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Peter Stilwell: um doutoramento pelo longo empenho no ensino da teologia. Foto: Direitos reservados.
Peter Stilwell: um doutoramento pelo longo empenho no ensino da teologia. Foto: Direitos reservados.

Honoris causa em Macau

Peter Stilwell: Humanidade e Educação. Obra de misericórdia e encontro com Deus

| 20/12/2025

“Em reconhecimento pelo seu longo e distinto empenho no ensino teológico, na teologia académica e na liderança universitária, particularmente na Universidade de São José”, de Macau, esta escola decidiu atribuir ao padre Peter Stilwell, professor e antigo director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, um doutoramento honoris causa em Teologia.

A cerimónia decorreu no passado dia 6, em Macau, e o distinguido decidiu fazer o seu discurso de aceitação respondendo à questão: “Por que dedica a Igreja Católica tanto tempo, esforço e recursos à Educação – desde escolas primárias a universidades?” No percurso, o autor vai ao Império Romano e à época de Diocleciano e Constantino para ler que os cristãos eram admirados pela empatia e humanidade que demonstravam para com os mais vulneráveis.

É esse texto que o 7MARGENS publica a seguir, com título e subtítulos da nossa responsabilidade.

 

Permitam-me que comece por agradecer ao Bispo Stephen Lee, Chanceler desta Universidade de São José, ao Reitor, Rev. Stephen Morgan, e aos restantes membros do Conselho Geral da Universidade, por me terem atribuído o grau de “Doctor of Divinity Honoris Causa”. O título é-me concedido pessoalmente, mas vejo-o como reconhecimento da dedicação de muitos e de um trabalho de equipa que, ao longo de oito anos críticos, permitiu consolidar uma instituição sonhada inicialmente pelo Bispo Domingos Lam e mais tarde lançada pelos Professores João Lourenço e Ruben Cabral – primeiros reitores do Instituto Inter-Universitário de Macau (IIUM), mais tarde Universidade de São José (USJ).

Gostaria de aproveitar esta oportunidade para abordar uma questão raramente referida publicamente, mas sobre a qual muitos se interrogam: Por que dedica a Igreja Católica tanto tempo, esforço e recursos à Educação – desde escolas primárias a universidades?

  • Por que fundaram os jesuítas, há 432 anos, o Colégio de São Paulo, em Macau, por exemplo, decorridos apenas vinte anos de os portugueses terem sido autorizados a estabelecer-se na península?
  • Dado que só 5% dos residentes de Macau são cristãos, e menos ainda católicos, como se explica que a Igreja Católica gere mais de 40% da rede escolar primária e secundária da Região, para além de um Seminário e uma Universidade? Se o objetivo é recrutar membros para a Igreja e formar o seu clero, os resultados têm sido, no mínimo, limitados.

Todavia, a questão não se circunscreve a Macau. A rede da educação católica é mundial, e engloba um número de instituições, em todos os níveis do ensino, que supera largamente o da maioria dos países.

Para encontrarmos uma resposta, recuemos aos primeiros séculos do Cristianismo.

Uma “questão de família”

Papa Leão XIV e Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, assinaram este sábado, dia 29, em Istambul uma declaração conjunta na qual recusam o recurso à religião para justificar a guerra. Foto © Vatican Media, via Agência Ecclesia.

O Papa Leão e o Patriarca Bartolomeu em Istambul: memória de um concílio convocado pelo imperador para pacificar o Império. Foto © Vatican Media, via Agência Ecclesia.

Muito se tem falado, este ano, do Concílio de Niceia. No final de novembro, o Papa Leão e o Patriarca Bartolomeu, com dirigentes de muitas outras denominações cristãs, visitaram as ruínas de uma antiga basílica para comemorar o Primeiro Concílio Ecuménico do Cristianismo. Essa grande assembleia deliberativa decorreu, precisamente há 1700 anos, no belíssimo enquadramento de um palácio imperial, nas margens do Lago Iznik, na atual Turquia. O Concílio fora convocado pelo imperador para maio do ano 325 da Era Cristã (ou Comum). Constantino acabava de assumir o domínio total do Império Romano – coisa que não acontecia há largas décadas –, e pretendia resolver uma disputa que ameaçava despedaçar o Cristianismo. Tratava-se de formular com precisão teológica a relação de Jesus Cristo com a natureza divina.

