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Caminho, entre a terra e o céu (recortada). Foto © Cláudio Louro (2020).
Caminho, entre a terra e o céu. Foto © Cláudio Louro (2020).

Um percurso espiritual (1/6)

Peregrinação: do despertar religioso à maturidade da fé

| 28/12/2025

Peregrinação. Segundo o Dicionário, a palavra deriva do latim peregrinatio, referindo-se ao ato de peregrinar. Viagem por países longínquos, em romaria a um lugar santo ou de devoção, ou uma visita na intenção de homenagear um lugar onde viveu alguém que se venera. Todavia, na narrativa e textos que se seguem, peregrinar estende-se ao caminho que se palmilha, sobretudo, o caminho da fé: uma viagem entre o seu despertar à maturidade religiosa.

Peregrinação: do despertar religioso à maturidade da fé, foi escrito no âmbito de um portfólio de Psicologia e Pedagogia da Religião, orientado pela professora doutora Cristina Sá Carvalho, no contexto da licenciatura em Ciências Religiosas (2021).

Organiza-se em seis temas (capítulos), explorados de acordo com os autores e as teorias estudadas em aula. No entanto, estas páginas procuraram também ser “contadoras de histórias”. O fio condutor que vai tecendo e atravessando o conjunto de temas, apresentando-os através da narração, convida o leitor a ser peregrino, percorrendo esta viagem que se vai abrindo ao horizonte de ser, paisagem de uma fé madura.

Cada capítulo desdobra-se nesta narrativa, seguida de uma ilustração e finalizada na abordagem à teoria do autor e do tema respetivo.

Bom Caminho!

Era uma vez um viajante. Um caminhante de rotas de Deus. Chamava-se “Descobridor-De-Nome-Eu”. A sua história tem de ser trilhada desde início. Foto © Cláudio Louro. pés caminhada caminho chão folhas

Era uma vez um viajante. Um caminhante de rotas de Deus. Chamava-se “Descobridor-De-Nome-Eu”. A sua história tem de ser trilhada desde início. Foto © Cláudio Louro.

Capítulo 1: Inícios de rota

Era uma vez um viajante. Um caminhante de rotas de Deus. Chamava-se “Descobridor-De-Nome-Eu”. Nem sempre se descobriu descobridor. E muito menos de caminhos transcendentes. A sua história tem de ser trilhada desde início.

O seu nome peculiar adjetivava o seu gosto particular pelo mundo das suas coisas. Notável negociante, substituía o pôr-do-sol pela tépida luz das suas duas empresas: a Empresa-Do-Ter e a Empresa-Do-Fazer. Negócios que iam de vento em poupa! Cada vez mais lhe chegavam novos estagiários, sedentos de algo que nem o próprio Descobridor-De-Nome-Eu sabia explicar. Um fenómeno que fazia disparar os índices da confiança e as receitas do conforto. Mas eis que surge Aquiles com o seu frágil calcanhar: a confiança. Descobridor-De-Nome-Eu não conseguia confiar. As bolsas de mercado tinham valores um tanto ou quanto mais confiantes do que este negociante. Por isso resolveu mudar:

– Irei aprender a arte da confiança! Tornar-me-ei o seu melhor artesão! Construirei a Empresa-Da-Fé!

Determinado em iniciar a sua viagem, decide procurar os caminhos mais ágeis e práticos para aprender semelhante ofício. O tempo é valioso para o negócio, por isso quanto mais rápido melhor! Pelas ruas e praças do quotidiano estendia o mapa de coordenadas da fé.

– Está na hora de descobrir a melhor rota para uma fé perfeita!

Descobridor-De-Nome-Eu há muito que não entrava numa Igreja ou vivia um ritual religioso. O termo “religião” era para si algo que lhe soava a estranho, não condizente com a moda dos seus dias ou a modernidade dos seus negócios. No entanto, trazia consigo as reminiscências de infância, de uma fé semeada pelos seus avós. Eis que decidiu resgatá-la!

Passado algum tempo, Descobridor-De-Nome-Eu já teria ido a 237 missas, variáveis em confissão, e já contabilizaria um catálogo de 300 rezas diferentes, uma para cada desconforto do dia. Os seus hábitos de negócio moravam agora numa fé que se fazia com contas de cabeça.

