Peregrinação deriva do latim peregrinatio, referindo-se ao ato de peregrinar – em romaria a um lugar santo ou de devoção, ou uma visita na intenção de homenagear um lugar onde viveu alguém que se venera. Neste ensaio, escrito no âmbito da licenciatura em Ciências Religiosas, peregrinar estende-se ao caminho que se palmilha, sobretudo, o caminho da fé: uma viagem entre o seu despertar à maturidade religiosa, feita em seis temas. A reflexão passou já pelo capítulo inicial, sobre o início de rota, e pelas novas coordenadas da arte, do “tu” e da missão dos cristãos. O texto anterior abordou a ideia do regresso e este último capítulo trata as coordenadas do nós.
– Ei-lo, o horizonte! – disse Descobridor-De-Nome-Tu a Já-Descobri.
Estavam os dois a contemplar o pôr do sol, como quem contempla caminho partilhado e histórias vividas. Já-Descobri fitava-o com admiração e sonho.
– Sabes? Não sei se me continuo a chamar Já-Descobri… – disse-lhe em jeito de desabafo.
– Então porquê? – perguntou o descobridor, como que a descobrir o que se avizinhava.
– Sinto-me diferente, com mais perguntas que respostas…Sinto que afinal parece que não descobri tudo. – respondia entristecido e algo culpado.
– Nada disso! Tu descobriste tudo – respondeu Descobridor-de-Nome-Tu olhando-o nos olhos – Estás a crescer! A atravessar uma nova paisagem, rumo ao teu próximo nome!
– Qual será o meu próximo nome? Como será que serei daqui a quilómetros de caminho? – perguntava-lhe a criança-adolescente.
– Ninguém sabe. Mas vive essa paisagem com os teus passos, a tua verdade, aceitando quem és! Talvez te tornes um Já-Me-Aceitei, que é dos nomes mais bonitos que podes encontrar!
Já-Descobri deu um forte abraço a Descobridor-de-Nome-Tu.
– Agradeço ao Papá o teu crescimento tão bonito! – dizia chorando – espero crescer na fé assim como tu!
Descobridor-de-Nome-Tu aconchegou-o e olhando o horizonte disse:
– Descobri que a fé germina a cada tempo e a cada etapa. Para tudo há um tempo debaixo do Céu. Há que vivê-lo. Assim, aceitando-o acolhes toda a sua paisagem: os montes e os vales, as luzes e as sombras, a primavera e o outono, o verão e o inverno, os dias e as noites. Mas sabendo sempre que o Papá te acompanha e que te dá a mão para o Reino de Amor e de Humanidade. Ele quer que vivamos uns para os outros.
Os dois ficaram em silêncio. Agora era Deus que cantava para eles.
A criança disse baixinho:
– Acho que já mudei de nome e tu também. Eu chamo-me Já-Me-Aceito e tu Descobridor-De-Nome-Nós.

O fruto de nos religarmos…. Ilustração © Cláudio Louro (2025)
A maturidade da fé em E. Alberich
Emílio Alberich, no seu livro Les Fondamentaux de la Cathéchèse, define a fé como «fruto do encontro entre a graça de Deus e a liberdade humana».1 Perante a interpelação pessoal da Palavra de Deus, a fé é uma resposta que se faz entrega confiante. Assim, é solicitado ao sujeito um envolvimento integral da sua pessoa.2 Alberich também reconhece na fé uma dinâmica de bipolaridade: entre a experiência da conversão – adesão global – e a progressiva experiência do conhecimento – opção de fé desenvolvida e aprofundada; e entre a fé existencial – fé como confiança – e a fé doutrinal – fé como conteúdo.3
O crescimento da fé é desenhado enquanto caminho: partindo da conversão, a fé desenvolve-se habitando o ser humano na sua integralidade, num rumo orientado para a sua maturação. Essa mesma integralidade constitui-se numa recíproca triangulação de dimensões, através das quais se desenvolve a maturidade da fé nas suas dimensões: afetiva, cognitiva e ativa. A interiorização das atitudes de fé possibilita um diálogo fecundo entre estas dimensões, numa atitude global que integra o conjunto de valores e motivações.4
Quanto ao ponto de partida, a conversão, do latim conversio, é um processo de “rotação”, de viragem. A entrada neste umbral da fé é feita num «movimento de transição e de transformação, de mudança por etapas, afectando a pessoa no seu ser profundo e na sua identidade relacional».5 A iniciação cristã é vivida existencialmente em três fases: uma etapa de separação, de rutura com o passado; uma etapa de prova e de combate; e uma etapa de renovação, adquirindo uma nova identidade – em Cristo – e um novo sentido de pertença.6
Em relação às atitudes de fé, a sua interiorização é expressão de uma dinâmica cujo fruto é a maturação da própria fé. As atitudes traduzem-se em modos de ser, ações consubstanciadas cujo caráter durável mobiliza as esferas do afeto, da cognição e da ação.7
A maturidade da fé ao nível da sua dimensão cognitiva define-se como uma fé informada e aprofundada, crítica e autocrítica e capaz de discernir o essencial e o contingente. A fé madura alicerça-se na razoabilidade, equilíbrio, sentido construtivo e em argumentos estudados. Opõe-se, assim, a uma fé que se cristaliza com aparências de fidelidade, reduzida na sua rigidez e imposição ao fundamentalismo e à intolerância.8
Na sua dimensão afetiva, a maturidade da fé consiste numa adesão livre e autónoma à interpelação cristã. Uma fé que «implica liberdade interior e superação do egocentrismo, sem ansiedade ou frustração»9 e cujos frutos são múltiplos: abertura à criatividade, à partilha, à mudança, ao diálogo enriquecedor com a diferença, comunicativa e desejosa de “sair para fora”. Uma fé sem medo, «fonte de interpretação e iniciativas […] capaz de envolvimento a longo termo»10, opõe-se a uma fé mercantil, auto-suficiente, que se fecha em si própria, refugiando-se em atitudes defensivas, máscaras das suas próprias inseguranças e frustrações.
A maturidade na sua dimensão ativa corresponde a uma fé coerente e dinâmica que se traduz na ética de cada dia. O crer e o viver correlacionam-se, reforçando a motivação para a ação e o seu reforço respetivo. Opõe-se a uma fé sem coerência nem unidade, estereotipada, formalizada e dissociada da vida nas suas diferentes dimensões.11
Assim a maturidade na fé «aponta para um conjunto de competências interiorizadas e postas em prática, tanto no domínio do ser, do saber, como do saber fazer»:12 articula-se uma fé lógica, coerente e consequente.