Outra questão, contudo, que há muito me intriga. Que foi que levou Constantino – na altura, nem sequer cristão batizado – a tentar reunir os bispos de todo o Império, e não só? A controvérsia dividia, por vezes violentamente, as comunidades cristãs na zona oriental do Mediterrâneo. Constantino, no entanto, já tinha enfrentado anteriormente essa questão, mas por carta, aconselhando com autoridade imperial aos cristãos que deixassem para os filósofos o debate dessas minúcias teológicas.

Seria um erro descartarmos a persistência de Constantino na pacificação da Igreja como uma “questão de família”. É verdade que a mãe era cristã, e um dos seus conselheiros mais próximos era bispo de Córdoba, mas Constantino era um estratega brilhante e um político implacável. Um ano após o Concílio, por exemplo, mandou executar a sua segunda mulher e o filho mais velho da primeira, alegadamente por um envolvimento entre os dois.

Que vantagem política via, então, Constantino no Cristianismo? Inspirado ou não por sonhos ou visões, como enquadrava ele a Igreja no seu objetivo político de restaurar ao Império Romano a coesão de outros tempos?

No século III, Roma tinha visto a ascensão e queda de cerca de 25 imperadores. Cem anos de gestão incompetente, conflitos internos, migração incontrolada e vagas repetidas de doença e fome haviam deixado o outrora orgulhoso Império à beira do colapso. Na viragem para o século IV, o general Diocleciano (284-305 d.C.) – que viria a ser mentor de Constantino –, assumira o poder, reformara o Estado e procurara reintroduzir as virtudes cívicas e religiosas dos tempos áureos de Roma. Assim, em parte, se explica a perseguição mais violenta e generalizada de sempre que desencadeou contra os cristãos. Mas por que terá ele, de entre os inúmeros movimentos religiosos espalhados pelo Império, decidido fazer incidir a sua ira particularmente sobre os cristãos?

“Provaram por atos visíveis a sua humanidade”

Mosaico romano, cerca do ano 200; a imagem pode representar um mártir cristão, embora outras fontes sugiram que representa o castigo de um qualquer criminoso: Diocleciano e Constantino viram, mas interpretaram de forma diametralmente oposta, a rede de comunidades cristãs que se estendia por todo o território do Império. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Zliten_leopard.jpg

Mosaico romano, cerca do ano 200: a imagem pode representar um mártir cristão, embora outras fontes sugiram que representa o castigo de um qualquer criminoso: Diocleciano e Constantino viram, mas interpretaram de forma diametralmente oposta, a rede de comunidades cristãs que se estendia por todo o território do Império. Fonte © Domínio público, via Wikimedia Commons

Na minha opinião, o que Diocleciano e Constantino viram, mas interpretaram de forma diametralmente oposta, foi a rede de comunidades cristãs que se estendia por todo o território do Império, e mesmo para lá das suas fronteiras. Não era um arquipélago de comunidades autónomas, nem uma organização centralizada, monolítica, mas algo bem mais subtil, tecido, como diria séculos depois Charles Péguy, de la grande Amitié. As comunidades estruturavam-se – internamente e entre elas – segundo normas que a si próprias se impunham, sobretudo no que dizia respeito às tradicionais práticas cívicas de cariz religioso, mas também aos espetáculos públicos como o circo e o teatro[1]. Diocleciano, e Galério seu César, viam nisso uma ameaça à reconstrução do Império. Constantino, pelo contrário, percebeu que nessa vitalidade comunitária estava a argamassa de uma nova ordem social e política: a de um Império que, apesar de ostentar ainda o nome de Romano, seria qualitativamente diferente – dele acabaria por florescer, com efeito, uma civilização nova, de matriz cristã.

Podemos aprofundar um pouco mais a questão. Do escritor cristão Lactâncio (c. 240 – c. 325), e de Eusébio (c. 260 – 339), bispo de Cesareia Marítima, contemporâneos e admiradores incondicionais de Constantino, aprendemos que não foi ele, mas sim o seu antigo colega e rival, Galério – bem antipático e dado a acessos de violência –, quem inverteu, subitamente, a sua longa e figadal aversão ao Cristianismo com um Édito de Tolerância, publicado em Sérdica (hoje Sofia, capital da Bulgária), no ano 311. Pôs termo assim à perseguição religiosa que ele próprio tinha iniciado com Diocleciano. Dois anos depois, Constantino e Licínio estenderiam essa liberdade de culto às restantes regiões do Império, com o célebre Édito de Milão. Contudo, não podemos deixar de nos interrogar sobre o motivo que despoletou tão súbita e radical mudança de Galério? A resposta parece-me estar no próprio édito. Galério sofria de um dolorosíssimo cancro no intestino e, ao concluir o seu decreto, pede que os cristãos rezem agora pela sua saúde[2]. É curioso como, no pensamento desse outrora arqui-inimigo, os cristãos se encontram associados ao cuidado para com os que sofrem.

