Em memória das "dez mulheres de Shiraz"

Bahá’ís plantam árvores em Lisboa, para que a liberdade religiosa floresça em todo o mundo

| 12 Abr 2024

Plantação de dez árvores em memória das dez mulheres de Shiraz. Uma iniciativa da Junta de Freguesia de Olivais em colaboração com a Comunidade Bahá'í de Portugal. Abril 2024. Foto Junta de Freguesia dos Olivais

A presidente e vice-presidente da Junta de Freguesia de Olivais regam uma das dez árvores plantadas em homenagem às “dez mulheres de Shiraz”. Foto © Junta de Freguesia de Olivais

 

Quem passar pela pequena zona ajardinada junto ao Centro Nacional Bahá’í, na freguesia lisboeta dos Olivais, vai encontrar dez árvores novas. São jacarandás e ciprestes, mas cada um deles tem nome de mulher e uma missão concreta: mostrar – tal como fizeram as mulheres que lhes deram nome – que a liberdade religiosa é um direito fundamental. Trata-se de uma iniciativa da Junta de Freguesia local, em parceria com a Comunidade Bahá’í, para homenagear as “dez mulheres de Shiraz”, executadas há 40 anos “por se recusarem a renunciar a uma fé que promove os princípios da igualdade de género, unidade, justiça e veracidade”. A inauguração do memorial será este sábado, 13 de abril, pelas 10 horas, e insere-se no âmbito da campanha global #OurStoryIsOne. Outros tributos estão previstos para breve.

As “dez mulheres de Shiraz” não eram tão jovens quanto estas árvores agora plantadas em Lisboa, mas quase. A mais velha – Ezzat Eshragi – tinha 56 anos, a mais nova – Mona Mahmoudnejad – apenas 17. Presas no Irão entre outubro e novembro de 1982, torturadas, viram ser-lhes negado o direito a um advogado e foi-lhes oferecida a oportunidade de salvarem as suas vidas convertendo-se ao Islão. Recusaram-se a renunciar à fé bahá’i e, a 18 de junho de 1983, foram levadas da prisão para a praça Chowgan, em Shiraz, onde as enforcaram, uma por uma. Dois dias antes, seis homens bahá’í tinham sido executados na mesma praça, alguns deles seus familiares. Ao todo, mais de 200 bahá’ís foram executados nos anos que se seguiram à revolução islâmica de 1979.

Recordar aquilo que aconteceu e homenagear estas mulheres “é muito importante, a vários níveis”, sublinha Marjan Jalali, portuguesa de origem persa que pertence à comunidade bahá’í e  integra a organização da iniciativa nos Olivais. “Por um lado, é bonito, poético, e até irónico o facto de que um ato que pretendia silenciar estas mulheres tenha resultado quatro décadas mais tarde numa onda incrível, num movimento a nível mundial de vozes, gestos, apresentações artísticas em homenagem a elas. Aquilo que elas fizeram aconteceu numa altura em que não havia os meios e tecnologias que existem atualmente para comunicar e podia ter passado despercebido, mas não… multiplicou-se”, explica, em entrevista ao 7MARGENS.

“Mas isto não é só uma homenagem – acrescenta – é também uma inspiração para uma luta que tem de continuar e que depende em parte de todos nós”. Marjan Jalali, 44 anos, professora associada da ISCTE Business School, lembra que continua a ser essencial “amplificar estas vozes e estes princípios pelos quais elas deram as suas vidas”. Assinalando que a minoria bahá’í continua a ser discriminada e perseguida no Irão [ver 7MARGENS] e que as mulheres continuam a ter de lutar para garantir um futuro com igualdade e liberdade naquele país (e não só), Marjan afirma: “Fizemos um longo caminho até aqui, mas há ainda um longo caminho para andar. Mesmo que as restrições não me afetem diretamente e eu tenha acesso a um determinado número de coisas, há muitos que não têm. E no Irão, em particular, assistimos a uma vaga de opressão muito forte que tem como alvo sobretudo mulheres e jovens”.

Assim se justifica também o nome da campanha global, #OurStoryIsOne (que em português significa “a nossa história é uma”). Para a comunidade bahá’í, que conta com cerca de seis milhões de crentes em todo o mundo – e em Portugal perto de dois mil, agrupados em 11 assembleias espirituais locais – a história destas mulheres diz respeito a todos nós. “A luta delas é é a nossa. É preciso reconhecermos esta linha que nos une a todos, este fio condutor”, conclui Marjan.

Ainda no âmbito da campanha, que se prolonga até junho deste ano, o Instituto Bahá’i de Portugal está já a preparar mais uma homenagem, desta vez em forma de peça teatral. Intitulada “Mona, o anjo de Shiráz”, a peça encenada por uma jovem da comunidade conta a história de Mona Mahmoudnejad, a mulher mais nova entre as dez que foram executadas.

Dizem os relatos de quem a conheceu na prisão que Mona tinha sempre a preocupação de receber bem as prisioneiras que chegavam e de as confortar a todas – fossem bahá’ís ou não. Era a mais jovem na prisão e a sua juventude e doçura tornavam-na querida por todas as prisioneiras, que a chamavam de “a pequena prisioneira”. O seu pai foi torturado e por fim executado, mas Mona manteve-se sempre firme na sua fé. Pediu para ser a última a ser executada para orar pelas suas companheiras, e beijou a corda antes de a colocarem à volta do seu pescoço.

A peça será apresentada no próximo dia 27 de abril, pelas 20h30, no Centro Nacional Bahá’í. A entrada é livre “e todos são bem-vindos”. Aqueles que forem poderão passar pelo pequeno jardim, espreitar se as novas árvores já deram algum fruto, e quem sabe regá-las mais um pouco.

Plantação de dez árvores em memória das dez mulheres de Shiraz. Uma iniciativa da Junta de Freguesia de Olivais em colaboração com a Comunidade Bahá'í de Portugal. Abril 2024. Foto Junta de Freguesia dos Olivais

Membros da Junta de Freguesia de Olivais e da Comunidade Bahá’í de Portugal, após a plantação das dez novas árvores. Foto © Junta de Freguesia dos Olivais

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