“Peregrinação pelas igrejas de Lisboa”, inédito de Felicidade Alves em livro electrónico

| 15 Dez 20

José da Felicidade Alves

Felicidade Alves (2º à esqª), em Fevereiro de 1957, a receber, nos Jerónimos, a visita da rainha Isabel II, de Inglaterra, durante a vinda da monarca inglesa a Portugal. Foto: Casa Comum-Arquivo Padre Felicidade/Fundação Mário Soares

 

A obra inédita de José da Felicidade Alves, Peregrinação pelas Igrejas de Lisboa, começou nesta segunda-feira, 14 de Dezembro, a ser publicada em formato de livro electrónico, no portal de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. A data coincide com o dia em que se assinala o 22º aniversário da morte do antigo pároco de Belém (Lisboa), suspenso a divinis pelo então cardeal Gonçalves Cerejeira, patriarca de Lisboa.

Para já, estão publicados os três primeiros tomos da obra, dedicados a Templos anteriores à conquista de Lisboa aos Mouros (1147), As Igrejas medievais (1147-1495), e As Igrejas do século XVI (1495 -1580). No prelo, estão os restantes quatro: As Igrejas de Lisboa desde 1580 a 1755; As Igrejas de Lisboa ao Tempo do Terramoto; As Igrejas de Lisboa desde 1755 a 1834; e Panorama das Igrejas existentes no séc. XIX e séc. XX (1834-1995).

Esta Peregrinação… é uma das obras que Felicidade Alves escreveu, dedicadas a aspectos da arte, património e cultura de Lisboa. O texto integrava o espólio de José da Felicidade Alves, diz o Centro Nacional de Cultura (CNC), uma das entidades parceiras da iniciativa. A inventariação dos documentos permitiu identificar um conjunto de volumes manuscritos com o título agora disponibilizado.

A proposta de edição foi depois apresentada ao CNC pelos coordenadores, João Salvado Ribeiro e Abílio Tavares Cardoso. O historiador José Mattoso contactou pessoalmente alguns investigadores para analisar o manuscrito, avaliando a sua pertinência.

Decidida a publicação do manuscrito, acrescida de notas críticas preparadas por uma equipa de investigadores, ela avançou com uma parceria do CNC com o Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), da Universidade Católica, e o apoio da Fundação Gulbenkian. No website criado e desenvolvido para o efeito, reúne-se a informação sobre esta iniciativa editorial e a sua divulgação, além de ficarem disponíveis os próprios livros em formato PDF.

No prefácio da obra, José Mattoso escreve que a Peregrinação… constitui “não só uma fonte de informação sistemática e bem seleccionada dos dados mais importantes para a história da arte sacra e da história religiosa da cidade de Lisboa, mas também uma novidade importante do ponto de vista da historiografia medieval”. Entre outros aspectos, acrescenta, “o conjunto das notas de actualização de conhecimentos reunidas por Paulo Almeida Fernandes transmite uma visão completamente diferente da que anteriormente se conhecia a tal respeito, com base na cronística seiscentista e setecentista”.

 

De padre “notável” a excomungado em dois anos

Felicidade Alves: o cardeal Cerejeira excomungou-o em 1970, o cardeal Policarpo pediu perdão e casou-o catolicamente em 1998. Foto: Casa Comum-Arquivo Padre Felicidade/Fundação Mário Soares

 

José da Felicidade Alves foi uma das personalidades católicas mais destacadas das décadas de 1950-1960. Nascido em 1925, em Salir de Matos (Caldas da Rainha), foi ordenado padre em 1948 e desde cedo se destacou a sua inteligência, carácter e cultura, como destaca a biografia incluída na página agora criada.

Durante oito anos, enquanto professor dos seminários do patriarcado de Lisboa, contribuiu para a formação teológica de mais de uma centena de padres, um terço do total que à data pertenciam à diocese da capital. Ao mesmo tempo, frequentou mais de duas dezenas de cursos de formação, em diferentes áreas de acção pastoral.

Em 1956 foi nomeado pároco de Santa Maria de Belém (Jerónimos) e de São Francisco Xavier. Em Maio de 1968, o cardeal Cerejeira acabaria por reconhecer, “a sua notável obra pastoral, primeiramente no Seminário dos Olivais, ultimamente nas paróquias de Santa Maria de Belém e de São Francisco Xavier”, como se recorda no livro Testemunho Aberto (Multinova, 1999, p. 145), que reúne a documentação sobre o seu processo.

No final desse ano, no entanto, Cerejeira inverteu a avaliação, por causa de um documento em que Felicidade Alves denunciava “a censura, a polícia política, a prisão sem culpa formada, a tortura física e moral, o totalitarismo do medo”, ao mesmo tempo que defendia “o direito de reunião, o direito à informação e à plena autonomia dos povos colonizados”, colocando em causa o papel da Igreja Católica em Portugal.

A consequência foi o seu afastamento compulsivo da paróquia de Belém e a suspensão do padre a divinis, o que significava que ele deixava de poder exercer as funções sacerdotais.

 

Investigador e editor, até à reconciliação da Igreja

Pedra visigótica de calcário amarelo encontrada na Sé de Lisboa. Foto incluída na obra Peregrinação pelas Igrejas de Lisboa.

 

O papel de Felicidade Alves na animação dos Cadernos GEDOC (Grupo de Estudos e Documentação), que divulgavam informação e reflexão alternativa sobre a Guerra Colonial, levou-o à prisão pela PIDE, a polícia política do regime ditatorial. Julgado pelo Tribunal Plenário em 6 de Novembro de 1973, juntamente com Nuno Teotónio Pereira, Abílio Tavares Cardoso e Manuel Mendes Mourão, acabaria absolvido.

Antes disso, a 1 de Agosto de 1970, José Felicidade Alves casara civilmente com Maria Elisete Nunes de Ascensão, opção que explica no livro É Preciso Nascer de Novo. O facto de a seguir ter havido uma celebração litúrgica presidida pelo então cónego Abílio Tavares Cardoso foi o pretexto final para o patriarca Cerejeira decretar a excomunhão, com efeitos imediatos.

O agora ex-padre trabalhou então em vários empregos para garantir a sobrevivência, ao mesmo tempo que se dedicava à investigação na área da olissipografia, história, literatura e teologia. Publicou vários títulos nessas áreas: Católicos e Política: de Humberto Delgado a Marcelo Caetano (1969); Pessoas Livres – Antologia de documentos e alguns estudos sobre o estatuto dos padres (1970); É Preciso Nascer de Novo – Testemunho pessoal (1970); Jesus de Nazaré (1995).

Na editora Livros Horizonte, onde se tornou assessor literário do director, Rogério de Moura, coordenou várias edições e colecções (Cidade de Lisboa, Francisco de Holanda…), além de ter publicado estudos na área do património, entre os quais três volumes sobre O Mosteiro dos Jerónimos.

Em 10 de Junho de 1994, o Presidente Mário Soares condecorou-o com a Ordem da Liberdade. Quatro anos depois, na mesma data, o novo patriarca, José Policarpo, “promoveu a sua reconciliação com a Igreja, apresentando oficialmente um pedido de perdão e presidindo ao seu casamento canónico”. Meio ano depois, a 14 de Dezembro, Felicidade Alves morreu.

 

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