– Quanto mais melhor! – pensava. A sua sede de confiança era tanta que a cada dia da semana ia a um rito diferente para a sua proteção ser completa: às segundas entrava na mesquita, às terças na igreja paroquial, às quartas ia ao templo hindu, quintas era dia de comprar amuletos, às sextas passava pelo centro budista, aos sábados tinha a sua reunião com o grupo que promovia uma cura e proteção imediatas (com desconto para principiantes) e aos domingos iniciava a semana com um banho de sal purificador. No entanto, algo fazia com que o seu talento para a fé não viesse ao de cima. Seria necessária menos funcionalidade e mais encontro?

Religiosidade com contas de cabeça. Ilustração © Cláudio Louro (2025). contas matemática pessoa

Religiosidade com contas de cabeça. Ilustração © Cláudio Louro (2025).

Religiosidade funcional e religiosidade de encontro em António Ávila

Segundo o autor Antonio Ávila, o complexo fenómeno da religiosidade é entendido e vivido num continuum situado entre dois polos: a religiosidade funcional e a religiosidade de encontro.

 

Um vídeo-ilustração, com poema de Cláudio Louro (2021) sobre a caminhada entre uma religiosidade funcional e religiosidade de encontro:

 

  1. a) A religiosidade funcional:

A religiosidade funcional corresponde à «vivência da religiosidade, entendida como um meio de satisfação de necessidades; […] como fonte de segurança, integração pessoal ou social».[1] A complexidade das suas motivações enraíza-se na busca de uma fonte de preservação ou de realização de desejos, inerentes à condição humana: sentido de pertença a grupos que representam segurança e proteção; sentido de apaziguamento da consciência face à culpa.

Quanto às suas características, este padrão de religiosidade tinge-se de matizes associadas ao temor e à culpabilidade, delineadas numa pobreza de sentimentos. A relação com a transcendência desenha-se segundo uma perceção mercantil: o Homem serve-se da divindade para a sua própria utilidade.

A mentalidade idolátrica e mágica do sujeito é espelhada ao nível do seu comportamento, cuja máxima se rege por agradar à divindade. A própria oração é moldada pela esporadicidade e petição, segundo esquemas comerciais de favores e de proteção. A sua finalidade, consciente ou inconsciente, é que “seja feita a minha vontade, assim na terra como no céu”. A vivência do ritual expressa-se por esta busca “rápida, fácil e segura”, na perspetiva de resultados imediatos “à distância de uma prece”. As receitas desta “fé instantânea” partem, com frequência, de «certas autoridades (pais, sacerdotes, gurus…) que apresentam uma doutrina clara que dá segurança aos seus participantes».

Religiosidade funcional. Ilustração © Cláudio Louro (2021) culpa pecado

Religiosidade funcional. Ilustração © Cláudio Louro (2021).

A perceção da realidade tinge-se de negatividade, num retrato onde o pecado generalizado, o mal, o distanciamento de Deus, compõem o cenário demoníaco que encaminha o mundo para a condenação. Face a uma visão hostil do mundo e da sociedade, ergue-se uma atitude defensiva e de frequente intransigência, na qual a mudança é catalogada como adversa. Neste quadro assiste-se também a uma relação institucionalizada com a religião: a prática reduz-se ao âmbito do privado mesmo em celebrações coletivas, despidas de significado e de simbólico para os sujeitos. Esvaziada de grandes conceitos, a experiência religiosa adquire uma vivência pragmática e formal, na qual emergem papeis distintos: o sacerdote, enquanto figura especialista do sagrado, e os fiéis, enquanto espetadores carentes de conteúdo.

No retrato desta experiência de fé podem sobressair duas atitudes principais: em alguns casos uma preocupação com a ortodoxia, na tentativa de conhecer os ritos que permitem manipular a divindade; noutros casos uma postura eclética, baseada na filtragem do que é útil e sem exigência. Assim, há uma certa tendência para a incoerência, na vivência de uma religiosidade desarticulada da dimensão ética e que não se torna terreno fértil à semente transformadora da fé.

Estes comportamentos desaguam no próprio processo estruturador da personalidade, enraizando-se em modos infantis e imaturos de conceber a religiosidade, e cujas vivências podem gerar frutos patológicos, nomeadamente, conflitos profundos de personalidade. Os alicerces da religiosidade funcional sustentam-se na insegurança e na cultura volátil que marcam o homem moderno. Neste sentido, esta forma de vivência do religioso, exterior ao sujeito, emerge naturalmente com múltiplas roupagens – esoterismo, adivinhação, ocultismo – tecendo-as com linhas sincréticas e bordando-as com absolutizações.

