Persistência da desigualdade: O que Kuznets não viu

| 10 Abr 21

Marrocos. Tetouan

“A desigualdade nos países mais desiguais do mundo é hoje cada vez mais semelhante à desigualdade do mundo.” Foto: Tetouan, Marrocos © João Catarino Campos

 

Em 1955, Simon Kuznets, um dos mais relevantes economistas do século passado, publicou um trabalho que pode ser visto como a primeira grande abordagem da Ciência Económica ao fenómeno das desigualdades e que lhe valeu o Nobel da Economia em 1971.

O economista norte-americano propôs uma ideia que se viria a resumir naquilo que chamamos de Curva de Kuznets: um gráfico em formato de “U invertido” que relaciona no eixo das abcissas o rendimento per capita e no eixo das ordenadas a desigualdade de rendimento. Isto quer dizer que, segundo a sua análise, numa fase inicial do crescimento do PIB, com o processo de industrialização e de transformação económica, as desigualdades de rendimento nesse país irão naturalmente aumentar.

No entanto, chegado a um determinado ponto, a Economia desenvolver-se-ia no sentido de fazer baixar essas desigualdades, nomeadamente através da qualificação generalizada da população – agora urbanizada – tal como com a emergência do Estado Social. Para isto, Kuznets usou dados de países como o Reino Unido e os Estados Unidos, que, dependendo do país, foram aproximadamente desde o fim do século XIX até ao fim da 2ª Guerra Mundial.

A área das desigualdades tem um problema que muitas outras áreas da economia não têm: falta de dados. Esta situação deve-se não só ao facto de no passado não se ter registado da melhor forma, ou de todo, dados a nível de desigualdades, como também ao facto de não ser fácil aferir a realidade, por exemplo, dos rendimentos mais altos da sociedade, para chegar aos indicadores.

Não só por isto, mas talvez também por um excesso de foco da ciência económica da segunda metade do século XX no crescimento do PIB, o tema das desigualdades foi passando despercebido. Uma vez criado mais rendimento, a distribuição logo se verá ou será mais ou menos “natural”. Daqui resultou uma Academia muito virada para a noção de que a Curva de Kuznets seria um pressuposto relativamente unânime ou até, para alguns, aquilo que em Economia chamamos de “facto estilizado”, isto é, uma simplificação teórica de algo observado empiricamente.

Com o tempo, a integração económica mundial aprofundou-se, a Organização Mundial de Comércio reduziu até onde podia várias taxas alfandegárias, a China entrou em jogo no comércio global, o mundo ocidental começou, mais tarde, a sentir uma estagnação económica persistente e, em várias óticas, a desigualdade aumentava. Alguns economistas começariam a colocar, assim, em causa o “dado adquirido” de Kuznets, alegando que a redução das desigualdades que se previa afinal não se verificava.

 

Estado-Nação cada vez menos determinante

Thomas Piketty, em O Capital no Século XXI, reflete exatamente sobre como Kuznets falhou na sua previsão e como no regime capitalista a desigualdade tende, naturalmente, a aumentar com o crescimento do PIB. A sua proposta para isso é a de que a taxa de retorno do capital cresce a uma velocidade maior do que a taxa de crescimento do PIB no longo prazo, o que leva a uma concentração da riqueza.

Já Branko Milanovic, que foi economista-chefe do Banco Mundial, por sua vez, procurou explicar o fenómeno das desigualdades de uma perspetiva global. Ele demonstra que, de um ponto de vista mundial, a desigualdade diminuiu devido à saída de muita população da pobreza extrema, nomeadamente devido à emergência da China.

No entanto, o Estado-Nação surge como cada vez menos determinante nos indicadores de desigualdade: a desigualdade nos países mais desiguais do mundo é hoje cada vez mais semelhante à desigualdade do mundo. Além disto, a globalização gerou, segundo Milanovic, vencedores e perdedores relativos – obviamente em graus diferentes –, onde do lado dos vencedores estarão uma classe média “nova” mundial das economias emergentes e os muito, muito ricos do planeta; do lado dos perdedores estarão a classe média dos países ricos – perda sobretudo comparativa – e os ainda extremamente pobres do globo, a quem não chegaram os benefícios da globalização.

Cada vez há menos dúvidas que o tema das desigualdades estará na frente das reflexões e investigações económicas, pois a realidade do populismo, a degradação das democracias liberais e a estagnação económica do Ocidente talvez tenha acordado muitos economistas. Contudo, este tema vai muito além da investigação económica, uma vez que as suas implicações são muito vastas e, acima de tudo, deve chegar ao debate público e aos agentes políticos.

Ainda assim, estes agentes políticos não se podem esquecer de que, neste mundo integrado, e olhando à perspetiva global das desigualdades de Milanovic, este tema, tal como o ambiental ou o digital, deve ser tratado à mesa das organizações intergovernamentais e supranacionais, porque uma coisa é certa: embora haja trabalho que os Estados possam fazer sozinhos, este problema é hoje intrinsecamente global.

 

João Campos é economista pelo ISEG – Lisbon School of Economics and Management, atualmente no mestrado em Economia Internacional e Estudos Europeus pelo mesmo Instituto e vice-presidente da Comissão Executiva do Conselho Nacional de Debates Universitários.

 

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