“Pfukùár” a humanidade

| 27 Abr 20

Primeiro levaram os negros/ Mas não me importei com isso/ Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários/ Mas não me importei com isso/ Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis/ Mas não me importei com isso/ Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados/ Mas como tenho meu emprego/ Também não me importei

Agora estão me levando/ Mas já é tarde/ Como eu não me importei com ninguém/ Ninguém se importa comigo.

Bertolt Brecht (1898-1956)

 

Vivíamos “aparentemente” felizes o limiar do ano 2020. O tal que, por ser capicua, dizia-se que prenunciava beleza, alegria, bem-estar e todas as boas coisas ligadas à estética. Mesmo quem não estivesse feliz, “entrava na onda” e era como se estivesse, porque a aura do início de um novo ano, de um modo geral, faz pensar que muita coisa irá mudar para o melhor. Alguns se esquecem, tal como se tem dito, que o dia que marca o ano novo é apenas mais uma data no calendário e que quem tem de mudar somos nós.

E, de facto, tínhamos de mudar. Já há muito tempo que se impunham mudanças de comportamento ligadas à abordagem do ambiente e uma reflexão sobre hábitos de consumo. Mas desta vez, o início do ano 2020 impôs-nos mudança de comportamento sociocultural, de hábitos e de rituais ligados directamente à nossa vida. Era um caso (in)visível de vida ou de morte. Eu explico, se antes não tínhamos como medir o impacto directo do peso que colocávamos à terra ao explorá-la sem limites, desta feita, a medição desse peso passou a ser visível a “olho nu’. Morre-se todos os dias. Tivemos de mudar os nossos rituais humanos.

Sim, mudar. Passar ao confinamento. A experimentar a vida dos animais. A dar lugar a eles, para que circulem livremente no campo e nas cidades. Eles passaram a ser nós e nós eles. Passamos a assistir à missa e não a presenciá-la. Não estar presentes na casa de Deus. Na verdade, a que assumimos ser a casa de Deus. Não nos ocorria e se nos ocorresse, não tratávamos a terra como se fosse casa de Deus. E custa-nos muito. Porque o calor humano irradiado dentro de uma igreja tem feito as nossas vidas. Faz sentirmo-nos perto de Deus. Alguns de nós, muito mais sentimos a presença de Deus, por comungarmos a santa hóstia. Isso foi-nos vedado.

Foi-nos vedado pelo surgimento de novos rituais: lavar as mãos, lavar as mãos, lavar as mãos, descalçar à porta de casa, não abraçar, obedecer à etiqueta da tosse, obedecer um distanciamento mínimo entre uns e os outros, de 1,5 metros; ficar em casa. E começámos a perguntar-nos como é que se fica em nossas próprias casas, especialmente as da maioria da população, que são exíguas, onde as pessoas fazem parte do dia-a-dia no quintal. É surreal. Tão surreal quanto o pfukùá.

Essa palavra de grafia estranha para a língua portuguesa, significa em língua changana madrugar, erguer-se contra alguém, ressuscitar (kùpfùká): “Ressurreição de um morto para se vingar de um mal de que ele foi vítima durante a vida.” Esta é a maneira como Adriano Langa, OFM, define a palavra no seu livro Questões Cristãs à Religião Tradicional Africana. Aportuguesei-a e passou para pfkùár. Em changana o prefixo “ku” marca a classe de verbos numa palavra, ie, pfukùár significa ressuscitar, tal como já o tinha dito. Em português o verbo é marcado pelas terminações “ar”, “er”, “ir”, etc. Estamos pfùkados, o “ado”marca claramente o estado de uma coisa ou de um ser. Compliquei, mas depois explico-me. Por evolução semântica, em diferentes línguas do Sul, pfukùá passou também a significar azar. Ser acometido por um azar, dos enormes.

