Testemunho ao 7MARGENS

Peregrinos do Sudão do Sul: “Se nós conseguimos estar na JMJ, então nada é impossível”

| 31 Jul 2023

Peregrinos do Sudão do Sul antes da missa de acolhimento aos peregrinos, na Ericeira. Foto © Rita Gusmão COP da Ericeira e Carvoeira

A missionária comboniana Elisabete Almendra, à esquerda, e três das jovens que vieram do Sudão do Sul, antes da missa de acolhimento aos peregrinos, na Ericeira. Foto © Rita Gusmão/COP da Ericeira e Carvoeira.

 

Quando os pais de Rejoice escolheram o seu nome (que significa “alegra-te, rejubila”), queriam que ele fosse prenúncio de um futuro risonho, mas estavam longe de imaginar que viesse a traduzir na perfeição o sentimento da filha por poder participar numa Jornada Mundial da Juventude (JMJ). A própria Rejoice parece ainda não acreditar que faz parte do grupo de seis peregrinos que vieram do Sudão do Sul até Lisboa para o encontro mundial de jovens com o Papa. Sentada junto ao campo desportivo da Escola Básica e Secundária António Bento Franco, na Ericeira (paróquia da diocese de Lisboa que a vai acolher ao longo dos próximos dias), é com os olhos marejados de lágrimas – de alegria, claro – que, nesta segunda-feira, 31 de julho, diz já ter aprendido a grande lição desta Jornada que só agora vai começar: “Se nós conseguimos estar aqui, então nada é impossível. Nesta vida, nada é impossível, desde que coloquemos Deus em primeiro lugar”.

E até este domingo à tarde, quando finalmente Rejoice e os restantes cinco peregrinos vindos do Sudão do Sul aterraram no aeroporto de Lisboa, houve muitos momentos em que todos pensaram que não, vir à JMJ Lisboa 2023 não seria possível. “Vivemos uma verdadeira aventura para chegar até aqui”, conta a missionária comboniana Elisabete Almendra – que todos tratam carinhosamente por “irmã Beta” – e que lidera o grupo. “Tendo em conta todos os obstáculos e dificuldades que tivemos de ultrapassar, estarmos na JMJ é quase um milagre”, afirma.

 

Viagens “muitíssimo caras” e o desafio de obter os vistos

O primeiro obstáculo a ser ultrapassado foi o de arranjar dinheiro para suportar todos os custos. “As viagens do Sudão do Sul para Portugal são muitíssimo caras, até porque não nos permitem fazer escala noutros países da Europa, temos de ir primeiro para Istambul [Turquia] e só depois, de lá, viajar para Lisboa”, explica a religiosa, que está desde 2020 em missão na diocese de Wau. Os valores são de tal forma elevados (cerca de dois mil euros por pessoa), que a Conferência Episcopal do Sudão do Sul “tinha pensado enviar dois jovens de cada diocese à JMJ e acabou por desistir, porque não conseguia fazer face aos custos”, conta a irmã Beta. Quanto a este grupo, só conseguiu vir porque duas paróquias (uma no Sudão do Sul e outra em Portugal – a da Ericeira/Carvoeira, de onde e missionária é natural – angariaram os fundos necessários.

Ultrapassado o obstáculo financeiro, logo outro se interpôs no caminho daquela que é a primeira delegação de sempre do Sudão do Sul a uma Jornada: obter os vistos para entrar em Portugal. “O critério para a escolha das jovens que viriam foi o de já terem passaporte, porque senão seria mesmo impossível conseguirem os vistos. Mas, mesmo assim, foi muito, mesmo muito difícil”, recorda a missionária comboniana. “Recorri a todos os contactos que tinha, mas, como não há embaixada de Portugal no Sudão do Sul, estavam a exigir-me que fossemos a Moçambique… Ora, isso estava fora de questão, porque implicava gastarmos ainda mais uns milhares de euros”, justifica.

O problema, que parecia não ter solução, acabou por ser resolvido pelo núncio do Sudão do Sul. “Na sequência da ida do Papa Francisco ao país {em fevereiro deste ano], o núncio andava a visitar as dioceses e foi almoçar à nossa casa [das missionárias combonianas], em Wau. Contei-lhe que éramos para vir à Jornada, mas que afinal não íamos conseguir, e ele perguntou-me: ‘Mas já falaste com a embaixadora da Etiópia?’. E no momento a seguir estava a passar-me o telefone para que eu falasse diretamente com ela e lhe explicasse a situação. Só sei que a conversa terminou com a senhora a dizer-me ‘Tenha fé!'”, recorda a irmã Beta com uma gargalhada. Nesse momento, voltou a acreditar que a vinda a Lisboa seria possível.

