Peritos em Deus, ou como o conhecimento destrói o Mistério

| 22 Jul 2022

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Santidade é deixar-se conduzir por Deus, cheios de humildade e totalmente abertos aos Seus sinais, na vida toda e nos outros que nos rodeiam. Foto © Shutterstock.

 

É curioso como muitas das cisões entre os religiosos partiram e partem dos que se consideram mais próximos de Deus, por praticarem uma religião mais pura. Os peritos em Deus correm o sério risco e O desfigurarem, porque O capturam e porque se fecham aos Seus sinais, à sua volta e nos outros.

É muito interessante notar que foi sempre assim desde o tempo dos primeiros cristãos. O primeiro concílio (Jerusalém), ocorreu exatamente por isso e está maravilhosamente descrito no livro do Atos dos Apóstolos (Atos 15).

Aí se relatam os antagonismos entre os cristãos oriundos do judaísmo (a quererem manter as antigas prescrições da lei, incluindo a circuncisão) e os cristãos vindos do paganismo (a sentirem-se profundamente perturbados com estas exigências).

Este concílio veio clarificar a precedência da graça em relação à lei, da qual Cristo nos libertou instituindo uma nova aliança entre Deus e o Seu povo. E essa graça é derramada gratuitamente nos nossos corações, sem merecimento algum da nossa parte, nem fruto de ritos e da obediência à lei, do sangue dos novilhos e das prescrições.

O concílio foi bem debatido e acalorado, sem vencedores nem vencidos: abertos aos sinais de Deus, todos seguiram para uma nova síntese, reconhecidamente conduzidos pelo Espírito Santo. Elucidativamente diz a carta: “De facto, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor nenhum outro peso além destas coisas necessárias” (Atos 15, 28).

Como consequência, gerou-se uma enorme alegria e conforto entre a comunidade dos crentes (Atos 15, 31), sinal certo da presença de Deus, tal como a perturbação é o sinal certo da sua não presença.

Sabermos muito de Deus e seguirmos preceitos à risca quer dizer pouco sobre a nossa santidade. Santidade é deixar-se conduzir por Deus, cheios de humildade e totalmente abertos aos Seus sinais, na vida toda e nos outros que nos rodeiam. O muito conhecimento pode mais facilmente levar à presunção de “sabermos tudo” de Deus, deixando-nos encerrados em fórmulas (que passam a ser idolatrias), em vez de livres para o seguirmos onde Ele nos quer levar.

Há um episódio desconcertante na biografia de S. Tomás de Aquino. Após uma experiência mística, S. Tomás abandonou completamente a obra que tinha entre mãos (a terceira parte da Suma Teológica) e declarou: “mihi videtur ut palea”, isto é, “tudo não passa de palha para mim”. Foi dado ao santo perceber a profundidade inefável do Mistério, tão superior ao seu mais excelso pensamento que nunca mais escreveu uma palavra na sua obra.

É ótimo procurarmos conhecer Deus, porque não se ama o que não se conhece. Mas não um conhecimento de museu e de certezas. Ele é a Palavra viva e operante, e todo o conhecimento se deve submeter a esse vendaval de novidade e amor que sempre nos excede e nunca poderemos reter e abarcar.

O melhor conhecimento é o que nos abre à Sua graça, deixando-nos conduzir por ela. E a graça é dos humildes e dos gratos, deixa-nos disponíveis aos outros e à alegria de O percebermos entre nós, na vida entregue e partilhada, ávida de unidade e comunhão.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária. Contacto: dina.matosferreira@gmail.com

 

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