"Estações da Cruz"

Pérez Esquível pintou via-sacra com as lutas dos povos latinoamericanos

| 24 Mar 2022

Pelas pinturas de Adolfo Pérez Esquível passam as mães da praça de Maio, em Buenos Aires, os sem-terra do Brasil, as mulheres oprimidas, os negros e a multidão dos pobres e oprimidos latino-americanos. Imagem reproduzida a partir de vídeo.

Pelas pinturas de Adolfo Pérez Esquível passam as mães da praça de Maio, em Buenos Aires, os sem-terra do Brasil, as mulheres oprimidas, os negros e a multidão dos pobres e oprimidos latino-americanos. Imagem reproduzida a partir de vídeo.

 

O arquiteto, escritor e militante dos direitos humanos Adolfo Pérez Esquível, prémio Nobel da Paz em 1980, pintou e escreveu, em 1992, uma “via crucis” de Jesus Cristo interpretada através dos dramas, lutas e sofrimentos dos povos latinoamericanos.

A iniciativa surgiu de um convite dirigido a Pérez Esquível pela Conferência Episcopal da Alemanha, e mais especificamente, através da ONG católica Misereor, a propósito da evocação dos 500 anos da “conquista da América” (1492-1992).

O trabalho que daí surgiu foram 15 telas pintadas na sua totalidade pelo artista, que constituíram a base narrativa de um vídeo realizado pelo artista visual Juan Varni e música da compositora Amanda Guerreño, por onde passam, de forma dialogada, os passos da paixão de Cristo com os problemas como as guerras, a repressão das lutas dos trabalhadores, as desigualdades sociais, a destruição do ambiente, as ditaduras.

Pelas pinturas de Adolfo Pérez Esquível passam as mães da praça de Maio, em Buenos Aires, os sem-terra do Brasil, as mulheres oprimidas, os negros e a multidão dos pobres e oprimidos latino-americanos.

Num texto que assina no National Catholic Reporter sobre esta via-sacra, David B. Gowler escreve: “As ‘Estações da Cruz’ de Pérez Esquível modernizam Jesus e a sua mensagem de forma autêntica, sem que, como os intérpretes cristãos tenderam a fazer ao longo dos séculos, domestiquem Jesus, um profeta judeu do primeiro século de um povo oprimido – ou anacronizem a sua mensagem radical. A obra de Pérez Esquível deve encorajar todos aqueles que percorrem a via-sacra neste tempo quaresmal a meditar também na mensagem de Jesus de libertação dos oprimidos”.

A razão de haver 15 painéis pintados, em vez de 14, correspondentes às estações da via-sacra, deveu-se a uma originalidade introduzida pelo autor, que quis, numa alusão à Páscoa, criar uma 15ª estação intitulada “A vitória da vida”.

Curiosamente, no mesmo ano em que esta obra foi realizada, era inaugurada, em 13 de outubro de 1992, na via-sacra existente nos Valinhos, em Fátima, Portugal, uma 15ª estação dedicada à Ressurreição de Jesus, resultado de uma sugestão nesse sentido apresentada pelo Papa João Paulo II, no decorrer da visita ao santuário.

Adolfo Pérez Esquível nasceu em 1931 e formou-se em arquitetura. O Nobel da Paz foi-lhe atribuído por uma vida dedicada aos direitos humanos, mas particularmente pelo trabalho da fundação Serviço Paz e Justiça na América Latina, que desenvolveu, juntamente com uma rede de ativistas, padres, bispos, lideres comunitários e sindicalistas. A capacitação das pessoas e das comunidades para resistirem à exploração e à violência, através de processos de não-violência ativa foi um dos pilares da ação da fundação.

[Ver aqui um comentário da via-sacra de Adolfo Pérez Esquível, feito por Alastair McIntosh]

 

Uma via crucis de todos os sofrimentos do mundo [comentário]

Pelas pinturas de Adolfo Pérez Esquível passam as mães da praça de Maio, em Buenos Aires, os sem-terra do Brasil, as mulheres oprimidas, os negros e a multidão dos pobres e oprimidos latino-americanos. Imagem reproduzida a partir de vídeo.

Pelas pinturas de Adolfo Pérez Esquível passam as mães da praça de Maio, em Buenos Aires, os sem-terra do Brasil, as mulheres oprimidas, os negros e a multidão dos pobres e oprimidos latino-americanos. Imagem reproduzida a partir de vídeo.

A Via Crucis, conhecida entre nós por Via-Sacra, que neste tempo quaresmal se evoca e celebra entre os cristãos, corre o risco de reduzir-se ou converter-se em pietismo de tonalidades lúgubres, se não for colocada no seu largo campo de significados.

De modo especial, não se pode perder de vista as razões que levaram ao “processo de Jesus” e à sua condenação, crucifixão e morte, que residem no seu evangelho de proximidade, cuidado e perdão, vivido e destinado a todos, mas em especial aos excluídos e espezinhados de todo o tipo de misérias humanas. O próprio Jesus não foi apenas um pregador, mas alguém que entregou a sua vida pelo reino que anunciou. E esses “passos” que a via-sacra recorda e que as procissões desta quadra trazem à rua só fazem sentido se estiverem em diálogo com o projeto das bem-aventuranças e apontarem à alegria pascal.

Também por isto, a “via dolorosa” que custou a morte a Jesus fará sentido hoje se for o caminho para inscrever nas celebrações quaresmais e pascais todo o sofrimento do mundo e de cada pessoa – os pobres, os perseguidos, os precários, os traficados, os abusados, os esquecidos à beira das estradas da vida.

Nestes dias, em que a Europa assiste ao regresso da devastação da guerra, decorrente da invasão e bombardeamento da Ucrânia pelas tropas de Putin, as celebrações da Quaresma e da Páscoa não podem esquecer os milhões que tiveram de abandonar as suas casas, especialmente as crianças; os milhões que vivem em subterrâneos para se abrigarem dos mísseis, os que arriscam a vida, defendendo o território, as pessoas e a sua dignidade e direitos.

Ou a paixão de Cristo passa hoje pelas ruas de Kiev e suscita a esperança e a luta pela paz com justiça, ou de pouco servirá. E a Ucrânia é apenas um dos focos deste mal absoluto que vemos (e esquecemos) na Birmânia, na Síria, na Palestina, no Tigré e noutros países africanos. Através da contemplação das vias dolorosas destes tempos, como acreditar na ressurreição?  M.P.

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