Peregrinação deriva do latim peregrinatio, referindo-se ao ato de peregrinar – em romaria a um lugar santo ou de devoção, ou uma visita na intenção de homenagear um lugar onde viveu alguém que se venera. Neste ensaio, escrito no âmbito da licenciatura em Ciências Religiosas, peregrinar estende-se ao caminho que se palmilha, sobretudo, o caminho da fé: uma viagem entre o seu despertar à maturidade religiosa, feita em seis temas. A reflexão passou já pelo capítulo inicial, sobre o início de rota, e pelas novas coordenadas da arte, do “tu” e da missão dos cristãos. A seguir, aborda-se a ideia do regresso.
Bom Caminho!
Depois de uma jornada em busca de uma fé perfeita, Descobridor-De-Nome-Tu descobriu a valiosa imperfeição de uma fé que se quer em estado de caminho. Desde a sua bonita metamorfose, ou, por outras palavras, processo de conversão, o descobridor viajante aprendeu a arte do encontro consigo mesmo, com o outro e com Deus.
Após dias de discernimento resolveu regressar à terra que deixara. Como estariam as suas empresas? Como estariam os seus trabalhadores? Apesar de toda a incerteza de um futuro medido por contas reconfortantes da matemática, Descobridor-De-Nome-Tu escolhe enfrentar o incerto e integrar o medo e a possível fragilidade.
Ao regressar não regressava sozinho. Aprendera que para crescer é preciso partilhar e doar(-se). Trazia uma família que desabrochava num bonito amor filial. Mas trazia também um novo nome. Já não era o mesmo Descobridor-De-Nome-Eu que no passado ousava ter e fazer mais e mais. Algo de muito profundo, que os olhos não veem e o tato não alcança, acontecera em si. Integrava a sua história e todo o seu caminho, mas hoje um novo descobridor regressava à terra que o vira partir.
Chegou. As empresas desapareceram. Uns dizem que faliram. Outros que se transformaram. O que é certo é que no mesmo lugar uma outra se erguia, não em imponência, mas em simplicidade. Chamava-se agora a Empresa-Ser. Não era nenhuma fábrica de produtos em série. Pelo contrário, era um lugar onde a diversidade, a diferença, eram acolhidas e celebradas com amor e aprendizagem. Onde todos podiam ser um só Corpo. E eis que havia cada vez mais gente sedenta deste lugar.
Descobridor-De-Nome-Tu, integrando a perda das antigas coisas, olhava para o momento com gratidão. Podia agora ter a oportunidade de partilhar tudo o que aprendera aos que pudessem ter sede de encontro, de vida, de caminho.
Sim, este viajante descobridor descobrira uma fé adulta, feita de luzes e sombras, de graças e pecados, de harmonias e dissonâncias, que se compunha numa melodia crescida que se canta em amor maior.

Religare…. Ilustração © Cláudio Louro (2025)
A fé adulta em Paul-André Giguère
Paul-André Giguère retrata a idade adulta como «o grande período da estabilidade da vida»1, verificada tanto na dimensão física quanto na psicológica. Desde a adolescência, o ser humano vai construindo o seu sistema de valores e de crenças, modelando cada vez mais a sua unicidade. Nesta “idade da individualidade” as experiências tornam-se mais diversificadas, sendo vividas em maior número e sentidas de forma diferenciada por cada sujeito.2
Giguère identifica alguns fatores que contribuem para a enriquecedora diversidade pessoal: ao nível educativo e social, os sistemas de crenças e valores variam de acordo com o nível de escolaridade e contexto social; ao nível cultural, a forma de conceber o tempo, a família, o sentido do trabalho, bem como as convicções religiosas varia geograficamente3; ao nível da personalidade, a combinação das características pessoais; e ao nível biológico, as diferenças de género.4 Assim, a idade adulta é também denominada a “idade da diferença”, contribuindo a unicidade para a própria humanidade, na necessária complementaridade de recursos, atitudes e experiências.
A idade adulta é definida por Giguère a partir de quatro constantes ocidentais: a autonomia e responsabilidade; a experiência; os papeis sociais; e a relação com o tempo. Quanto à autonomia e responsabilidade por si mesmo, verifica-se no sujeito «a capacidade de iniciativa e independência de opções, baseadas na segurança, na autonomia e no desenvolvimento de identidade e das suas competências».5 É observável sobretudo ao nível da tomada de decisões, execução de projetos e estabelecimento de objetivos.
Em relação à experiência, a vivência múltipla de determinada situação promove um sentido de segurança, confiança, coerência e sentimento de autonomia. A experiência desempenha também um papel ao nível da identidade social do sujeito, estruturando o seu comportamento e a visão da vida e cristalizando modos de viver pela criação de hábitos, rotinas e tradições.
Quanto aos papeis e funções sociais, o sujeito abre-se a um conjunto de responsabilidades, expectativas, estabilidade e reciprocidade «face ao estatuto e papéis dos outros».6 Na relação com o tempo, o adulto vive-o enquanto bem escasso, valorizando-o enquanto lugar de experiências e de reflexão entre o passado e o futuro.
Mediante estas quatro constantes, o adulto parte em busca da felicidade e sentido existencial, articulado à cultura e heranças de valores e representações que constituem um retrato interpretativo dos acontecimentos condicionadores das opções pessoais.7 Ao progredir num contexto de autonomia e experiência, habitada pela iniciativa e negociação, o sujeito toma consciência do seu «valor, da sua utilidade, dos seus recursos pessoais e do seu potencial como modelo para outros».8
As características constantes da idade adulta, associadas à unicidade de cada um, vão também caracterizar a experiência de fé desta etapa de vida. Giguère reconhece que cada adulto tem o seu próprio itinerário espiritual: dentro de uma mesma Igreja, os sujeitos que a compõem vivem, a seu modo, a sua busca de sentido. É sublinhada a necessária legitimidade para com a diversidade – na Igreja deve estar vigilante para não cair na tentação de nivelar a comunidade, moldando cada fiel de acordo com um único padrão.9
Uma condição essencial para o êxito do percurso espiritual e religioso é a aceitação e a valorização da própria originalidade, o reconhecimento de que o rosto concreto da própria existência é o único lugar real da busca espiritual e de crescimento para a maturidade da fé. Os adultos que apreciam a sua unicidade podem abrir-se com respeito e simpatia às outras pessoas, entrando em verdadeira comunhão com elas.10