A maturidade da fé feito voo de liberdade. Fotografia © Rowan Heuvel (2015)
Relativamente ao domínio do ser, uma fé madura tem por base uma relativa maturidade psicológica, reflectida sobretudo a nível relacional: crescimento afetivo e moral, desenvolvimento do sentido crítico, unidade interior, capacidade de diálogo e de cooperação, espírito construtivo e comunitário e trabalho em equipa.13 O crescimento na fé espelha também um amadurecimento como crente e apóstolo, enquanto testemunho vivo, credível e evangelizador. Neste trilho de maturação abraça-se uma identidade religiosa personalizada e livre que vive uma espiritualidade encarnada na «alegria de ser cristão».14 A fé é aceitável na cultura, num diálogo que é tecido numa atitude de discernimento regida pelos valores cristãos. O sentido de pertença à Igreja constitui um alicerce característico de uma fé madura, pautado por uma sensibilidade comunitária e consciência apostólica, que por sua vez se expressam numa participação consciente, ativa e (co-)responsável. Este caminho de maturidade conduz a um horizonte de entrega e de serviço rumo à transformação da sociedade. A consciência ética e empenho no mundo articulam-se com um forte espírito de solidariedade para com os pobres e marginalizados, abrindo-se com equilíbrio e respeito ao diálogo intercultural e religioso,15 num contexto mundial marcado pela diversidade.