O que se segue confirma as nossas suspeitas. Libertos por Galério “da miséria das minas”, os cristãos regressam às suas terras. “Longas colunas de homens e mulheres seguiam o seu caminho, cantando salmos e hinos de louvor a Deus pelas estradas e pelas praças da cidade” – conta Eusébio. E os demais cidadãos “partilhavam a nossa alegria pelo que estava a acontecer”.[3] Nas entrelinhas, percebe-se que os cristãos são populares. Mais uma razão, provavelmente, num Império em crise, para as autoridades civis verem nas comunidades cristãs uma ameaça ao seu domínio da ordem e da opinião pública[4].

Algumas páginas mais adiante, na mesma obra de Eusébio, percebemos a razão dessa popularidade. Perante um surto “de peste e de fome”, que engole “famílias inteiras em poucos momentos”:

“tornaram-se evidentes para todos os frutos ilimitados do entusiasmo e da devoção dos cristãos. Sozinhos, durante esta terrível calamidade, provaram por atos visíveis a sua empatia e humanidade. Todo o dia, alguns cuidavam sem descanso dos moribundos e enterravam os mortos […]; outros reuniam o enorme número dos que, por toda a cidade, se encontravam reduzidos a espantalhos e lhes distribuíam pães; de tal forma que os seus louvores eram cantados por todo o lado, e todos glorificavam o Deus dos cristãos e consideravam que só eles eram piedosos e verdadeiramente religiosos: não falavam por si as suas ações?“[5]

 

Sustentados na amizade

O jesuíta Matteo Ricci com vestes chinesas: com Valignano e Ruggieri ele foi um dos que sacudiu a roupagem da expansão europeia, valorizando a milenar cultura chinesa e encetando com esta um diálogo aberto.

O jesuíta Matteo Ricci com vestes chinesas: com Valignano e Ruggieri ele foi um dos que sacudiu a roupagem da expansão europeia, valorizando a milenar cultura chinesa e encetando com esta um diálogo aberto. Imagem: Direitos reservados.

As comunidades cristãs – vistas por alguns como ameaça à ordem pública e às tradicionais virtudes cívicas de Roma, e como subvertendo o poder absoluto reclamado pelos autocratas imperiais –, gozavam da admiração discreta de muitos, e efusiva de alguns, devido ao modo como humanizavam a sociedade e cuidavam dos carenciados. Nas palavras da Carta a Diogneto (séc. II): “o que a alma é no corpo, os cristãos são no mundo”.[6]

Não se tratava de um acaso. A bondade e o cuidado pelos mais frágeis, agápe[7], tinham sido características de Jesus de Nazaré. Não por ter uma disposição sociável e ser de amizade fácil – embora isso também fosse verdade. Mas porque a atenção e o cuidado para com o outro eram o que vivia e ensinava. Dir-se-ia mesmo, perigosamente! Basta ler as suas grandes parábolas – o Filho Pródigo, o Bom Samaritano ou o Juízo Final, por exemplo – para percebermos que as “obras de misericórdia” listadas no Catecismo – sete corporais e sete espirituais – não são matéria opcional na vida cristã; são o cerne da experiência religiosa vivida e proposta por Jesus [8]. Na sua “humanidade”, na admiração pela natureza, no cuidado para com os pequenos e os feridos pela vida, entrevemos o motivo por que João o aponta como logos que tudo ilumina. E regressamos assim a Niceia. Jesus não se limitou a informar-nos sobre Deus; tornou presente – na sua vida terrena e na sua manifestação como Ressuscitado – o agápe que Deus é.

Alimentar os famintos, dar de beber a quem tem sede, acolher os sem-abrigo, tratar os doentes, cultivar o perdão e a paz mesmo e em tempos conturbados… são experiências transformadoras que decorrem diretamente do mandato de Jesus: “Fazei isto em memória de mim!” Do âmago de cada celebração eucarística brota a motivação para um sem número de hospícios, hospitais, lares e leprosarias criados, pelos séculos fora, por comunidades cristãs; dele flui a paixão pela verdade e pela educação, o desejo de entender a ação de Deus no mundo e na história, que tem alimentado, esclarecido e orientado as demais obras de misericórdia, dando origem às grandes escolas cristãs de Alexandria, Antioquia e Cesareia, a Oriente, dos mosteiros e catedrais, a Ocidente, e, mais tarde, a universidades como Bolonha, Paris, Oxford, Salamanca e Coimbra. Aí encontramos a motivação profunda que levou Valignano, Ruggieri e Ricci a sacudir a roupagem da expansão política e económica europeia, a valorizar a milenar cultura chinesa, e a encetar com esta um diálogo aberto, sustentado não em qualquer interesse pessoal ou de grupo, mas na Amizade[9], e numa preocupação partilhada pelo bem-estar de todos.

