ser livre.
E mantém-se sempre ao longo do filme a questão social, dos patrões e empregados, se quisermos dizer assim. Mas esse tempo, como se verá, significado entre outras coisas pela presença dos relógios, está desacertado da História e está a chegar ao fim. E Libertad foi o detonador dessa mudança. A própria realizadora reconhece que se trata de um filme com uma afirmação política: tomar consciência de quem se é mas também de como tem de ser a sociedade e as relações sociais.
Filme de despedidas, como alguém escreveu, este Libertad (onde os homens estão ausentes, mesmo presentes) tem muito para dar a ver quando se abrem as cortinas que escondem um choro quase sufocado, enquanto ondulam ao vento…
“Libertad é talvez paradoxalmente não um filme de felicidade ilusória, mas de consistente compromisso com a realidade das perdas inevitáveis… O filme encaminha-se até ao final para sucessivas despedidas, inevitáveis e dolorosas, em que a liberdade constitui também um acto de renúncia ou contenção que tem o seu ponto alto na própria cena final.” (António Roma Torres, Público-Ípsilon, 09 de Setembro de 2022)
Libertad, de Clara Roquet
Com Maria Morera, Nicolle García, Nora Navas
2021, 1h44, M/12
Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).