 

  1. b) Religiosidade de encontro

A religiosidade de encontro corresponde à «religiosidade como experiência de encontro com uma realidade última e transcendente». Esta vivência, experienciada a partir da interioridade do sujeito, tem a capacidade de dar sentido e amadurecer. Contudo, não é isenta de traços imaturos e antropomórficos. As motivações são independentes das necessidades básicas humanas, conferindo unidade e integração à existência e enraizando-se na busca de sentido, num horizonte de auto-realização. O Homem é convidado «a ser em plenitude, a desenvolver a sua capacidade de amar, sobretudo um amor gratuito que se faz dom.

Quanto às suas características, este padrão de religiosidade é rico e complexo, assente numa pluralidade de sentimentos que constituem um todo harmónico e se articula com a personalidade do sujeito. A relação com a transcendência não é instrumental ou convencional: «Deus é o centro da vida e o homem é convidado a compreender-se em relação com Ele, com os outros e com o mundo». O sujeito sente que Deus, enquanto Verdade e Sentido Último, toma a iniciativa e interpela-o para uma missão, um caminho de crescimento, transcendência e abertura ao mistério profundo da (sua) existência. A oração, como expressão da relação entre o homem e a divindade, é moldada no amor. Assim é movida a aceitação, até atingir a orante e inteira finalidade “seja feita a tua vontade”.

Religiosidade de encontro. Ilustração © Cláudio Louro (2021) verdade diferença vida

Religiosidade de encontro. Ilustração © Cláudio Louro (2021)

A perceção da realidade constrói-se segundo uma cosmovisão ou filosofia de vida articulada com uma harmónica compreensão da existência: da natureza à sociedade, da história ao mistério da história de cada um no seu papel a desempenhar no universo. Assim, há uma ausência geral do sentimento de confusão, associado à dimensão material, moral, emocional, e as noites escuras são entendidas, aceites e integradas como momentos transitórios e fecundos.

A religiosidade de encontro integra a pessoa na sua plenitude, no sentido em que está presente em todas as esferas da vida do sujeito. Neste sentido, apresenta um caráter heurístico, alicerçado na necessidade da busca da Verdade, aceitando a sua inefabilidade e permitindo que germine e floresça no fértil terreno da interioridade. A aprendizagem progressiva de um “rasgar de véus” desnuda o homem e impele-o a aceitar as suas próprias fragilidades, abrindo o seu diálogo à compreensão, tolerância e escuta dos outros e do mundo.

A experiência de encontro cristaliza-se em atitude, expressão de uma vivência transformada e que se caracteriza por uma coerência entre o que Deus chama o ser humano a fazer, traduzido numa escala de valores, e os comportamentos. Assim, a moralidade vivida no quadro de uma religiosidade madura conduz a um processo de integração e pacificação. A atitude de abertura e de amor ao próximo são frutos deste encontro que se reaviva, nutre e se quer testemunhar e expressar aos outros, nomeadamente através da evangelização. Ao articular-se a vivência pessoal à partilha e expressão comum, emerge a comunidade enquanto mosaico rico em diversidade: a união de homens e mulheres que partilham o que experienciam numa linguagem comum.

Ao nível da personalidade, a religiosidade de encontro é vivida num ritmo contínuo e permanente, pautada pela maturidade e pelo seu caráter complexo e totalizante, articulado com todas as esferas da personalidade (afeto, cognição, vontade, mecanismos conscientes e inconscientes). Motiva a coerência pessoal ao nível ético, que se manifesta na opção pela construção do mundo e na capacidade para amar gratuitamente, apresentando um «caráter genético-evolutivo» – a conversão é um processo permanente. Os fundamentos da experiência religiosa de encontro assentam no crescimento harmónico integral da personalidade e também na receção sana, equilibrada e madura do depósito da fé.

Tal como refere A. Ávila, entre um polo e outro da experiência de religiosidade situa-se a totalidade da população, que vivencia cada uma destas formas no sentido de uma vivência cada vez mais inteira e de encontro, ao ritmo oscilante da maturação, expansão e crescimento.

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Caminho, entre a terra e o céu. Foto © Cláudio Louro (2020).

 

NOTA

[1] Esta e as citações seguintes, bem como esta parte do texto, é redigida a partir de Antonio Ávila, La psicología de la religión, tradução própria, Editorial Verbo Divino, 2003, pág. 75-78.

 

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