“Escalada alarmante”

Perseguição às mulheres bahá’ís no Irão intensifica-se

| 13 Mai 2024

Fotos de líderes baha'i presos no Irão expostas numa ação de defesa dos direitos humanos levada a cabo numa praia do Rio de Janeiro, em 2011. Foto Comunidade Baha'i do Brasil

Fotos de líderes bahá’ís presos no Irão expostas numa ação de defesa dos direitos humanos levada a cabo numa praia do Rio de Janeiro, em 2011. Mais de dez anos depois, a perseguição intensifica-se. Foto © Comunidade Baha’i do Brasil

 

Detenções, julgamentos, penas de prisão, convocatórias, buscas domiciliárias, arrestos de bens, destruição de cemitérios, recusa de enterros, encerramento de empresas ou impedimento de acesso à educação. São alguns exemplos do fenómeno persecutório a que a comunidade bahá’í, com especial incidência nas mulheres, tem estado sujeita no Irão desde, sobretudo, a manifestação de apoio às mulheres iranianas em 2022. Mais de três quartos dos bahá’ís chamados a tribunal ou enviados para a prisão desde o início de março são mulheres.

“Os recentes ataques contra as mulheres bahá’ís mostram verdadeiramente a mensagem de que a nossa história é uma só, como mulher no Irão, quer se seja bahá’í, muçulmana, cristã, judia, zoroastriana, de qualquer fé ou de nenhuma fé”, referiu Simin Fahandej, representante da Comunidade Internacional Bahá’í (BIC) nas Nações Unidas em Genebra, citada num comunicado enviado ao 7MARGENS na semana passada. “O governo iraniano prende-a, expulsa-a da universidade, põe termo ao seu emprego e persegue-a por defender a sua aspiração a viver uma vida plena como seres humanos iguais, trabalhando em conjunto e lado a lado com os outros, independentemente do sexo, da origem e da fé, para tornar o seu país melhor para todos”, acrescentou.

Dezenas de mulheres foram convocadas para irem a tribunal nas últimas semanas perante acusações criminais sem fundamento e condenações de anos de prisão, separando-as das suas famílias e colocando-as diante da “crueldade e violência do sistema judicial iraniano”. Dois terços de todos os presos bahá’ís no Irão presentemente são mulheres. No contexto mais vasto da perseguição das mulheres no Irão e dos desafios que se colocam à igualdade de género neste país, este “aumento dramático” da perseguição contra as mulheres bahá’ís constitui uma “escala alarmante” que afeta um grupo de pessoas que enfrenta uma perseguição interseccional: enquanto mulheres e enquanto bahá’ís, a maior minoria religiosa não muçulmana do Irão, que tem sido sistematicamente perseguida desde a Revolução Islâmica de 1979.

 

Perseguição cresceu 50 por cento desde 2021

Está em causa uma tendência mais ampla de escalada de violência contra os bahá’ís no Irão. Uma análise da BIC entre 2021 e 2023 mostra que, desde 2021, a perseguição geral aos bahá’ís no Irão aumentou cerca de 50 por cento a cada ano.

Em outubro de 2023, 10 mulheres de Isfahan (cidade no centro do Irão), na sua maioria na casa dos vinte e trinta anos, foram detidas. No mesmo mês, 26 bahá’ís, 16 dos quais mulheres, foram condenados a um total de 126 anos de prisão, o que assinala a contínua perseguição das mulheres em toda a comunidade bahá’í. Em novembro de 2023, um mês mais tarde, mais seis mulheres bahá’ís de Isfahan foram detidas durante um mês, enfrentando condições difíceis na ala de quarentena da prisão de Dolat Abad.

Os atrasos deliberados na prestação de cuidados médicos, o acesso restrito a água quente e a negação de informações sobre os motivos das suas detenções, ou sobre as acusações de que são alvo, evidenciam a escalada alarmante das novas e duras táticas do Governo iraniano contra a comunidade bahá’í. Os agentes do Ministério dos Serviços Secretos também se empenharam numa campanha orquestrada de coação e intimidação dos vizinhos de alguns dos bahá’ís, a fim de conseguir declarações forçadas de queixa contra as mulheres bahá’ís detidas.

“Ao mesmo tempo que prosseguimos a campanha ‘A nossa história é uma só’, que assinalou a execução de 10 mulheres bahá’í há 40 anos, bem como de todas as mulheres que continuam a fazer sacrifícios pela causa da igualdade entre os sexos, verificamos que o Governo iraniano insiste no seu esforço antigo e fracassado de criar divisões entre os seus cidadãos através de uma perseguição crescente, de discursos de ódio e da perseguição das mulheres”, mencionou Fahandej. “As suas ações provam que a história das 10 mulheres bahá’í é a mesma de todas as mulheres iranianas de hoje, e o seu fracasso em criar tais divisões, como visto através do apoio à ‘Nossa história é uma só’, mostra que nenhuma quantidade de discurso de ódio e discriminação pode destruir o mais profundo anseio do coração humano pela unidade e para trabalhar em conjunto com os outros em completa igualdade, pela causa da justiça”, acrescentou.

 

O apelo à comunidade internacional

No início deste ano, a BIC também apresentou um relatório à Missão de Averiguação das Nações Unidas, mandatada para investigar as violações dos direitos humanos no Irão desde setembro de 2022, no qual detalhava o impacto destes acontecimentos na comunidade bahá’í no Irão, particularmente nas mulheres bahá’í . Por seu lado, a Human Rights Watch, no mês passado, lançou um novo relatório inovador que incluía uma determinação legal que postulava que o tratamento dado pelo governo iraniano aos bahá’ís equivalia ao “crime contra a humanidade de perseguição”. [Ver 7MARGENS] O relatório recomendou também que a Missão de Averiguação da ONU concentrasse parte das suas investigações em curso no “aumento do número de mulheres bahá’í visadas”.

“Esta narrativa coletiva de luta e resiliência, enfrentada pelas mulheres bahá’í e por todas as mulheres iranianas, permite-lhes unir-se e mostrar que os esforços para dividir falharão sempre e que, quando um grupo é afetado pela injustiça, nenhum outro grupo permanecerá intocado”, referiu Fahandej. “A crescente perseguição às mulheres bahá’ís, que são duplamente desafiadas, quer como mulheres, quer como membros de um grupo minoritário, exige atenção e ação a nível mundial, solidariedade para com os bahá’ís e todas as mulheres iranianas, que exigem o seu direito a viver com dignidade e igualdade no seu próprio país. Apelamos à comunidade internacional, aos governos e aos meios de comunicação social para que peçam ao Governo iraniano que ponha imediatamente termo à perseguição sem sentido de que são alvo os bahá’ís e, em especial, as mulheres, que se tornaram o alvo principal desta discriminação, e que respeite o princípio universal dos direitos humanos para todos os seus cidadãos”, concluiu.

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