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Descobridor-De-Nome-Eu começou a trilhar o seu caminho segundo a sua nova coordenada – a arte – no mapa de uma fé que se fazia mais e mais crescida e encontrada. Ilustração © Cláudio Louro (2025)

Nova coordenada: arte

Peregrinação: do despertar religioso à maturidade da fé (2/6)

| 29/12/2025

Peregrinação deriva do latim peregrinatio, referindo-se ao ato de peregrinar – em romaria a um lugar santo ou de devoção, ou uma visita na intenção de homenagear um lugar onde viveu alguém que se venera. Neste ensaio, escrito no âmbito da licenciatura em Ciências Religiosas, peregrinar estende-se ao caminho que se palmilha, sobretudo, o caminho da fé: uma viagem entre o seu despertar à maturidade religiosa, feita em seis temas. Depois do capítulo sobre os inícios de rota, este é o segundo tema.

Bom Caminho!

 

– É necessário reformular a rota! – pensou Descobridor-De-Nome-Eu. O aprendiz de viajante rumava agora para um novo horizonte de encontro. Nesta paisagem já não constavam grandes números, nem catálogos, nem contas de cabeça. A fé estava a começar a ser palmeada com o coração. Sim, eram passos pequeninos, alguns deles desconfortáveis, outros aparentemente insignificantes. Mas eram passos de um caminho maior.

Nesta etapa da viagem encontrou um novo amigo, uma criança!

– Como te chamas? – perguntou Descobridor-De-Nome-Eu.

– Chamo-me Já-Descobri! – respondeu a criança.

– Não é um nome tão grande quanto o meu, mas parece-me mais simples… – dizia o caminhante, marcando o seu passo a um compasso mais sorridente.

Já-Descobri também tinha o seu mapa de viajante, mas até ali já tinha atravessado montes e vales, palmeados com uma boa dose de “porquês”, descobertas, brincadeiras e… arte!

– Arte? – perguntou o negociante, ainda desacostumado a coisas-que-não-parecem-sérias.

– Sim! – respondeu a criança – Porque não cantas para Deus? Ele gosta de música, sabias?

Descobridor-De-Nome-Eu começou a guardar todas estas coisas no seu coração. Sabia que as crianças eram “as mais crescidas” no Reino do Amor e que tinha muito a aprender com as suas descobertas simples e tão genuínas.

1-Ilustração © Cláudio Louro 2025

Religiosidade com rasgos de Vida. Ilustração © Cláudio Louro (2025)

Já-Descobri partilhava o que os seus pais e educadores lhe falavam sobre o herói do Amor: Jesus! As canções, os teatros, as danças e as pinturas coloriam os dias desta criança e ajudavam-na a rezar e a crescer nesta viagem.

– Aprende a chamar Deus de Papá! – Dizia Já-Descobri – Assim vais conhecê-lo melhor e acreditar que podes cantar para Ele com alegria!

Passo a passo, Descobridor-De-Nome-Eu começou a trilhar o seu caminho segundo a sua nova coordenada – a arte – no mapa de uma fé que, aos poucos, se fazia mais e mais crescida e encontrada. O seu novo companheiro de viagem ensinava-o com a sua espontaneidade a arte da aprendizagem da religião. E esta já era sentida, pelo viajante descobridor, como uma palavra mais condizente com o seu “religado” coração.

 

A preparação da aprendizagem da religião em R. Goldman

Ronald Goldman, no seu livro Religious Thinking from Childhood to Adolescence, estuda o pensamento religioso das crianças e adolescentes, utilizando a metodologia de Jean Piaget. O objetivo é testar «os conceitos e a lógica das crianças, em relação às histórias e às experiências religiosas formadas pela total influência afeta à vida da criança, e não apenas os resultados obtidos do ensino na escola e na Igreja».1 Goldman pretendia também verificar se «os três estágios de Piaget poderiam ser aplicados ao reino do pensamento religioso».2

O autor utiliza o método clínico piagetiano, de entrevista, questionando cerca de 200 alunos, entre os 6 e os 17 anos, sobre três versões de histórias bíblicas e três imagens que ilustram cenas vinculadas à experiência religiosa.3 As histórias usadas correspondem às seguintes narrativas: Moisés e a sarça ardente, a Travessia do Mar Vermelho e as Tentações de Jesus. As imagens correspondiam às seguintes temáticas: Família a ir à igreja, Criança em oração, e Criança a olhar para uma Bíblia mutilada. A análise do que as crianças e adolescentes dizem sobre os diferentes conceitos religiosos espelham as possibilidades e limitações face ao ensino religioso.