“Alguns dias depois, contactaram-me a dizer que poderíamos pedir os vistos na Etiópia, através da embaixada de Espanha, o que já era mais viável”, mas havia um grande risco implicado nesta opção, assinala. “Para obtermos os vistos, tínhamos de ter os bilhetes já comprados para Lisboa, mas não nos davam a certeza absoluta de que os vistos seriam aprovados. Ou seja, arriscávamo-nos a gastar o dinheiro nas passagens de avião e depois não termos os vistos na mesma”. Com o Comité Organizador Local (COP) da Ericeira e Carvoeira a dizer-lhe que avançasse e as palavras da embaixadora ainda a ressoar no seu coração, partiu com o grupo para Adis Abeba, capital etíope, dez dias antes da data do voo para Lisboa, para tentar obter os vistos. “Conseguímo-los em 24 horas! Nem queríamos acreditar…”, recorda.

 

“A Europa não é só rosas”

No entanto, “os problemas ainda não tinham terminado”, continua a irmã Beta. A fé do grupo voltou a ser abalada quando, após um atraso de cinco horas no voo que partiu de Adis Abeba, perderam o voo para Lisboa que saía de Istambul. “E na Turquia, portaram-se mesmo muito mal em relação às nossas jovens. A mim e ao padre Alan Nevile [missionário irlandês que também integra o grupo] arranjavam-nos hotel e refeições enquanto não houvesse outro voo, mas para elas não havia nada, era como se não tivessem quaisquer direitos”, conta com tristeza. “Além disso, estavam a tentar solucionar a perda do voo com um voo alternativo que fazia escala na Alemanha, quando nós sabíamos perfeitamente que se as jovens parassem lá corriam o risco de serem mandadas de volta para o Sudão do Sul”, assinala, e conclui: “Tivemos de nos zangar, e finalmente arranjaram lugar para todos num voo logo no dia seguinte, que vinha direto para Lisboa”.

Por tudo isto, a calorosa receção que vários paroquianos da Ericeira e Carvoeira lhes fizeram no aeroporto, à chegada, soube ainda melhor. “Na Turquia, as meninas perceberam que a Europa não é só rosas, que a situação é complicada e há pessoas que não têm nenhum privilégio”, afirma a irmã Beta. “Felizmente, chegámos a Portugal e a experiência não podia estar a ser melhor”, assegura Rejoice, enquanto observa, curiosa, as centenas de peregrinos de outras nacionalidades que vão chegando à escola, entre cânticos e coreografias.

 

“A nossa forma de responder ao desafio do Papa”

Peregrinos do Sudão do Sul à chegada a Lisboa. Foto © COP da Ericeira e Carvoeira

A alegria dos peregrinos do Sudão do Sul à chegada a Lisboa, onde foram calorosamente recebidos por elementos da paróquia da Ericeira e Carvoeira.  Ao centro, de t-shirt verde, o coordenador do COP, João Ganhoteiro Silva. Foto © COP da Ericeira e Carvoeira.

 

João Ganhoteiro Silva, 26 anos, coordenador do COP da Ericeira e Carvoeira, foi um dos que fizeram questão de ir receber o grupo do Sudão do Sul. “Ter estas jovens finalmente cá é uma sensação de missão cumprida”, afirma, “porque apoiá-las a vir foi a nossa forma de responder ao desafio do Papa Francisco, que disse desde o início que queria que na Jornada participasse pelo menos um jovem de cada país”. E acrescenta: “É também uma graça enorme, não só para estas jovens, mas também para nós, que as recebemos, porque elas vão estar integradas no grupo de peregrinos da paróquia, e o seu testemunho já está a ser muito importante”.

O coordenador paroquial, que se prepara para entrar no seminário dentro de pouco mais de um mês, acompanhou de perto “a enorme generosidade de tantas pessoas, sobretudo paroquianos, que fizeram donativos, alguns na ordem das centenas de euros” para que a participação das jovens do Sudão do Sul fosse possível, e acompanhou também – ainda que à distância – todas as dificuldades que o grupo foi ultrapassando. Agora, não tem dúvidas: não se trata de um milagre, mas de “uma verdadeira prova da universalidade da fé cristã e de como ela ultrapassa fronteiras e move montanhas”.

Rejoice, 21 anos, confessa: “no momento em que perdemos o voo, cheguei a perder toda a esperança”. Mas, mal aterrou em Portugal, e apesar de nunca ter estado antes na Europa, sentiu-se “em casa”. “As pessoas são tão simpáticas e acolhedoras… Há tanta paz e harmonia”, sublinha.

É essa paz e harmonia que quer levar para o seu país. “Apesar de, oficialmente, o Sudão do Sul já não estar em guerra desde 2020, existem 64 tribos com diferentes culturas que continuam a ter conflitos entre si”, explica. Outra coisa que gostaria de levar é “mais igualdade para as raparigas e mulheres”, já que “em cerca de metade dessas tribos, as mulheres não são verdadeiras pessoas, não têm direitos”, assinala ainda.