Ser Inteiro. Acrílico sobre tela e colagem © Cláudio Louro (2016)
No sentido de um encontro pessoal com a própria verdade, Giguère defende que o discernimento, enraizado na tradição da Igreja Católica, deveria ser mais valorizado e estendido a toda a existência. Assim se poderia ajudar a despertar o ser humano ao convite de Cristo “vem e segue-Me”.
A fé é caracterizada por Giguère como uma «rocha sólida sobre a qual se pode edificar a vida e o universo de sentido».11 Confere sentido à existência e abraça as grandes interrogações do ser humano, velando e desvelando na profundidade de um mistério inesgotável.
A fé participa do absoluto de Deus, precedendo os crentes. Não sendo reinventada por cada geração ou por cada indivíduo, a fé comporta uma exigência de estabilidade, pois o seu princípio é imutável: Deus é o mesmo, sempre.
Contudo, simultaneamente, a fé muda tanto na dimensão objetiva como na subjetiva. A fé é uma realidade dinâmica, no plano da sua compreensão e expressão. No decorrer da história assistiu-se a uma tradução e atualização da forma e significado da doutrina, segundo as mudanças históricas e culturais. A reformulação da linguagem à luz dos sinais dos tempos, na qual a tarefa hermenêutica teve um importante papel, é essencial pois «uma verdade que não é reelaborada na consciência humana é uma verdade traída».12 Todavia, o caráter dinâmico da experiência crente está também alicerçado noutro campo: o terreno de transformação, enquanto processo de conversão – tornar-se imagem e semelhança de Deus. Este processo exige um novo olhar sobre a realidade, assim como uma reunificação do ser. É um caminho de constantes recomeços, pela condição do ser humano como obra inacabada, num estado de criação em ato. Desta forma, crer não é uma experiência estática, mas uma experiência de crescimento por etapas em que o Homem é convidado a deixar-se mudar.
A fé adulta, em Giguère, é um caminho de maturidade. Sem idealismos ingénuos, integra as luzes e sombras do percurso, palmeado entre a graça e o pecado, a docilidade e a resistência, feito de impulsos e quedas, rumo a uma santidade que não consiste na perfeição moral, mas numa relação viva tanto nos momentos de fidelidade, quanto nos de cobardia.13 À semelhança de Erikson, para o qual a integridade é o último desafio da vida psíquica do adulto, a aceitação integral da existência tal como é, única e diferente, em todas as suas matizes é uma coordenada essencial no mapa de uma fé adulta, cuja maturidade implica um caminho por peregrinar.
Notas
1 P. Giguère citado em Cristina de Sá Carvalho, «A Religiosidade no Ciclo de Vida: um caminho para a maturidade da fé (UL 11)», acedido 16 de Junho de 2021, https://moodle.lisboa.ucp.pt/mod/resource/view.php?id=338121.
2 Cf. Paul-André Giguère, Una fe adulta, trad. Gregorio Otero, tradução própria (Santander: Editorial Sal Terrae, 1995), p. 16, acedido a 16 de junho de 2021.
3 Hoje em dia, essa geografia diversificada pode concentrar-se numa mesma cidade, mosaico intercultural e espelho de um mundo plural.
4 Cf. Giguère, Una fe adulta, pp. 16-18.
5 Carvalho, «A Religiosidade no Ciclo de Vida: um caminho para a maturidade da fé (UL 11)».
6 Carvalho.
7 Carvalho.
8 Carvalho.
9 Giguère, Una fe adulta, p. 30.
10 Giguère, pp. 31-32.
11 Giguère, p. 35.





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