Na sequência do artigo que escrevi anteriormente sobre a temática do perdão, refletirei em seguida acerca de alguns aspetos que complementam a informação nele contida.
Para que se torne explícito o conteúdo a refletir, seguirei um modelo mais esquemático do que literário, como, aliás, tinha feito anteriormente.
Porque é importante pedir perdão
Ao falar da importância de pedir perdão, enumeram-se alguns aspetos envolvidos nesta dinâmica. Há que olhar sob múltiplas perspetivas e, sim, é preciso reconhecer que, por sermos humanos, todos cometemos erros. Por isso é fundamental espreitar do outro lado, de quem magoou, de quem feriu, de quem instrumentalizou, maldisse ou insinuou.
Pedir perdão envolve e viabiliza:
– Responsabilidade pessoal;
– Retomar de relações/ procura de reconciliação;
– Oportunidade de aprendizagem e crescimento;
– Alcance de alívio emocional e de bem-estar psicológico;
– Fortalecimento de empatia, percebendo o impacto negativo que o que fizemos pode ter no outro;
– Conquista/ alcance de um melhor ambiente global.
Porque é importante perdoar
Perdoar torna-se, por vezes, muito difícil, mas pode ser também um desejo escondido de que a oportunidade surja.
Muitas religiões enfatizam a importância do perdão como um princípio moral fundamental. Conceitos como misericórdia, compaixão e redenção podem motivar as pessoas a perdoar. A crença num poder superior que perdoa os pecados também pode inspirar o caminho do perdão.
A religião pode também moldar a visão de mundo de uma pessoa, influenciando a sua compreensão do sofrimento, da justiça/ injustiça e do propósito de vida. Uma visão de mundo que acentua a importância do amor e da compaixão pode facilitar o processo de perdão.
Enunciam-se alguns fatores fundamentais que mostram porque é importante perdoar e o que isso promove:
– Libertação emocional;
– Melhor saúde mental;
– Melhoria das relações e evitamento de conflitos prolongados;
– Crescimento pessoal;
– Paz interior e sentimento generalizado de bem-estar.
Alguns caminhos que facilitam o perdão

“Meditar ajuda a aumentar a nossa capacidade de regular as emoções, de sermos gratos, de nos focarmos no presente.” Foto © Patrick Schneider | Unsplash
Algumas terapias permitem trabalhar os processos de pensamento e as crenças relacionadas com o perdão, ajudando a mudar as perceções e interpretações da situação, a desenvolver empatia e compreensão e a promover um melhor entendimento do que realmente possa ter acontecido.
È, contudo, fundamental compreender que nem sempre precisamos de ajuda profissional para conseguirmos perdoar ou ser perdoados. Há caminhos nos quais devemos refletir, que podem depender de nós. Deixam-se algumas pistas:
– Investir em autoestima e autoconhecimento. Quanto melhor nos sabemos, também melhor conseguimos estar na relação com quem nos rodeia, sejam quais forem as exigências que possam surgir;
– Estabelecer limites saudáveis;
– Enfatizar a aceitação do passado no processo de reconstrução da vida após o perdão;
– Desenvolver resiliência, essencialmente a nível emocional;
– Meditar – ajuda a aumentar a nossa capacidade de regular as emoções, de sermos gratos, de nos focarmos no presente.
– Partilhar emoções com alguém em quem se confie;
– Cultivar a compaixão;
– Valorizar conscientemente as pequenas vitórias;
– Promover/ praticar o autoperdão;
– Praticar a empatia;
– Procurar contextualizar/ conhecer a realidade do outro;
– Desenvolver práticas que se revelem autorrealizadoras e gratificantes, em função dos interesses e competências de cada um – pintura, escrita, música ou outras expressões artísticas -, e, com isso, melhorar a satisfação e a motivação sentidas.
Vantagens do perdão
No ponto em que estamos desta narrativa é relevante elencar algumas vantagens do processo de perdoar. Sabe-se que este reduz o stresse, melhora a qualidade do sono, reduz o risco de algumas doenças, fortalecendo o sistema imunitário e, naturalmente, contribui para o aumento da longevidade.
Apesar disto o verdadeiro perdão deve ser, primeiramente altruísta. Ou seja não perdoo em função dos meus diretos benefícios, mas do que quero construir no contexto em que me insiro.
O que é mais difícil de perdoar

