Pintura e desenho de Emília Nadal no Sardoal: “Meditações” sobre a Paixão e Páscoa

| 4 Mai 19

Emília Nadal, Caminho (série Via-Sacra)

 

São “como que meditações” acerca da paixão de Jesus, uma história “perversa” e que revela a “plena humanidade” de Cristo, diz a pintora Emília Nadal ao 7MARGENS, sobre as obras que seleccionou para a exposição Paixão. A mostra inclui obras de pintura e desenho realizadas ao longo de duas décadas e está patente no Centro Cultural Gil Vicente, no Sardoal, até 9 de Junho (Domingo de Pentecostes).

“A paixão e morte de Jesus de Nazaré foi um acontecimento perverso, sob todos os pontos de vista. Não é bom pretender branquear a realidade quando ela foi objectivamente horrenda”, diz a artista, a propósito do foco destas obras. Essa crueza, a dimensão do horrível que também se pode ler por exemplo nos quadros da série Via-Sacra, são dadas pela cor ou pelo movimento – Jesus é o corpo cujo contorno se destaca pelo vermelho de sangue, quase sempre em contraste com as cores mais suaves (ou mais duras) do ambiente circundante ou dos outros personagens – a mãe, Simão de Cirene, Verónica, as mulheres de Jerusalém, Pilatos…

Emília Nadal, Pietá 2

 

“Há anos, passei uma Semana Santa muito engripada e dediquei o tempo todo a fazer a Via-Sacra, apesar de nunca ter participado numa ao vivo”, recorda Emília Nadal sobre o modo como surgiu este conjunto. “Gostei muito de os fazer, apesar de achar que a Via-Sacra é algo horrível, que nos move de horror e de admiração: perguntamo-nos como foi possível e como ainda é possível. E isso permitiu-me, de certa maneira, uma Semana Santa muito semelhante a uma meditação espiritual.”

Estas obras não se ficam, no entanto, pela dimensão trágica. “Cristo esvaziou-se de si próprio, entregando-se voluntariamente às vilezas humanas e religiosas que, infelizmente, são de todos os tempos. É disso que ele nos quer salvar para podermos ser filhos de Deus”, diz ainda Emília Nadal. “O mistério de Cristo não está apenas na sua divindade mas na aceitação da sua plena humanidade.”

Emília Nadal, Deposição

 

Quer o esvaziamento quer a plena humanidade configuram-se em várias das obras patentes em Paixão. Não só em algumas da já referida série Via-Sacra, como também, por exemplo, nas duas Pietá, na Deposição da Cruz ou, ainda, na representação da Aparição a Maria Madalena.

O tema da Paixão não surge por acaso: no Sardoal, tendo em conta a riqueza de tradições ligadas à Semana Santa e ao tempo de Páscoa, tornou-se já uma tradição, desde 2000, organizar uma exposição evocativa da época, como explica João Soares, curador da galeria de arte municipal. Como em outras localidades, as tradições incluem momentos devocionais fortes, como sejam as procissões dos Passos, de Ramos, do Enterro e dos Fogaréus – assim designada por causa das tochas que iluminam a procissão, ao mesmo tempo que a iluminação pública é apagada.

Emília Nadal, Aparição a Maria Madalena

 

Por isso o convite a Emília Nadal surgiu quase como inevitável: João Soares já tinha visto o Pentecostes exposto e conhecia a obra de Emília Nadal sobre a temática religiosa. “Eu tinha gosto em expor durante este tempo, era uma oportunidade de ver tudo junto e foi fácil aceitar”, respondeu a artista.

“A paixão da exposição é a paixão de Jesus Cristo, mas também a minha, por traduzir o trabalho que me realiza e que faço quase sempre por motu próprio”, diz ainda Emília Nadal. “E inclui temas diferentes, também porque eu sempre trabalhei temas e géneros muito diferentes.”

Os 30 desenhos e pinturas foram realizados entre 1990-92 (um Jacob com o Anjo) e 2010 (alguns desenhos do Calvário e da Crucificação). Pelo meio, estão as do Pentecostes (2003) as outras 20 pinturas em pastel da Via-Sacra, o Pentecostese a Luta de São Miguel com o Dragão (2004), e da Ressurreição (2005).

Emília Nadal, Jacob e o Anjo

 

Apesar de ser a primeira vez que expõe algumas das obras, outras já participaram em exposições anteriores: o Pentecostes esteve já na Torre do Tombo, numa exposição sobre o Espírito Santo, a Ressurreição foi exposta na Sociedade Nacional das Belas Artes em 2005, por ocasião do Congresso Internacional para a Nova Evangelização em Lisboa, uma parte da Via-Sacra foi mostrada em Fátima há vários anos e Jacob e o Anjo na Galeria São Mamede, em Lisboa.

