Peregrinação deriva do latim peregrinatio, referindo-se ao ato de peregrinar – em romaria a um lugar santo ou de devoção, ou uma visita na intenção de homenagear um lugar onde viveu alguém que se venera. Neste ensaio, escrito no âmbito da licenciatura em Ciências Religiosas, peregrinar estende-se ao caminho que se palmilha, sobretudo, o caminho da fé: uma viagem entre o seu despertar à maturidade religiosa, feita em seis temas. Depois do capítulo inicial, sobre o início de rota, e de um segundo sobre a nova coordenada da arte, este é o terceiro tema, acerca do “tu” como nova coordenada.
Bom Caminho!
Já-Descobri tornou-se um amigo de viagem! Uma referência recíproca na partilha de crescimento e na arte de dar e receber.
– Obrigado pelo tanto que já aprendi contigo! – Dizia o Descobridor-De-Nome-Eu, cujos passos se davam cada vez mais inteiros e coerentes.
– Obrigado também por me ajudares a crescer! Sabes que nesta aventura da fé não crescemos sozinhos… – dizia Já-Descobri com aquela voz doce e sonhadora, de quem sopra um segredo bem guardado.
– Ai não? – interrogou o caminhante entre a dúvida e a ternura – Bem, eu já cresci contigo! E sabes que nunca fui uma pessoa de me dar muito aos outros… Concentrei-me demasiado nas minhas duas empresas e cresci mais sozinho…
– É sempre tempo de mudar! Vou te apresentar a alguém muito especial!! – disse Já-Descobri cheio de entusiasmo.
Passado algum tempo, Já-Descobri trazia a seu lado o seu avô.
– Descobridor-De-Nome-Eu, este é o meu avô Já-Sei. Pode ensinar-te muitas coisas!
O descobridor começou a deixar que o seu caminho fosse partilhado. A paisagem foi-se colorindo com uma diversidade cada vez maior de novas pessoas que ia conhecendo, mas, mais do que isso, que ia criando vínculos. A cada passo reconhecia-se e encontrava-se no outro, que o desafiava a crescer. Até que um dia, Descobridor-De-Nome-Eu descobriu um tu muito especial.
– Quem é? – perguntava cheia de curiosidade a criança Já-Descobri.
– Acho que é alguém tão descobridor quanto eu… – Respondia o descobridor.
E, sem se dar conta, a arte de confiar foi se transformando em arte de se entregar, tecida em laços de lealdade e de amor gratuito.
– Descobridor-De-Nome-Eu… – disse um dia a criança – Acho que nesta viagem o teu nome mudou. A partir de hoje vou chamar-te Descobridor-De-Nome-Tu.

Religiosidade ao encontro de um tu. Ilustração © Cláudio Louro (2025)
A teoria do desenvolvimento religioso de Erik Erikson
Erik Erikson, discípulo de Freud, dedicou-se ao estudo do desenvolvimento pessoal e social. Ao identificar como excessiva a ênfase Freudiana dada à sexualidade, Erikson elabora «uma teoria do desenvolvimento pessoal em que a dinâmica social tem um papel preponderante».1
[…] Paralelamente à teoria do desenvolvimento psicossocial, Erikson elabora uma teoria do desenvolvimento religioso. As resoluções positivas das crises, assim como as virtudes geradas em cada etapa, são sementes essenciais ao terreno fértil de uma fé em crescimento e maturação.
Na primeira etapa, o diálogo filial entre mãe e filho é o berço da fé no seu grau zero, pois nele se vai embalando a confiança primordial. A fé madura é um fruto que tem na sua germinação a confiança como condição necessária. Através dela se dá um êxodo umbilical – da mãe ao encontro do mundo, sentido pelo bebé como bom. Assim é gerada a esperança.
Na segunda etapa, o sentido de autonomia aliada à virtude da vontade contribui para uma fé que parte de uma «decisão independente que enfrenta o conflito entre a vontade própria e a dos outros».2 A “regra de ouro” enraíza-se na troca da boa-vontade, possibilitada pela recíproca limitação das vontades.3
Na terceira fase, a imaginação torna-se fermento ao desenvolvimento religioso, através dos rituais, leis e histórias enriquecedoras da personalidade, e à consciência moral. Já a culpa não integrada torna-se um obstáculo à maturidade.
Partindo de um ethos de produção e sentido de comunhão com o conjunto, a quarta etapa reflete o sentido religioso enquanto expressão social comum.4 O compromisso religioso é favorecido evitando o sentimento de inferioridade e potenciando o sentido de propósito.

Tu. Fotografia © Jose A. Thompson (2017)
Na quinta etapa a construção da identidade é essencial. A fidelidade a uma ideologia, a par com um compromisso, dá voz ao adolescente, contribuindo para o sentimento de pertença, sentido de serviço e um “sair de si”. A experiência do religioso proporciona um contexto ideológico gerador de sentido e significado, promovendo a unificação interior e possibilitando que a natural travessia pela crise de fé seja vivenciada sem indiferença, numa lealdade livre que sabe acolher a dúvida e as «inevitáveis contradições dos sistemas de valores».5
Na sexta etapa, a capacidade de vinculação, entrega e amor ao próximo tece laços de lealdade abraçada à fidelidade. A vocação é decidida à luz da fidelidade religiosa.6
Na sétima fase, a integração do adulto numa comunidade religiosa impele-o a sair de si, caminhando em direção a um amor que se faz dom – ágape – no cuidado amoroso à comunidade, às novas gerações, num compromisso com o futuro da sociedade.
Na oitava etapa, a sabedoria religiosa ajuda a lidar com o mistério da vida, reconciliando-se com o passado, e o mistério da morte, respondendo-a com amor.7

Encontro. Fotografia © Cláudio Louro (2021)
Notas
1 Cristina de Sá Carvalho, Curso Geral de Catequistas – Psicologia (Lisboa: SNEC, 2004), p. 39.
2 Cristina de Sá Carvalho, «O desenvolvimento religioso segundo E. Erikson», acedido a 15 de Junho de 2021,https://moodle.lisboa.ucp.pt/course/view.php?id=12698.
3 Cf. Carvalho.
4 É exemplo o trabalho em comunidade, ou em grupo, fazendo, juntos, a vontade de Deus.
5 Carvalho, «O desenvolvimento religioso segundo E. Erikson».
6 Cf. Carvalho.
7 Cf. Carvalho.