Jardim Henrique Lopes de Miranda, Lisboa: “Perdoar a sociedade ou as instituições responsáveis por essas injustiças pode ser quase missão impossível.”. Foto © João Fontes
Ao desenvolver este assunto não é possível afastarmo-nos da consciência de que diferentes temas têm diferentes dimensões neste processo. É por isso relevante enfatizar o que é mais difícil de perdoar. Passo a enumerar:
– Violência física ou sexual;
– Abuso emocional: a manipulação, o gaslighting [1] e a desvalorização constantes podem minar a autoestima e a confiança em si mesmo. Perdoar quem nos causou sofrimento emocional intencional pode parecer a quem perdoa que está a trair-se a si mesmo;
– Quebra de confiança de alguém em quem confiamos. Reconfiar não é um processo natural, pois exige a capacidade de voltar a acreditar em quem já nos atraiçoou, por assim dizer;
– Infidelidade: a traição num relacionamento pode gerar vários sentimentos negativos, nomeadamente de humilhação e desconfiança;
– Perda e luto: a perda de um ente querido pode gerar raiva e ressentimento, especialmente se a morte foi causada por outra pessoa;
– Perda de um sonho ou objetivo: quando um sonho é destruído ou um objetivo não é alcançado, pode ser difícil perdoar as circunstâncias ou as pessoas envolvidas nesse processo;
– Injustiças sociais como a discriminação: ser vítima de discriminação racial, religiosa, sexual ou de qualquer outro tipo pode gerar sentimentos de raiva e ressentimento profundos. Perdoar a sociedade ou as instituições responsáveis por essas injustiças pode ser quase missão impossível.
Para Concluir

Meryl Streep: “Já não tenho paciência para certas coisas.” Foto © Montclair Film /Flickr/ Commons.wikimedia
A cultura e a religião desempenham papéis significativos no processo de perdoar, mas é crucial reconhecer que não são determinantes absolutos do comportamento humano. Em muitos casos estão intrinsecamente ligadas, tornando difícil separar as suas influências.
Diferentes culturas têm visões distintas sobre o que constitui uma ofensa e como ela deve ser tratada. Algumas enfatizam, por exemplo, a importância da honra e da vingança, enquanto outras promovem essencialmente a reconciliação e o perdão.
Em certas sociedades, o perdão pode ser visto como um sinal de fraqueza, enquanto noutras é considerado uma virtude essencial.
Em culturas coletivistas, nas quais os laços comunitários são fortes, o perdão pode ser crucial para manter a harmonia social.
Em culturas mais individualistas, o perdão parece ser olhado como uma escolha pessoal, sem tanta pressão social.
É, apesar de tudo o que foi dito, crucial reconhecer que a cultura e a religião não são determinantes absolutos do comportamento humano. Indivíduos dentro de uma mesma cultura ou religião podem ter visões e experiências diferentes em relação ao perdão. Há que sublinhar que o perdão é um processo pessoal e complexo, influenciado por diversos fatores, como já vimos, incluindo experiências individuais, personalidade e valores pessoais.
Em suma – Mesmo considerando algumas divergências e opiniões, na nossa cultura e religião, o perdão é reconhecido como profundamente vantajoso e está ao alcance de todos nós, assim nos mobilizemos para o alcançar, seja qual for o sentido emergente – perdoar ou pedir perdão.
Termino com uma reflexão de Meryl Streep em tradução grosseira que, de certa forma nos mostra, entre outros aspetos, que devemos preservar a nossa liberdade para que tudo o que fizermos seja integro e, se possível, profundamente genuíno. Somos, afinal, gestores das nossas prioridades – «Já não tenho paciência para certas coisas, não porque me tornei arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida em que não quero perder mais tempo com o que me desagrada ou me fere. Não tenho paciência para cinismo, críticas e demandas de qualquer natureza excessiva. Eu perdi a vontade de agradar aqueles que não gostam de mim, de amar aqueles que não me amam e de sorrir para aqueles que não me dirigem um sorriso.»
Nota: Este artigo resulta de um workshop realizado por mim no Santuário do Cristo Rei no passado dia 22 de Março.
[1] Forma de violência psicológica subtil que causa instabilidade emocional. Pode envolver mentira e distorção da realidade com o intuito de desregular e controlar o comportamento da outra pessoa.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt









