Depois da INIRR, o erro que Portugal já cometeu – e o que se faz hoje com René Girard
1. Os sobreviventes e a Graça
Escrevo como sobrevivente de abuso sexual na Igreja. Estive calado trinta e seis anos. Sou acompanhado há mais de oito. Não escrevo para defender a instituição, e nada lhe devo. Defendo duas coisas apenas: os sobreviventes e a Graça.
A 31 de Agosto, em França, a INIRR deixou de aceitar novos pedidos [n.d.r. – A INIRR é a Instância Nacional Independente de Reconhecimento e Reparação, criada pela Conferência dos Bispos de França em Novembro de 2021, na sequência do relatório da Comissão Independente sobre os Abusos Sexuais na Igreja]. Em quatro anos, perto de duas mil pessoas recorreram a ela. As próprias vítimas, que raramente elogiam estruturas da Igreja, dizem que funcionou.
No dia seguinte, os bispos franceses abriram outra instância no seu lugar. E está aqui o que me parece decisivo. A que terminou chamava-se Instância Nacional Independente de Reconhecimento e Reparação. A que lhe sucede chama-se Instância Nacional Independente de Acompanhamento das Vítimas na Igreja. Pelo caminho caíram duas palavras. Ficou acompanhamento.
E a 27 de Setembro, em Lourdes, o Papa encontrou sete vítimas, uma a uma.
Sete pessoas recebidas numa sala, e a porta fechada a todas as que chegassem a seguir. Li isto de longe e reconheci tudo, porque nós já fizemos exactamente o mesmo. E é por se repetir noutro país, noutra língua e com outras pessoas, que isto deixa de poder ser explicado como um acidente português.
2. O que já fizemos cá
Recordo factos que o leitor conhece, porque é preciso tê-los à mão.
Em 2022, os bispos portugueses entregaram a uma Comissão Independente o estudo de setenta anos de abusos. Estimou 4.815 vítimas e validou 512 testemunhos. O presidente da Conferência Episcopal chamou-lhe, com razão, um murro no estômago.
Depois, a comissão terminou. A sua base de dados foi destruída. Em seu lugar, os bispos criaram uma estrutura própria. O primeiro gesto público dessa estrutura foi pôr em causa a forma como a comissão anterior validara os testemunhos. Os sobreviventes que pediram compensação tiveram de contar a sua história uma segunda vez, para que se fixasse o preço da sua dor segundo uma escala de gravidade. Uma associação de vítimas denunciou falta de empatia nessas audições; a estrutura nega. Até hoje, cinquenta e sete pessoas foram compensadas, com montantes entre nove mil e quarenta e cinco mil euros. A mesma associação pede agora ao Parlamento uma auditoria do Estado.
A primeira comissão, essa, não foi esquecida. É citada em cada ocasião como prova de coragem. Tornou-se troféu.
Ninguém sabe ainda o que será a nova instância francesa, e não lhe faço processo de intenções. Mas o gesto conheço-o. É por o conhecer que escrevo.
3. O que Girard disse, em palavras simples

Assinatura de René Girard: “Quem hoje fala de «vitimismo» e de cultura da queixa repete Nietzsche palavra por palavra. Com crucifixo ao peito. E a assinar Girard. Imagem reproduzida da Wikimedia.
René Girard era francês. Passou a vida a estudar uma coisa muito simples e muito incómoda: a maneira como os grupos humanos se acalmam escolhendo um culpado.
A observação cabe em poucas palavras. Os mitos são contados por quem linchou. Uma comunidade aponta alguém, expulsa-o, recupera a paz – e depois conta a história do seu próprio ponto de vista. O monstro era culpado. A cidade salvou-se. O herói foi valente. Nunca a versão de quem foi expulso.
E viu que a Bíblia faz exactamente o contrário. Conta a mesma cena a partir do chão, do lugar de quem é expulso. José vendido pelos irmãos. Job acusado pelos amigos. O Servo sofredor. E por fim um condenado numa cruz, que o próprio texto que narra a condenação declara inocente.
Daí a conclusão que os seus novos admiradores preferem não citar: a preocupação moderna com as vítimas é um efeito cristão. Não é fraqueza importada, nem invenção recente, nem ressentimento. É, segundo Girard, a única coisa verdadeiramente nova que o Evangelho trouxe à história humana.
É verdade que no fim da vida se inquietou. Viu que a linguagem da vítima podia ser capturada, que se podia acusar em nome das vítimas, que o lugar do inocente podia tornar-se arma. Tinha razão em inquietar-se. Mas nunca disse o que hoje lhe fazem dizer.
4. A inversão
O desvio funciona assim. Pega-se no aviso de Girard – a linguagem da vítima pode ser instrumentalizada – e transforma-se numa regra geral: toda a vítima que fala está a instrumentalizar. De «a inocência pode ser fingida» salta-se para «a tua inocência é fingida». Dado o salto, a conclusão oferece-se sozinha: os verdadeiros perseguidos do nosso tempo somos nós. A Igreja. O Ocidente. A fé.
Perseu declara-se vítima.
E tudo se recoloca. A crise dos abusos deixa de ser uma crise de abusos e passa a ser um ataque mediático. Os relatórios são campanhas. Os jornalistas, agentes. As comissões, cavalos de Tróia. As indemnizações, extorsão. E os sobreviventes que insistem – os que não perdoam a tempo, que não voltam à comunidade, que continuam a pedir que bispos encobridores deixem de exercer – deixam de ser feridos e passam a ser instrumentos da perseguição anticristã.
Eis a ironia que nenhum leitor sério de Girard consegue engolir: esta operação é, ponto por ponto, o mecanismo que ele descreveu. Escreveu que, uma vez desmascarado, o mecanismo não desaparece. Disfarça-se. Apropria-se do vocabulário da vítima para continuar a expulsar.
Chamam-lhes girardianos. São nietzschianos com nome falso. Foi Nietzsche, não Girard, quem viu no cristianismo a revolta dos fracos e o ressentimento tornado moral. Girard leu isso, achou a descrição exacta – e escolheu ao contrário. Sim, o cristianismo põe-se do lado das vítimas. E isso é verdade, não fraqueza. Quem hoje fala de «vitimismo» e de «cultura da queixa» repete Nietzsche palavra por palavra. Com crucifixo ao peito. E a assinar Girard.
O próprio Girard previra a manobra. Dizia-se centrista e «ateu político» – não moderado, mas recusando ser capturado pela multidão. A multidão, escreveu, tende a estar inteiramente à direita ou inteiramente à esquerda. Ser ateu político é recusar adorá-la.
5. O que já foi dito, e o que falta dizer

