
A alegada representação da Última Ceia, que era afinal a evocação do Olimpo, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, em Paris, que incluiu drag queens. Imagem capturada da transmissão televisiva.
Não era, afinal (e obviamente!), a Última Ceia. Os artistas que conceberam a abertura dos Jogos Olímpicos de Paris procuraram, naquele quadro que se juntou a dezenas de outras reproduções e performances cheias de beleza e imaginação, evocar o Olimpo. Onde habitam essas deusas e esses deuses poderosos e irrequietos, virtuosos ou vingativos, bondosos ou cruéis, altruístas ou insensíveis, corajosos ou cobardes. Há de tudo. Ou que são tudo isso ao mesmo tempo, talvez como cada um de nós. Portanto, e porque estávamos nas Olimpíadas, era do Olimpo que se tratava.
Não passou isso pela cabeça de muitos, dentro e fora da hierarquia da Igreja Católica. Como se ocupassem um lugar exclusivo no mundo, deduziram de uma cena exuberante em torno de uma mesa farta que se tratava da “sua” Última Ceia. Precipitaram-se a denunciar a blasfémia e o ultraje, a exigir explicações e a afirmar que não pactuavam com libertinagens “satânicas” destas. Como era possível parodiar, aviltar a Última Ceia sentando naquela mesa sagrada drag queens?
Comigo, a reação não se fez esperar. Escrevi no X (ex-Twitter), a 28 de julho, o seguinte comentário: “Atónita. Quer então dizer que drag queens não se podem sentar à mesa da Eucaristia? Cristo e os Evangelhos não são para elas? Perguntas de domingo, deixadas por uma católica praticante”. Pesei cada uma destas palavras antes de as lançar na rede, sabia o que me esperava mas pensei, agora como socióloga, que seria interessante perceber o impacto de um tweet desta natureza e analisar as respostas escritas que suscitava.
Números, primeiro. O tweet foi visualizado por 18,7k pessoas, obteve 159 likes, foi retweeted por 15 pessoas e apareceram 146 comentários. Primeira conclusão: para alguém, como eu, que tem 2024 seguidores, o impacto foi grande.
Mas o mais interessante, porém, foi a leitura dos comentários – esmagadoramente negativos, quase sempre insultuosos. Arrumei-os em duas principais categorias. Uma primeira incluía todos aqueles que entendiam que, ao fazer aquela pergunta, eu não era uma católica de verdade – aliás, a pergunta era, em si mesma, um insulto aos valores católicos. A segunda, talvez ainda mais expressiva, reunia os que me lembravam o pecado associado àquelas pessoas (as drag queens mas, por extensão, os homossexuais) e àquela cena.
Vamos aos exemplos… Transcrevo rigorosamente o que fui encontrando. Um católico praticante não pode fazer certas perguntas; se as faz, é porque não é católico e esse era o meu caso. Ora reparem: “Devia ter vergonha de fazer essa pergunta como católica praticante, Mas deve ser praticante da treta.” “Espero que como católica praticante essa não seja uma pergunta… mas uma afirmativa”. E muitas mais avaliações sobre o meu direito a perguntar… “É tão cristã como o futebolista que não joga, o cantor que não canta ou o pintor de não pinta.” “Travestis vestidos como se estivessem num cabaré? És católica praticante onde?” “Essa tolerância toda ficava-lhe muito bem se fosse verdadeira, mas como não é, só a torna patética aos olhos dos outros.” “Só vais à missa por veres irem os outros”. “O que está aqui em causa não é o pecador, que somos todos nós, mas o pecado e se é católica sabe muito bem disso por isso a sua observação é de uma desonestidade enorme.” “Sonsa praticante?” “És tão católica como eu sou judeu.” “Então essa católica praticante que vá ao confessionário.” “Nem és católica nem muito menos praticante.” “Uma católica praticante de quê? Não é absolutamente praticante da letra dos 10 mandamentos. Ponto. Podes ir fardada à missa mas não passas de uma woke perfumada com incenso.”
Podia continuar… mas a amostra é já ilustrativa. Claro que no Twitter estamos habituados a reações intempestivas e extremadas mas, a meu ver, estas respostas epidérmicas revelam uma atitude mais funda que encontramos em muitas formas de viver o catolicismo: perguntar ofende ou, pelo menos, há limites que não podem ser ultrapassados; ter fé implica certezas inabaláveis e a visão de um mundo a preto e branco com fronteiras claras entre os católicos de verdade (nós) e os que “fingem” sê-lo (os outros). Há lugar para os primeiros, mas não para os segundos. Ou me dirijo ao confessionário, como me ordena alguém, ou não tenho direito a considerar-me “católica praticante”.
Outros leitores manifestaram a sua revolta contra o facto de a Mesa ser ocupada por “pecadores”, gente “imoral”. A reboque das drag queens, surgem a homossexualidade e “essas correntes LGBT”, claramente consideradas pecados graves (e por muitos logo associados à pedofilia). Remetem-me para bibliografia: “Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão de ser executados, pois merecem a morte – Levítico 20:13”. Ou sabem tudo sobre a sexualidade de Cristo e dos apóstolos: “Nem Cristo nem os seus apóstolos foram trans. A homossexualidade foi destruída na sodoma e gomorra, segundo o relato bíblico.” Ou sublinham a perversão: “Uma cerimónia dos JO a promover o feio, o perverso, o abjeto, a pedofilia, etc, um verdadeiro circo de horrores, não obrigado. Bando de anormais e tarados.”
Para muitos leitores, a mesa da eucaristia serve, portanto, para distinguir os puros dos impuros, dividir e selecionar, por exemplo em função da orientação sexual. A mesa não é para todos. Um leitor exprime-o, aliás com muita clareza (reparem até na utilização das maiúsculas): “A mesa da eucaristia é para Homens e Mulheres. Isso de querer transformar a Última Ceia num circo não me parece bem o que Jesus quis transmitir.” Ou outro: “O senhor não recusa um espírito humilhado e contrito. Não há lugar para quem se orgulha do pecado, seja drag, seja o que for.” Sentar-se à mesa implica, portanto, ter em conta alguns “se”: “São para todos desde que se arrependam do pecado. Aquelas já estão todas comidas pelo demónio. Só mesmo deus para as salvar.” “Se abandonarem a vida de pecado, todos são bem-vindos. O que claramente não é o caso, basta terem participado alegremente num ato satânico e blasfemo, um dos mais graves pecados contra a fé e contra Deus”.
Dispenso-me de comentar a associação que se faz entre homossexualidade e “viver em pecado” – infelizmente ainda tão vigorosa em certas franjas de católicos. Concluo dizendo que me sinto nos antípodas da vontade predatória de exclusão. E tenho como certo que Jesus e os seus apóstolos sentados à mesa não constituíam um grupo de homens pacatos e ordeiros submetidos aos dogmas e às regras do templo, convencidos da sua pureza e superioridade morais ou do seu poder para castigar. Imagino-os, pelo contrário, exuberantes e insubmissos. A fazer perguntas, muitas perguntas, todas as perguntas. E a acolher, sem preconceitos nem condições prévias, como bem-aventurados, todos os que entendessem o falar do coração.
Ana Nunes de Almeida é socióloga, ex-membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica em Portugal.










