Historiador contesta ideia de “silêncio”

Pio XII desenvolveu políticas ativas de salvamento de judeus

| 2 Fev 2022

Pio XII terá sensibilizado o clero para disponibilizar mosteiros, residências e claustros para esconder milhares de judeus, não apenas em Roma, mas também na residência de férias dos papas, em Castelgandolfo. Foto: Direitos reservados.

 

Pio XII salvou por iniciativa própria cerca de 15 mil judeus. O Papa soube cedo do Holocausto e informou sobre isso os Estados Unidos em 1942, mas aparentemente ninguém deu grande importância à informação. É essa, pelo menos, a convicção do historiador alemão Michael Feldkamp, depois de ter estudado os arquivos do Vaticano desse período, uma vez abertos à consulta pública, por decisão do Papa Francisco, em março de 2020.

Eugenio Pacelli, nome do futuro Pio XII, que tinha sido núncio na Alemanha desde o final da segunda década até final da seguinte, no século XX, e, depois secretário de Estado do Vaticano com o Papa Pio XI, viria a suceder-lhe em 1939, ano do início da II Guerra Mundial, até à sua morte em 1958. Como Papa, procurou manter uma posição de “imparcialidade” (que ele distinguia de neutralidade), relativamente às partes em conflito. Vários setores e até episcopados o acusaram de tibieza perante a política hitleriana, mesmo quando, com a invasão da Polónia, milhares de padres foram assassinados.

A verdade é que se gerou na opinião pública a perceção de que Pio XII fora um Papa distante do sofrimento e das políticas genocidas e de extermínio dos judeus. Em diferentes momentos e por diferentes fontes se foi sabendo de gestos privados de Pacelli para esconder e alimentar grupos de judeus. Mas faltava o acesso às fontes documentais, que se mantinham secretas.

Michael FeldKamp, arquivista-chefe do Bundestag (Parlamento alemão), que há anos se dedica a estudar a figura de Pio XII, entregou-se à análise de pastas com milhares de documentos, tendo concluído que foi bastante cedo que o Papa soube da existência dos campos de extermínio e que, em março de 1942, fez chegar a Franklin Roosevelt, o Presidente dos Estados Unidos da América, uma mensagem sobre o assunto, a qual não terá sido considerada verosímil.

Acima de tudo, os dados permitiram ao historiador calcular em cerca de 15 mil os judeus que Pio XII salvou, sensibilizando o clero para disponibilizar mosteiros, residências e claustros para esconder as pessoas. Não apenas em Roma, mas mesmo na residência de férias dos papas, em Castelgandolfo.

“Agora podemos corrigir muitas vagas suposições ou até mesmo acusações” contra o Papa e o seu suposto “silêncio”, comentou Feldkamp, em declarações ao Vatican News.

“O problema do silêncio mantém-se, certamente. Todavia, já se pode considerar razoável, tendo em conta que escondeu as pessoas. Nesse tempo, não pôde atrair mais as atenções, promovendo protestos o escrevendo notas de condenação”, acrescentou.

 

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