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Perdermo-nos em Deus como antídoto ao “burnout”

| 21/04/2022

Foto © Francesco Alberti-Unsplash

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Há quem pense que o percurso sinodal da Igreja Católica representa um desafio para uma evangelização nova por andarmos a competir com o Facebook. Talvez seja por isso que muitas pessoas acreditem que “se não os podes vencer, junta-te a eles”. Mas talvez seja mais importante compreender as razões da atractividade do Facebook e de todas as restantes redes sociais ou serviços de mensagens com grupos de interesse ou familiares, como o WhatsApp. A resposta está mais na biologia do que na utilidade desses serviços. Bastaria pensar na simples e “inocente” mão que expressa “gosto” ou like.

Como muitas pessoas faziam comentários mais reactivos que pensativos, Leah Pearlman, um engenheiro de produto no Facebook teve a ideia de criar um botão de apoio ao conteúdo partilhado pelas pessoas. Com Justin Rosenstein pensaram em botões baseados no sinal mais, estrelas, mas acabaram por optar pelo famoso polegar para cima quando queremos expressar — «Boa!», «Apoiado!», «Gosto!». Mas ninguém estava à espera do efeito social que afectaria a biologia das massas através de um simples botão. Rapidamente, o sucesso desta solução deixou de servir para uma rápida reacção ao conteúdo, tornando-se num modo de distinguir o que na web tem ou não tem valor. O “gosto” estimula a produção de dopamina, o neurotransmissor natural que libertamos no cérebro quando nos sentimos realizados. Porém, se não existem tantos “gostos” como desejaríamos, o efeito é o contrário e percebemos, hoje, que pode ser uma fonte de stress e distúrbio emocional. Mas o que revela parece-me mais profundo: além de nos afectar fisicamente, afecta também a nossa percepção da realidade, em vez de ser a realidade a afectar a nossa percepção.

Num recente artigo para a New Scientist, Jess Craig escreve como a medicina tem explorado nos últimos anos as experiências que uma auto-transcendência temporária com fármacos promove, por um longo tempo, no bem-estar das pessoas. Nomeadamente, exploram-se técnicas de estimulação cerebral para induzir este estado de auto-transcendência, acelerando os efeitos positivos do mindfulness ou meditação que muitas pessoas já praticam. O psicólogo americano David Yaden define as experiências de auto-transcendência como “estados mentais transientes de diminuição da auto-relevância e aumento dos sentimentos de conexão”, onde os pensamentos muitas vezes voltados para nós próprios se desvanecem para dar lugar a uma comunhão maior com os outros e com o ambiente à nossa volta. Não deixa de ser curioso como todos estes estudos e investimentos em fármacos para induzir a auto-transcendência sempre estiveram presentes na vida espiritual das pessoas que vivem intensamente a sua religião. 

Quer isso dizer que a ciência explica a experiência religiosa e deixámos de precisar dessa, bastando tomar um comprimido? Pessoalmente, penso que significa exactamente o contrário.

Todos estamos cientes de que os comprimidos para induzir estados de auto-transcendência podem gerar dependência. Aliás, esta ideia não está muito distante do espírito com que se vivia o stress no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, bastando tomar um soma para que uma pessoa voltasse a ser feliz e, de certo modo, auto-transcender-se. Ele punha em contraste a sociedade avançada com a Reserva Selvagem onde as pessoas nasciam naturalmente, não em ventres artificiais, onde ser infeliz seria, também, um direito, não algo que tem de se resolver imediatamente com um comprimido. Voltando ao mundo real, de facto, existem alternativas.

Um simples contemplar da natureza é suficiente para produzir uma experiência de transcendência de baixa intensidade. Mas existem muitas outras actividades capazes de induzir estados de fluir, isto é, estados em que nos sentimos completamente absorvidos por algo que nos realiza, sendo suficientes para baixar os níveis de depressão e burnout, reforçando a nossa resiliência e melhorando o nosso bem-estar, auto-transcendendo-se. Algo que me faz lembrar uma prática religiosa sem qualquer custo senão o de manter as portas das igrejas abertas: momentos de adoração a Jesus presente numa hóstia consagrada.

O Facebook afecta a nossa biologia, mas cria dependência. Adorar Jesus presente na hóstia consagrada também pode afectar a biologia de qualquer pessoa, mas não cria qualquer dependência. O único estigma a ultrapassar é o de que isso implica que o ateu vá contra as suas convicções. Mas, pergunto-me: temem perder a ausência de fé?

Jesus misteriosamente presente naquele pedaço de pão em formato de hóstia não pede ao ateu para deixar de não ter fé se precisa de um espaço discreto e sereno para atingir um estado de fluir. Jesus apenas pretende acompanhá-lo nesse caminho para que reencontre a serenidade. No espírito de uma Igreja sinodal, deveríamos abrir as portas das Igrejas durante mais tempo e oferecer momentos de adoração a Jesus como um modo de ir ao encontro dos pobres de espírito do nosso tempo. E todos somos pobres de espírito, crentes e não-crentes, e bem precisamos da Sua silenciosa, mas preciosa companhia.

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter Escritos em https://tinyletter.com/miguelopanao ou se quiser contactar-me pode fazê-lo para miguel@miguelpanao.com

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