O vice-presidente norte-americano J. D. Vance na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, em Outubro de 2025. Vance é um dos que a revista Salmagundi aponta no uso político de René Girard. Foto reproduzida da Wikimedia Commons.
Não revelo nada. Isto já foi dito, e por melhores penas do que a minha. Sam Kriss escreveu-o na Harper’s em Novembro de 2023: o nome de Girard anda atirado em podcasts e enfiado em listas de leitura, e o girardianismo tornou-se a doutrina secreta de uma nova fronteira do pensamento reaccionário. John Ganz dedicou-lhe uma série de ensaios e uma longa conversa no podcast Know Your Enemy, em Fevereiro de 2024. A revista Salmagundi publicou um texto cujo título diz tudo – From Philosophy to Power: The Misuse of René Girard by Peter Thiel, J. D. Vance and the American Right, o mau uso de René Girard pela direita americana. Depois seguiu-se a imprensa generalista.
Tudo isso existe. E tudo isso é escrito de fora, por ensaístas e jornalistas que observam um campo intelectual, uma campanha, uma eleição.
O que falta é a vista de baixo.
Nenhum desses textos é escrito por quem esteve no lugar de que eles falam. Nenhum diz o que é, em concreto, ver a teoria que descreve o nosso próprio linchamento a servir para nos descredibilizar. Não estou a defender um autor contra os seus maus leitores. Estou a dizer o que nos acontece quando esses maus leitores são ouvidos.
6. A égide

Benvenuto Cellini, Perseu com a cabeça de Medusa (1545-1554), Loggia dei Lanzi, Florença. Foto reproduzida da Wikimedia Commons.
O mito da Medusa não acaba na decapitação, e é a continuação que me interessa.
Perseu corta-lhe a cabeça. Mas a cabeça não é deitada fora nem enterrada. Entrega-a a Atena – a deusa que a amaldiçoou, a que devia tê-la protegido e não protegeu. E Atena coloca-a ao peito, no escudo. É a égide. O rosto da vítima tornado armadura da instituição que a condenou.
Não conheço imagem mais exacta do que estamos a viver.
A Igreja – e não só a Igreja: toda a estrutura que hoje se declara perseguida – leva ao peito o rosto das suas próprias vítimas. Fala de vítimas. Organiza jornadas de escuta. Publica protocolos. E usa esse rosto como defesa contra quem pergunta. Vejam quanto sofremos. Vejam como nos atacam.
A cabeça no escudo não fala. Essa é a condição para a poder levar.
Por isso o sobrevivente que continua a falar é insuportável. Não pelo que denuncia, mas porque prova que a cabeça está viva. Que não era troféu. Que não era símbolo. Que era uma pessoa, que continua a sê-lo, e que não aceitou o lugar que lhe deram no cenário.
7. Os que chegaram de boa-fé
Uma precisão que me exijo a mim mesmo.
Falei de uma operação. As operações têm autores: quem as pensa, quem as financia, quem as escreve, quem as transforma em programa. São poucos e têm nome. Mas falei também de uma multidão, e a multidão não é a mesma coisa.
Muita gente chegou a esse cristianismo de boa-fé. Jovens que encontraram ordem onde ninguém lha dava, pertença onde só havia mercado, beleza onde só havia ruído. Não estou disposto a chamar-lhes cínicos. Seria fazer-lhes exactamente o que denuncio: um bloco, um monstro, uma cabeça a cortar. E seria trair a minha própria tese, porque se a Graça age fora da estrutura, também age dentro.
Mas a boa-fé não é álibi, e sobretudo não é uma posição.
Sei o que vai acontecer com este texto. Cada leitor vai colocar-se fora do grupo acusado. É automático. Ninguém se reconhece na descrição do perseguidor – é precisamente por isso que o mecanismo funciona há milénios. Por isso não deixo a porta aberta.
Não estás fora porque te sintas fora. Não por não odiares ninguém, não por teres boas intenções, não por também te doerem os abusos, não por rezares pelas vítimas.
Estás fora se, quando te custa alguma coisa, escolhes o mais vulnerável contra a instituição que o feriu, e não ao contrário. Se aceitas que um processo se abra ainda que o escândalo salpique a tua paróquia, o teu movimento, o teu bispo, o teu partido. Se, quando alguém invoca a unidade para encerrar um assunto, reconheces a manobra e a nomeias diante de outros, ainda que isso te custe.
É esse o exame inteiro. A sensibilidade não o aprova. Aprova-o a conduta, quando há preço a pagar.
8. A Graça não tem fronteira