Os bitongas, povo do sul de Moçambique, utilizam a mesma palavra, mas iniciam-na com o recurso a uma consoante nasal, designam-na mpfukùá e educam os seus filhos a terem cuidado com diferentes tipos de mpfukùás que podem aparecer na vida, porque há muitos. Passo a enumerar alguns:

Um mpfukùá pode surgir do contacto com uma moeda, num processo a partir do qual alguém fez o tratamento de um furúnculo. Espreme-o, passa nele uma mezinha e, no fim, uma moeda, que a deita fora. Esta fica no meio do caminho e quem a apanha, fica com o azar. Recolhe aquele azar para si. Uma outra forma de “pegar” o mpfukùá é a partir de lugares nos quais se fazem determinados rituais. Um exemplo: se alguém pisa no espaço no qual alguém tomou um banho de purificação, nesse lugar, ao realizar o ritual, o indivíduo toma um banho de mezinhas e fala, para espantar os males que o atormentam e esses saem com o banho. Ficam no chão, em determinado espaço. Quem pisa o lugar afectado, pode “pegar” o mpfukùá. Entretanto existem, também, mpfukùás já entranhados nas pessoas. Vivem com elas e elas próprias passam a ser consideradas um mpfukùá. E, se alguém se mete com elas, apanha-o. É o caso, por exemplo, de um homem ou de uma mulher que se acasala com um “homem ou mulher da noite” de que falei no texto anterior.

https://setemargens.com/no-meio-do-caminho-pedras-sombras-maridos-e-mulheres-da-noite/

Essa pessoa fica mpfukùáda.

Então voltando ao que dizia antes, a humanidade está pfukùáda pelo novo corona vírus, (re)surgido para nos atormentar a vida, de tal modo que não podemos tocar em moedas, em superfícies ou em pessoas que estejam infectadas; se isso acontecer, “pegamos” logo um pfukùá.

Em Moçambique, quando começamos a ouvir falar nele, assumimos que tal não chegaria a nós. Ignorámos e continuámos com as nossas vidas, como se nada fosse. Um tempo depois, começámos a perceber que o trânsito de coisas e de pessoas contribuíam para propagar o pfukùá. Ficámos assustados e abrandámos um pouco. Mas chegou-nos a tese (testada em um só indivíduo) de que o vírus não afectava os negros e que as temperaturas altas, por consequência as africanas, não suportavam o vírus; ficámos calmos, até que, em finais do mês de Março, surge o primeiro caso em Maputo, deixando cair as teses água abaixo. Uns serenaram, outros, nem por isso.

A verdade é que há nuances entre a credulidade de o vírus se propagar tanto quanto foi na Ásia, Europa e na América. Há rituais que continuam a ter lugar, como o dos que gostam de estar juntos a “beber um copo”; entretanto, aqueles há, os responsáveis, dentre os quais crianças, que têm consciência e ficam em casa; e os comerciantes e/ou estabelecimentos públicos que colocaram à entrada das suas instituições baldes de água e sabão ou álcool em gel, para os utentes cumprirem com o ritual de limpeza, antes de frequentarem os seus locais. Estes, sim. Importam-se. E devem.

Nesta altura [25 de Abril] contam-se já 76 pessoas infectadas (12 das quais recuperadas) pela covid-19. As províncias de Maputo e Cabo Delgado são os epicentros da doença. Têm estado a elevar-se os níveis de alerta para a prevenção. Ainda estamos em “estado de emergência”, que significa contenção, circulação mínima ou essencial de coisas e de pessoas. Temos estado a ir com mais prudência no que toca às movimentações e o país ainda não decretou o estado de sítio. As opiniões se dividem, há quem nos alerte que dias piores virão, mas há sinais de esperança, sobretudo fundamentados na fé e na ideia de que em Moçambique já nos habituámos a lidar com grandes males e epidemias. Além disso, e do ponto de vista da gestão da saúde pública, muito cedo, as autoridades tomaram as medidas pertinentes para mitigar a doença. Foram activados os níveis de alerta necessários, talvez seja por isso que a situação não tem sido desastrosa. Não há mortes.

Ou seja, quando foram buscar os negros, os operários, os miseráveis importámo-nos; quando foram buscar os desempregados, mesmo tendo empregos, importámo-nos; porque para nós todos os outros importam.

 

Sara Jona Laisse é docente na Universidade Politécnica de Moçambique e membro do Graal, Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

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