A Universidade de São José”, de Macau, decidiu atribuir ao padre Peter Stilwell um doutoramento honoris causa em Teologia. A cerimónia decorreu no dia 6 de dezembro de 2025, em Macau. Foto: Direitos reservados.

A Universidade de São José”, de Macau, decidiu atribuir ao padre Peter Stilwell um doutoramento honoris causa em Teologia. A cerimónia decorreu no dia 6 de dezembro de 2025, em Macau. Foto: Direitos reservados.

Peter Stilwell é professor e foi director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e foi reitor da Universidade de São José, de Macau.

 

NOTAS

[1] “Adotaram, ao seu arbítrio, segundo o próprio entendimento, leis que observavam rigorosamente e reuniam multidões de pessoas de todo o género em vários lugares” – https://it.wikipedia.org/wiki/Editto_di_Serdica (consultado a 08/12/2025).

[2] “Por isso, em conformidade com este nosso perdão, os cristãos devem rezar ao seu deus pela nossa saúde, a do Estado, e a sua própria […]” – https://it.wikipedia.org/wiki/Editto_di_Serdica (consultado a 08/12/2025).

[3] Eusébio, A História da Igreja de Cristo a Constantino, Penguin Books Ltd. (Edição Kindle), (p. 284)

[4] Um indício revelador é referido por Eusébio. Pouco antes da sua derrota para Constantino em 324, Licínio promulgou uma lei “descaradamente vergonhosa e cruel, excluindo todo o sentimento civilizado: ordenava que aqueles que demonstrassem piedade sofressem o mesmo castigo que aqueles que a despertassem, e que qualquer pessoa que prestasse serviços humanitários fosse acorrentada e lançada na prisão” – Livro 10.8. Solução alternativa, como nos recordou o Papa Francisco, foi tentada, uma geração mais tarde, sem sucesso, pelo Imperador Juliano “O Apóstata” (361-363 d.C.), que pressionou as autoridades religiosas tradicionais, romanas e gregas, a adotarem práticas sócio caritativas dos cristãos – Encíclica Dilexit nos(2024), 169.

[5] Eusébio, A História da Igreja, de Cristo a Constantino, Penguin Books Ltd. (Edição Kindle), p. 291

[6] Epístola a Diogneto, Grapevine Press (Edição Kindle), p. 11.

[7] O termo grego agápe, considerado por Paulo como o maior dos dons de Deus (1 Coríntios 13), pode ter originalmente denotado a bondade amorosa de uma mãe para com a criança no seu ventre. Na mente do Apóstolo, no entanto, evocava provavelmente o termo hebraico hesed, ou seja, o amor que Deus tem para com o povo com quem estabeleceu a sua aliança – veja-se, por exemplo, quando escreve aos romanos que nada “nos pode separar do agápe de Deus em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rom 8,39). João vai mais longe, e afirma que Deus é, Ele próprio, amor (Theos agápe estín – 1 Jo 4,16).

[8] No Catecismo da Igreja Católica, as 14 “obras de misericórdia” tradicionais são sumariamente mencionadas nos parágrafos 2447-2449. O contraste com a relevância que lhes é atribuída no presente artigo pareceria exigir uma maior justificação, não fosse a última encíclica do Papa Francisco, “Dilexit nos. Sobre o Amor Humano e Divino do Coração de Jesus” (2024), e a primeira Exortação Apostólica do Papa Leão XIV, “Dilexi te. Sobre o Amor aos Pobres” (2025). “O Coração de Cristo, como símbolo da fonte mais profunda e pessoal do seu amor por nós, é o próprio cerne da pregação inicial do Evangelho. Está na origem da nossa fé, como fonte que revigora e vivifica as nossas crenças cristãs” (DN, 32).

[9] Título do célebre livro de Matteo Ricci, Sobre a Amizade: Cem Máximas para um Príncipe Chinês (1599).

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