Auto-retrato do autor junto da intervenção de iluminação arquitectónica do artista francês Patrice Warrener, Cromolite. Junho de 2025, Igreja da Virgem Peregrina, Praça Peregrina, 32ª Bienal Internacional de Arte de Pontevedra (2025), Galiza, Espanha. Foto © Pero Joséres
Chego ao coração, que é teológico antes de ser político.
Um cristianismo de identidade é um cristianismo sem Graça. Porque a Graça, por definição, não se merece, não se herda, não se vota e não se administra. Se pudesse depender da pertença – a uma comunidade, a uma nação, a uma civilização, a um bando – deixaria de ser Graça e passaria a ser salário.
Di-lo-ei com toda a dureza de que sou capaz: o Deus que precisa de uma fronteira para chegar não é Deus. É um ídolo com a agenda de alguém por cima.
Tenho autoridade para o dizer por uma razão desagradável: encontrei Deus fora. Na ausência da estrutura. Numa solidão que não escolhi. Se a Graça dependesse de estar dentro, eu não teria tido nenhuma. E tive.
É esse o dado que esta nova cristandade não consegue processar. Não por ser escandaloso, mas por ser incontrolável. Um Deus que age onde quer e com quem quer não se deixa usar como cimento de nenhuma civilização.
Jesus não veio reter coisa nenhuma. Veio tocar. Tocou o leproso e inverteu a direcção da impureza: na lei, quem toca o impuro contamina-se; no Evangelho, quem é tocado fica limpo. A hemorroíssa toca-lhe por trás, sem licença, em estado de impureza permanente – e ele não a repreende: pergunta quem foi, que é a sua maneira de a obrigar a existir em público.
É o contrário de uma fronteira.
9. Para ti, sobrevivente, que vês isto e não sabes onde te puseram

“Se estiveste fora e algo te susteve, isso não foi sucedâneo da comunidade, nem versão menor da fé. Foi Graça inteira. Deus não reconhece as jurisdições que os homens inventam para o administrar.” Foto © Pero Joseres
Se és sobrevivente e estás a ver a tua história tornar-se munição alheia – uns a usá-la contra a Igreja, outros a negá-la para a defender – tenho três coisas a dizer-te.
A primeira: a tua história não é um argumento. É a tua vida. Não és obrigado a que sirva para provar seja o que for, nem a favor nem contra. Quem te pede que a transformes em prova está a fazer contigo o que o mito fez à Medusa.
A segunda: se te chamarem ressentido, se te disserem que estás a ser usado, se insinuarem que no fundo há ódio – reconhece a manobra. É antiga. É Nietzsche de batina. E a resposta não é provar que não odeias; a resposta é não aceitar o interrogatório. Não deves a ninguém uma prova de pureza de intenções. Nunca ta pediram quando quem tinha de provar alguma coisa era outro.
E a terceira, a que mais me importa: a Graça chegou até ti mesmo estando fora. Se estiveste fora e algo te susteve, isso não foi sucedâneo da comunidade, nem versão menor da fé, nem licença provisória até voltares. Foi Graça inteira. Deus não reconhece as jurisdições que os homens inventam para o administrar.
Não te peço nada. Continuo a não pedir.
Mas quando a voz dentro de ti se tornar mais alta do que as de fora – e neste barulho vai custar mais do que nunca – lembra-te de que nenhum dos dois exércitos que disputam a tua história tem autoridade sobre ela.
Tu és o único que a tem. E é exactamente isso, o escândalo.
Pero Joséres é o pseudónimo de um sobrevivente de abuso sexual na Igreja Católica. Contacto: pero.joseres@icloud.com










