Peste Malina

| 4 Jun 20

Não, não é O Ano da Morte de Ricardo Reis, mas é o ano d’A Peste. As Ondas de pequenos monstros transformaram a terra num Vasto Mar de Sargaços. Qualquer Coisa Como um Lugar de Massacre. Nada vai voltar a ser como O Mundo em que Vivi. Sim, Os Dias Tranquilos acabaram, Os Anjos desfizeram As Estrelas Propícias (se é que, na verdade, alguma vez existiram). Agora, a vida está Em Frente da Porta, do Lado de Fora e toda a gente está confinada aos Pequenos Delírios Domésticos.

O Senhor Ministro começou por não fazer propriamente A Convocatória, preferindo seguir o caminho da Persuasão, ao menos por algum tempo. O Senhor Presidente, porém, achava que Longe é um bom Lugar, tanto mais que, pelo mundo fora as coisas se passavam rapidamente Um, Ninguém, Cem Mil. Logo, a melhor Terapia, achava ser um Horizonte Cerrado. Eles e Os Outros Legítimos Superiores implementaram A Modificação e transformaram as nossas casas em Quartéis de Inverno: uma população apanhada na Armadilha dupla do vírus e da prisão. Gente que ficou reduzida a viver n’A Terra onde o Tempo Parou, em que a rua se tornou um Pátio Maldito.

Assim, Deste Modo ou Daquele, O Grupo fechou A Porta, cada casa transformada n’A Casa de Bernarda Alba, Quatro Prisões Debaixo de Armas, para onde fomos lançadas e lançados com Um Bilhete só de Ida. A Casa e o Mundo agora separam-se e vivemos Uma Vida pela Metade, Numa Terra Estranha. Olhamos pela televisão A Arte de Morrer Longe. E Se Amanhã o Medo nos impedir de Viver com os Outros? Se nos remetermos a um Silêncio de Ferro? Se acabar por se nos esbater A Memória do Mundo? E se os Laços de Família se transformarem em Sementes de Violência?

E se neste Quarto das Traseiras em que a casa se transmudou O Bolor tomar conta de mim até à Insânia, à Senilidade? Se me ficar neste Reduto quase Final perdendo O Fio do Horizonte?

O Jogo da Vida está a ficar muito complicado, tanto mais que não há Instruções para Salvar a Mundo. Percorre o ar Um Murmúrio de Tempestade e parece que tudo está em Temor e Tremor. Como uma Escalada, um Tempo de Cinzas que nos conduzirá Até ao Fim, a Cem Anos de Solidão.

Não, recuso, A Noite não é Eterna, O que nos Separa uns dos Outros não é A Cortina de Nenhum Olhar. Haverá sempre O sorriso aos pés da Escada, uma Música ao Longe, O Cheiro da Noite. Combateremos a Sombra.

A História não acabou. Não posso nem quero que isto seja O Fim da Aventura. A minha não é A Varanda do Frangipani, mas farei dela O jardim sem Limites, mesmo que tenha que aprender O Cultivo das Flores de Plástico. Vou estabelecer um Calendário Privado e, se não posso visitar A Loja da Esquina, farei uma Viagem à Roda do Meu Quarto. Se não posso dar o Abraço a’O Amigo Distante, disponho sempre do Telemóvel.

Tenho um Manual para Mulheres de Limpeza e vou Descascando a Cebola e fazendo O Prato de Arroz Doce, porque é preciso tratar de Coração, Cabeça e Estômago e mesmo com A Vida em Surdina, sonho Um Pintor debaixo do Lava-Loiças. E, já agora, Vamos Comprar um Poeta, porque quero ter Tudo e mais alguma coisa, não quero ficar com Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. E Ainda bem que Vamos para o Verão, com a promessa de um Agosto Azul e Uma Esplanada sobre o Mar, mesmo se As Praias de Portugal são agora A liberdade de Pátio e não temos hipótese de encontrar Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde.

Os Velhos Também Querem Viver, ou seja, também quero viver. Mesmo que só tenha uma Janela Fingida para ficar A-ver-o-Mar, por detrás da Névoa.

Nessa de se deixar esmagar pelo Grito, Primeiro os Idiotas. Nada será como era, claro, mas não me tirem Um Gosto e Seis Vinténs, deixem-me ouvir Canções Mexicanas, um Moderato Cantabile, A Sinfonia Pastoral ou O Vento Assobiando nas Gruas; e se As pessoas Felizes Lêem e Bebem Café, fico contente porque as Mulheres que Lêem São Perigosas e como não me deixam ir ao Café Central, vou, ao menos, tirar uma Bica Escaldada. Eu só queria Um Admirável Mundo Novo e Um Amor Feliz.

Nasci com Passaporte de Turista e só me resta uma Viagem a Trálálá. Se perguntarem por mim, não estou!

(Como se nota, as expressões em itálico são títulos de livros.)

 

Fernanda Branco é professora aposentada do Ensino Secundário

 

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