Unidade na diversidade. Fotografia © Cottonbro Studio (2020)
Em relação ao domínio do saber, destaca-se a importância da formação da identidade cristã do agente pastoral, no conhecimento que o mesmo tem de si próprio, bem como no conhecimento dos conteúdos que possibilitam a determinação de uma pedagogia adequada. O conhecimento abraça não apenas os conteúdos teológicos, como também os conteúdos pedagógicos, baseados no conhecimento da gestão de grupos e assentes no “modo” de educar do agente pastoral. A sua formação não só fecunda a própria vivência cristã, como se espelha no ato de educar.
Quanto ao saber fazer, a educação da fé deve ser orientada para a sua maturação e crescimento, sem exercer a um nível teológico «uma influência direta sobre esta fé que é uma graça de Deus e uma resposta livre da pessoa humana».16 No entanto, a catequese deve assumir a sua «natureza autenticamente educativa»,17 no sentido de orientar o crescimento da fé, vinculado a «um crescimento pessoal, livre e interiorizado, em direção a um projeto de vida aberto aos valores e capaz de discernimento crítico».18
Neste sentido, a catequese deve corresponder a uma educação global da pessoa, cujas metas se desdobram no apoio e estimulação à conversão, no apoio e reforço das atitudes de fé, na educação para um agir cristão e numa justa transmissão da mensagem cristã para a sua integração e vivência. Estes objetivos devem ser estabelecidos claramente e conjugados com uma pedagogia “de relação”, isto é, um ato de educar desenhado através de uma experiência relacional profunda com o grupo, valorizando cada elemento e criando espaço para a mútua confiança e sentido comunitário. A par de uma linguagem adequada e diferenciada ao conteúdo da comunicação, o discurso deverá despertar interrogações e a motivação para trilhar este caminho de fé e de crescimento humano.
Assim, educar para a formação global (ser, saber e saber fazer) é ser um artesão de uma fé de encontro, consigo, com os outros e com Deus, em passos de progressiva maturidade e humanidade.
Em jeito de fecho… ou de novo começo
Peregrinar representa um ato de caminho que se faz presente a cada instante. […] Caminhar rumo a uma fé de encontro, livre de cargas funcionais e vazias, é um desafio cuja arte pode ajudar a trilhar, abrindo rasgos de maturidade e profundidade do que somos e da nossa própria humanidade. Uma humanidade que se encarna no outro, num tu que me interpela, me desafia, me faz crescer. Crescer também nas interrogações que me habitam, no que sou chamado a ser, a fazer, a transformar. Transformam-se também as imagens de Deus. Despem-se de infantis imagens, dando lugar a profundíssimos convites de caminho de inteireza. Aí nos fazemos adultos, ainda que sejamos habitados pela criança que nos abre à arte da autenticidade.
Autêntica se torna a nossa maturidade, enquanto horizonte que não acaba. E continuamos. Continuamos rumo a um nós, com destino a uma fé que ao ritmo dos passos palmeados vai rasgando os véus do Mistério da vida, do Mistério que somos e do Mistério de Quem incondicionalmente nos ama, peregrinando connosco.
A caminho de uma religiosidade de encontro”
Nestes passos, vêm ao de cima as antigas lutas
Cercam-me os juízos.
Injustos juízos
Dos que se acham juízes da vida
E do mundo.
De um mundo
A preto e branco.
De um mundo
Sem lugar para aqueles
Cujo molde difere da medida única
Com que perscrutam as gentes
Diferentes.
Cercam-me os juízos,
Incessantes vozes
Que evocam as ameaças
De uma guerra entre um nós
E um eles.
Incessantes muros que dividem
O bom e o mau
Como se os corações
Fossem submetidos a equações matemáticas
E a detalhados exames de álgebra.
Cercam-me os juízos,
Amarras que me prendem
A formalismos
Formados com formas floreadas
E tão vazias de amor.
Mordaças
Que silenciam a minha verdade
E calam a minha voz.
E gritam: medo!
Cercam-me os juízos.
Tentadores vendedores de erros
E de culpas,
Das sombras dos nossos dias
A troco, não de crescimento,
Mas de curas fáceis
Que não sanam.
Negociantes de verdades
E de interpretações
Com descontos para compradores
Moldáveis às suas próprias prisões.
E no meio destes passos de confusões,
Recordo a voz do Mestre:
“Está escrito: A minha casa é casa de oração
Mas vós fazeis dela um antro de ladrões!”
Escolho libertar-me destes saldos de fés
Em promoção.
Há que derrubar as mesas
Dos trocadores de moedas
E os bancos dos vendedores de pombas.
E ser.
Ousar dar passos de encontro.
Acolher o tesouro escondido
A verdade nua
Rumo ao horizonte de mim.
Abraçar-me na diferença que sou,
Vaso de barro,
Amado por Aquele que me criou
E ilumina.
E me convida… a crescer.
Esse amor meu que se faz presente
“Ainda que ande por vales tenebrosos,
De nenhum mal terei medo,
Porque Tu, Amigo, estás comigo.
Unges com óleo a minha cabeça
E a minha taça transborda”
Bom pastor,
Que me convidas à verdade e à diferença
Bom pastor,
Que me ensinas a arte da diversidade
Bom pastor,
Que me ensinas a rasgar véus
e a peregrinar o Caminho
Do amor.
Poema de Cláudio Louro (2021)

Caminho. Fotografia © Cláudio Louro (2024)
Notas
1 E. Alberich, Les Fondamentaux de la Cathéchèse, citado em Carvalho, «A Religiosidade no Ciclo de Vida:um caminho para a maturidade da fé (UL 11)».
2 Cf. Carvalho.
3 Cf. Carvalho.
4 Cf. Carvalho.
5 Carvalho.
6 Cf. Carvalho.
7 Cf. Carvalho.
8 Cf. Carvalho.
9 Carvalho.
10 Carvalho.
11 Cf. Carvalho.
12 Carvalho, Curso Geral de Catequistas – Psicologia, p. 146.
13 Cf. Carvalho, p. 147.
14 Carvalho, p. 147.
15 Cf. Carvalho, p. 148.
16 Alberich, citado em Carvalho, «A Religiosidade no Ciclo de Vida: um caminho para a maturidade da fé (UL11)».
17 Carvalho.
18 Carvalho.




![Da liturgia de bem lutar [a] toda a arte: Se nos deixássemos vencer assim? (II) L'Homme qui marche». Alberto Giacometti.](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2026/06/1-2-e1782037189465-480x270.jpg)