Nem só de semanas engripadas se fazem as histórias desta mostra. O desenho da contra-capa do catálogo mostra o centurião a olhar para o Cristo morto. Emília Nadal recorda que, há muitos anos, numa temporada do Verão em Faro, ouvia na missa da Sé um padre que lia sempre o texto do evangelho que conta que o centurião trespassa Cristo com uma lança. “Só mais tarde descobri que ele tinha ficado quase cego e por isso rezava sempre o mesmo texto…”

Emília Nadal, Crucifixão

 
Paixão – Pintura e Desenho, de Emília Nadal 

Centro Cultural Gil Vicente – Avenida Dom João III – Sardoal

Todos os dias, excepto segundas-feiras, 16h-18h; até 9 de Junho

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Doentes de covid-19 mantêm “direito e acesso à assistência espiritual e religiosa” nos hospitais

A Coordenação Nacional das Capelanias Hospitalares emitiu um comunicado esta quarta-feira, dia 1, para esclarecer que “os capelães não estão impedidos de prestar assistência espiritual e religiosa”. Têm, isso sim, de cumprir “medidas de contingência existentes nos hospitais”, como todos os profissionais, por forma a minimizar os “riscos de contágio, quer dos capelães quer dos próprios doentes e dos profissionais”, sublinha o documento.

Cardeal Tagle propõe eliminar a dívida dos países pobres

O cardeal filipino Luis Antonio Tagle, prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, propôs a criação de um Jubileu especial em que os países ricos perdoem a dívida dos países pobres aos quais concederam empréstimos, de forma a que estes tenham condições para combater a pandemia de covid-19.

Oxfam pede “um Plano Marshall de Saúde” para o mundo

A Oxfam, ONG de luta contra a pobreza sediada no Quénia e presente em mais de 90 países, pediu esta segunda-feira, 30, “um plano de emergência para a saúde pública” com a mobilização de 160 biliões de dólares. Este valor permitiria duplicar os gastos com a saúde nos 85 países mais pobres, onde vive quase metade da população mundial.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Costurar máscaras cirúrgicas em vez de vestes litúrgicas, ou como combater a pandemia no convento

Costurar máscaras cirúrgicas em vez de vestes litúrgicas, ou como combater a pandemia no convento

À medida que a pandemia alastrava, a angústia crescia no pequeno mosteiro do sul de França onde vivem as Irmãs da Consolação do Sagrado Coração e da Santa Face. As 25 religiosas queriam fazer mais do que rezar. Diante da imagem de Nossa Senhora do Povo, que acreditam ter salvo a sua região da peste em 1524, pediram lhes fosse dada uma tarefa: queriam colaborar com a virgem no combate a esta nova pandemia. No dia seguinte, receberam uma chamada do bispo da diocese e outra do presidente da câmara: ambos lhes pediam para fabricar máscaras.

É notícia

Entre margens

Deus sem máscaras novidade

Assisti à cerimónia da consagração ao coração de Jesus e ao coração de Maria, proposta pelos bispos de Portugal, Espanha e outros países. Um ponto de partida para reflectir sobre oração e rito.

A ilusão do super-homem

As últimas semanas em Portugal, e há já antes noutros cantos do mundo, um ser, apenas visível a microscópio, mudou por completo as nossas vidas. Na altura em que julgávamos ter atingido o auge da evolução e desenvolvimento técnico e científico, surge um vírus.

Cultura e artes

Tagore: Em busca de Deus novidade

Rabindranath Tagore (1861-1941), Nobel de Literatura em 1913, é um grande poeta universal. Indiano, de família principesca, estudou Direito e Literatura, em Inglaterra, em 1877, não chegando a acabar o curso devido à secura do ensino superior ministrado. Tal como o seu amigo Gandhi, que sabia de cor e recitava todos os dias as Bem-aventuranças, foi atraído pelo cristianismo e

Editora francesa oferece “panfletos” sobre a crise

Sendo certo que as doações essenciais neste período de pandemia dizem respeito a tudo o que nos pode tratar da saúde física, não há razão para negligenciar outras dádivas. É o caso de uma das mais famosas editoras francesas, a Gallimard, que diariamente oferece textos que pretendem ser uma terceira via entre a solenidade da escrita de um livro e o anódino da informação de um ecrã.

Sete Partidas

A doença do coronavírus serve de desculpa para tudo? novidade

À boleia da pandemia que nos aflige, vejo coisas a acontecer que não podem deixar de me espantar, pela sua aberração e desfaçatez de quem as pratica. Em meados de fevereiro, em Mullaithivu, no norte do Sri Lanka, foi descoberta uma vala comum enquanto se procedia às escavações para as fundações duma extensão do Hospital de Mankulam. Segundo os médicos legistas, os restos mortais encontrados têm mais de 20 anos.

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco