No dia 19 de março, o diário espanhol El País apresentava uma manchete com o título “O Vaticano ocultou durante décadas os casos de pederastia”, dando conta de um trabalho de investigação em que esteve envolvido com mais quatro órgãos jornalísticos.
Os jornalistas envolvidos, entre os quais do jornal português Observador, trouxeram à luz do dia numerosos documentos que evidenciam um trabalho sistemático de ocultação de abusos na Igreja Católica, ao seu mais alto nível, nos últimos 90 anos. O regime agravou-se a partir de 2001, quando o cardeal Ratzinger impôs o segredo papal para este tipo de casos, medida que viria a ser anulada em 2019, pelo Papa Francisco.
O cardeal Ratzinger, quer como arcebispo de Munique, quer, depois, no longo exercício de prefeito da então Congregação para a Doutrina da Fé, aparece, nesse trabalho, como um dos principais artífices dessa cultura de silêncio e de silenciamento, sobretudo se se tratava de padres abusadores.
Numa entrevista dada à revista católica espanhola Vida Nueva, no dia 24 de março, a jornalista Anna Kassin, uma das promotoras da equipa de investigação, explica o calvário por que passou nos últimos dois anos, para (não) conseguir obter informação ou explicações do Papa e da Cúria e não tem dúvidas em afirmar que, para evitar escândalo público, o Vaticano “determinou que o bem da Igreja fosse colocado à frente do das crianças”.
E, apesar de Francisco ter instituído normas que responsabilizam bispos encobridores, “o silêncio persiste, sendo maior no Vaticano do que ao nível dos bispos [diocesanos)”. E os “armários fechados” com os dossiês sobre estas matérias continuam a resistir às orientações oficiais de abrir aos investigadores os arquivos do Vaticano.
Nesta investigação os jornalistas têm insistido em obter esclarecimentos. O Papa foi contactado várias vezes, até por mensagem entregue em mãos, mas acabou por recambiá-los para a Comissão Pontifícia de Proteção de Menores, a qual, ainda que funcionando no âmbito do Dicastério para a Doutrina da Fé, não é competente nem para ter acesso aos arquivos nem para investigar e menos ainda dar respostas. O silêncio tem sido total.

O cardeal Ratzinger, aparece como um dos principais artífices da cultura de silêncio e de silenciamento. Foto © Correctiv
Enquanto isso, um dos casos mais emblemáticos das ambiguidades e contradições do Vaticano relativamente aos abusos – o do padre ex-jesuíta e artista de mosaicos Marko Rupnik – continua sem se deslindar, depois de o Papa Francisco ter mandado reabrir o seu processo no Dicastério para a Doutrina da Fé, em finais de outubro de 2023. Dois anos e meio depois, sabe-se apenas, desde o verão de 2025, que há um júri constituído para o julgamento, cuja identidade é desconhecida.
É certo que o caminho que a Igreja Católica vem seguindo, com Francisco (e já com Bento XVI), é o da tolerância zero. Mas só na última década é que se foi ganhando sensibilidade para a centralidade das vítimas, dos seus sofrimentos, das suas feridas e das questões e desafios que colocam às comunidades eclesiais.
Mas será que se deram passos sólidos para responder a esses desafios, para além das medidas de reparação e da formação dos agentes de pastoral para a criação de ambientes seguros? Os sinais que continuam a chegar não são especialmente animadores, no que toca à transparência e à coragem de agir. Não seria tempo de o Papa criar uma comissão que o ajude a identificar onde residem os obstáculos e os travões e apontem caminhos e boas práticas, que possam ajudar a avançar?
Foi-se tornando claro que os abusos não decorriam e não decorrem de meros atos isolados praticados em resultado de fraquezas individuais, como as maçãs podres de um cesto. Sem desvalorizar a responsabilização individual, o que temos visto e o que tem sido investigado põe em evidência uma relação entre as práticas abusivas e uma “cultura” clerical, entendida e vivida como experiência partilhada por um grupo de pessoas que, pela ordenação ministerial ou sob a sua influência, são levadas a tomarem-se e a serem tomadas como superiores e intocáveis. Como insistia em dizer Francisco, esse clericalismo acabou e acaba por contaminar os próprios leigos e “dizer não ao abuso é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo” (Carta ao Povo de Deus, 2018). Nessa linha, os padres e bispos “a cheirar a ovelha”, que saem para acompanhar as pessoas, sobretudo as que mais são descartadas, são os primeiros testemunhos do que pode ser padre hoje.
Mas impõe-se a pergunta: que tem vindo a fazer a Igreja para combater e vencer o clericalismo? Que medidas tem tomado nesse sentido? Que incentivos e ajudas têm recebido as comunidades para caminharem nessa direção?
Não é difícil descortinar na decisão do Papa Francisco de lançar o grande projeto de uma Igreja Sinodal a intuição de que seria o caminho mais desafiante, radical e consistente para uma Igreja mais em sintonia com o Evangelho, que acolhe e reconhece o lugar insubstituível de cada pessoa e em que as responsabilidades e tarefas são partilhadas.
O documento preparatório era claro: “A Igreja inteira é chamada a confrontar-se com o peso de uma cultura impregnada de clericalismo, que ela herdou da sua história, e de formas de exercício da autoridade nas quais se insinuam os vários tipos de abuso (de poder, económico, de consciência, sexual). É impensável ‘uma conversão do agir eclesial sem a participação ativa de todos os membros do povo de Deus’”.
Uma parte das igrejas locais, incluindo em Portugal, lançaram-se na reflexão sobre aquilo que seria preciso mudar para que a Igreja fosse mais fiel ao Evangelho e um sinal de esperança para as pessoas e a sociedade. Que é feito das sínteses diocesanas que então elaboraram (e em alguns casos debateram)? Que está a ser feito com as sínteses nacionais que foram enviadas para o Vaticano? Que se passa que quase não se ouve falar do movimento sinodal? Ir-se-á, uma vez mais, perder a oportunidade de dar passos que merecem consenso? Iremos continuar à espera que se decida “lá em cima” o que há que fazer? Afinal, estamos a caminhar ou estamos parados, à espera… de Godot? Estamos em busca de uma Igreja de aconchego ou de uma Igreja de interpelação? Por onde andam os nossos bispos, que os vejo tão quedos e mudos como corpo episcopal, com tantos desafios e dramas à sua volta? Já não haverá profetas? Há medo de quê?
A poucas semanas de evocarmos a partida do Papa Francisco e com um horizonte de concretização do caminho sinodal até 2028, por ele querido e pelo Papa Leão continuado, que vai acontecer? Que vamos fazer acontecer?
Apetece dizer, com o cardeal Zuppi, presidente da conferência dos bispos de Itália: “Não, não nos trancaremos numa irrelevância preguiçosa, para nos preservarmos, para nos protegermos do frio da história!” Sim, porque “a Igreja é muito mais do que o museu de uma antiga história de fé e cultura, muito mais do que uma agência de valores, muito mais do que uma organização de serviço social ou educacional”.
Sim. Que vamos fazer acontecer?