“Eu sou uma sortuda, sinto-me abençoada”, a começar pelo facto de ter nascido numa tribo e numa família onde é respeitada, por ter conseguido apoios para estudar – nomeadamente da parte das missionárias combonianas -, por estar prestes a iniciar a sua licenciatura em Medicina. e por ainda antes disso ter podido vir a Lisboa. E também sente “uma grande responsabilidade”, assume. “Quando regressar, tenho mesmo de conseguir mostrar aos jovens que não puderam vir que é possível fazermos diferente, que é possível a verdadeira paz… Muitos deles estão muito fechados, não conhecem outras realidades, não sabem que é possível esta harmonia, e eu tenho o dever de partilhar esta experiência, de conseguir que se abram a uma realidade diferente, melhor”.

 

“É assim que, aos poucos, se vão mudando as coisas”

Peregrinos do Sudão do Sul à entrada da escola Bento Franco, na Ericeira. Foto © Clara Raimundo

Rejoice, à direita, acompanhada de Nyardeng (outra jovem do Sudão do Sul) e da irmã Beta, à entrada da Escola Básica e Secundária António Bento Franco, na Ericeira, onde centenas de peregrinos de várias nacionalidades foram acolhidos esta segunda-feira, 31 de julho. Foto © Clara Raimundo/7 MARGENS.

 

O Papa Francisco, de quem Rejoice já gostava e que ficou a admirar “ainda mais” desde que ele foi ao Sudão do Sul, “já teve um papel muito importante”, sublinha. “Desde que o Papa esteve em Juba, muitas pessoas ficaram diferentes, passaram a ter uma atitude mais tolerante com os outros. A presença e as palavras dele deixaram marca, sem dúvida. As pessoas estão mais felizes”, garante.

A irmã Beta confirma: “o Sudão do Sul está no seu processo de construção enquanto país e o Papa foi forte nos seus discursos, insistindo muito para que a desigualdade e a corrupção acabem”, destaca. A missionária acredita que serem os jovens do Sudão do Sul a vir agora ao encontro de Francisco, em Lisboa, “também vai fazer a diferença”. “Apesar de serem poucos, acredito muito no poder desta rede que se vai estendendo de uns para os outros. É assim que, aos poucos, se vão mudando um bocadinho as coisas”, diz.

Rejoice, que nem sonhava participar numa Jornada, agora admite que até já sonha mais alto: “Se nada é impossível, eu acredito que na próxima Jornada já seremos muitos mais, e também acredito que um dia a JMJ ainda vai ser no Sudão do Sul”, acrescenta emocionada… e feliz. “Os meus pais escolheram mesmo bem o nome”, conclui, sorridente, antes de se juntar ao mar de jovens que vão a caminho da missa de acolhimento dos peregrinos, prestes a iniciar.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Iniciativa ecuménica

Bispos latino-americanos criam Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo

O Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) lançou oficialmente esta semana a Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo, anunciou o Vatican News. Um dos principais responsáveis pela iniciativa é o cardeal Luís José Rueda Aparício, arcebispo de Bogotá e presidente da conferência episcopal da Colômbia, que pretende que a nova “pastoral de rua” leve a Igreja Católica a coordenar-se com outras religiões e instituições já envolvidas neste trabalho.

Lopes Morgado: um franciscano de corpo inteiro

Frade morreu aos 85 anos

Lopes Morgado: um franciscano de corpo inteiro novidade

O último alarme chegou-me no dia 10 de Fevereiro. No dia seguinte, pude vê-lo no IPO do Porto, em cuidados continuados. As memórias que tinha desse lugar não eram as melhores. Ali tinha assistido à morte de um meu irmão, a despedir-se da vida aos 50 anos… O padre Morgado, como o conheci, em Lisboa, há 47 anos, estava ali, preso a uma cama, incrivelmente curvado, cara de sofrimento, a dar sinais de conhecer-me. Foram 20 minutos de silêncios longos.

Mata-me, mãe

Mata-me, mãe novidade

Tiago adorava a adrenalina de ser atropelado pelas ondas espumosas dos mares de bandeira vermelha. Poucos entenderão isto, à excepção dos surfistas. Como explicar a alguém a sensação de ser totalmente abalroado para um lugar centrífugo e sem ar, no qual os segundos parecem anos onde os pontos cardeais se invalidam? Como explicar a alguém que o limiar da morte é o lugar mais vital dos amantes de adrenalina, essa droga que brota das entranhas? É ao espreitar a morte que se descobre a vida.

Agenda

There are no upcoming events.

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This