
“Aí volto a sentir o gosto da procura e da descoberta. Sempre com necessidade de verdade, de honestidade.” Foto © Inês Patrício
No dia 19 de Novembro de 2019 escrevi:
“Calhou hoje termos andado alguns quilómetros de carro. Sem falar, a ouvir boa música para crianças. Eu a pensar… Oiço-a dezenas de vezes ao dia perguntar “que é isto mãe, que é isto?” A frase é sempre a mesma. Na maior parte das vezes é tudo curiosidade. Mas também há vezes em que a entoação é já de perplexidade e até de indignação. Concluí que era bom que nós fôssemos mais capazes de manter estas perguntas e estas entoações.”
Ela tinha então dois anos. Incrível. Tive de confirmar a data.
Nos meus dias oiço (não ouvimos quase todos?) perguntas, muitas, centenas, num continuum, de casa para o trabalho, por outros caminhos e de novo para casa.
Não está nada errado. São perguntas que têm de ser feitas. Têm de encontrar o seu lugar. Ainda que seja só para confirmar, ainda que seja porque antes não ouviram com atenção, ainda que sejam até provocações. São muitas, todos os dias. O tempo de resposta parece, embora não o seja, sempre urgente. Acuso o cansaço, acuso. Há impaciência, de sobra. É que gosto muito do silêncio, da preguiça, dos pensamentos só a flutuar.
Quase um ano depois anotei:
“Às vezes fico a pensar na quantidade de vezes, por dia, que digo à minha filha “Não sei.”
Não é preguiça de lhe responder, é porque é verdade. É falta daquela criatividade maluca e saudável para inventar uma explicação? Sim. Mas também é um sentido de verdade que não consigo evitar.”
A comunicação, assim tanta e sempre, cansa-me. E as respostas, não as tenho… tantas-tantas vezes, não as tenho! Que fazer? Disfarçar, sei que disfarço mal. Por isso, opto pelo “não sei, mas vou procurar.” E aí as perguntas passam a ser minhas, e sou eu que as vou formular. Aí fico mais comigo, ou mais com quem escolho. Aí volto a sentir o gosto da procura e da descoberta. Sempre com necessidade de verdade, de honestidade.
Naquele dia 19 de novembro continuei:
“Só quando cheguei a casa vi que morreu Zé Mário Branco.. E pensei… Aí está um homem que nunca perdeu nem as perguntas nem as entoações!”
Não há nada mais chato do que gente cheia de certezas. Pessoas como o Zé Mário Branco, que sabem tanto e perguntam tão bem, é que nos ensinam e dão coragem.
Vivam essas pessoas!
Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.