Para a avaliação das respostas, Goldman usa dois painéis de 14 teólogos e psicólogos educacionais. O critério de correção consiste na abordagem teológica bíblica, isto é, a mesma que «a maioria dos estudiosos da Bíblia subscreveria na década de 1960».4

Relativamente aos resultados, verifica-se um paralelo com a teoria piagetiana, embora as fases de desenvolvimento emirjam em idades mais tardias. O desenvolvimento religioso, por ser mais complexo, é também mais demorado. Neste sentido, a capacidade cognitiva tem de se desenvolver com uma certa margem de avanço para conseguir captar e apreender o desenvolvimento religioso. As etapas de transição constituem uma novidade, comparativamente a Piaget, situando-se entre cada estágio, para a integração e progressiva consolidação das características apreendidas.

O Estádio 1 (dos 7 aos 8 anos) corresponde à fase do pensamento pré-religioso ao pensamento intuitivo. Caracteriza-se sobretudo por ideias ilógicas e conclusões inconsistentes e por um sentido de ausência de irreversibilidade. Os relatos religiosos são desprovidos de sentido simbólico, baseando-se na experiência de vida.

O estádio 2 (dos 8 aos 10 anos) corresponde a uma fase de transição, entre o pensamento intuitivo e o concreto. Na criança emerge a vontade de procurar explicações para lá do intuitivo. Embora as respostas assumam uma estrutura argumentativa circular, verifica-se uma maior harmonização dos dados apreendidos.

O estádio 3 (dos 10 aos 13 anos) refere-se à fase do pensamento sub-religioso. Caracteriza-se por uma lógica possível, mas limitada à experiência e à tangibilidade do que é visível. Neste sentido, há um entendimento literal das mensagens, mesmo as mais simbólicas.

O estádio 4 (dos 12 aos 14 anos) corresponde à primeira etapa da adolescência, caracterizada por um pensamento que transita do concreto para o abstrato. Há uma tentativa de aplicar um raciocínio mais abstrato a conceitos religiosos. O pensamento apresenta uma maior lógica, embora distraindo-se com elementos concretos, e um desejo de lidar com enunciados verbais e considerar hipóteses alternativas de forma mais aprofundada.

O estádio 5 (a partir dos 14 anos em diante) é marcado pelo pensamento hipotético- dedutivo, caracterizado por um pensamento abstrato e simbólico – representativo do pensamento religioso. Permite um enriquecimento e abertura da experiência religiosa.

2- Foto © Ahmad Odeh (2018)

A dança como expressão artística e espiritual. Fotografia © Ahmad Odeh (2018)

Mediante os resultados e conclusões obtidas, o trabalho de Goldman teve profundas implicações na educação religiosa e nas decisões pedagógicas da pastoral de certas igrejas, sobretudo na Inglaterra e na Bélgica Flamenga. Uma vez que a cronologia do desenvolvimento do pensamento deverá ser respeitada em cada uma das suas etapas, Goldman argumenta que «a educação religiosa das crianças, em anos pré-adolescentes, não deveria ser pautada por exigências intelectuais, dado que estas não conseguiriam ser apreendidas pelas crianças».5 Ao contrário da exposição de ideias pré-fabricadas, os professores ou catequistas deverão semear uma atitude de procura e de questionamento, abrindo caminho à aprendizagem do religioso «de forma lúdica»6. Assim, a educação pela arte emerge como método de ensino que capacita as crianças a «fantasiar o seu caminho para a religião»7 através da dança, do teatro, da música ou de outras expressões artísticas.

A música como expressão artística e espiritual. Fotografia © Ylanite Koppens (2018)

Goldman, no seu livro Readiness for Religion, escreve a base para o desenvolvimento da educação religiosa. Esta deverá estar enraizada na necessidade de não doutrinar, mas educar com maturidade, criando os alicerces para um ensino equilibrado e são do depósito da fé […] e para o florescimento de uma fé madura, expansiva e de encontro.8

A pintura como expressão artística e espiritual. Fotografia © Alena Darmel (2021)

 

Notas

1 Ronald Goldman, Religious Thinking from Childhood to Adolescence, citado em Olivera Petrovich, «Re-Review: Ronald Goldman’s “Religious Thinking from Childhood to Adolescence”», The Modern chuchman, tradução própria, 1988, ATLA Serials, p. 44, acedido a 14 de junho de 2021, https://www.researchgate.net/profile/OliveraPetrovich/publication/279229186_ReReview_Ronald_Goldman’s_Religious_Thinking_from_Childhood_to_Adolescence/links/5c2d24fd92851c22a3562cf2/Re-Review-Ronald-Goldmans-Religious-Thinking-from-Childhood-to-Adolescence.pdf.
2 Ronald Goldman, citado em Petrovich, p. 44.
3 Cf. Petrovich, p. 44.
4 Ronald Goldman, citado em Petrovich, p. 45.
5 Petrovich, p. 45.
6 Petrovich, p. 45.
7 Ronald Goldman, citado em Petrovich, p. 45.
8 Ronald Goldman, Readiness for Religion, Routledge & Kegan Paul Ltd, 1965.

 

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