Imaginem só: a Associação Metanoia de Profissionais Católicos, que já leva boas décadas de atividade, reuniu a 7 de março em Alfragide, com Paulo Melo como coordenador, e gente que sabe que a vida não é só números. Entre exposições e debates dedicados à sobriedade e às cooperativas sociais, houve uma pergunta que ficou no ar, quase a rir de nós: afinal, vale mais a pena ser rico ou ser pobre? Pois é. A gente discute, ri-se e percebe que o tema é antigo como o mundo.
Desde sempre, a humanidade tem que lutar contra a pobreza. Antes, tratava-a como uma epidemia. Agora, os Objetivos do Milénio da ONU sonham alto: erradicar a pobreza de mil milhões de pessoas num planeta de oito mil milhões.
Mas atenção: pobreza, indigência e miséria não são a mesma coisa. A língua tem, pelo menos, três palavras para realidades diferentes. Pobreza é ter rendimentos apertados, como quem vive com o cinto no último buraco. Indigente é a quem falta comida, quem sente a fome a roer o estômago. Miserável é quem não tem casa, porque a guerra ou a vida lha tirou, quem dorme ao relento ou em sítios que nem um bicho quer. É uma escala económica: pouco dinheiro, falta de alimentos, falta de tecto. E “economia”, do grego oikos, significa casa. O miserável é o que vive fora da casa, fora da lei do mundo. Fora do mundo, ponto final.
Primeiro, o corpo sofre: sem médico, sem remédio, a dor é companheira diária e a vida encurta. Segundo, vive na violência sem a proteção que os mais abonados têm – as leis parecem feitas para quem já tem muro altos. Terceiro, falta-lhe educação, cultura, ciência. Sem saúde, sem defesa, sem horizonte, o miserável carrega ainda a vergonha, como nos Les Misérables A exclusão total, aquela que faz a gente baixar os olhos na rua. Por isso não basta dar uma sopa e um colchão, a famosa “caridadezinha”. É preciso dar perspetiva, um trabalho que faça sentido, um motivo para acordar.
Agora, é preciso ver as coisas noutra perspetiva. Friedrich Nietzsche, com aquele ar de quem ri por baixo do seu bigode, disse-nos que há uma grande diferença entre a era da sobrevivência, que está no passado, e a era da supervivência que deveria ser o futuro. Uma coisa é ser pobre na era da sobrevivência, quando ao corpo faltava tudo – calor, alimentos, tecto. Outra é ser pobre na era da supervivência, quando o corpo está alimentado, bem-vestido, protegido, mas a pessoa anda vazia de sentido. Então surgem os pobres sem significado para a vida, os indigentes sem propósito, e os miseráveis que estão fora de tudo, e que se tornam também perversos e criminosos.
E aqui reentra a política, economia, a sociedade. Vivemos orgulhosos das nossas democracias, mas se olharmos os números, habitamos por entre as oligarquias mais ferozes da história. A miséria material toca milhões; a riqueza é dos 0,1%. A maioria vive fora da economia, ou seja, fora do mundo. E o mundo continua a girar assim, como se fosse normal. Os média falam de celebridades, vedetas, e campeões como se fossem heróis. Normalmente são indigentes. Não se está a pedir que o Cristiano Ronaldo comece a falar de Aristóteles ou de Darwin. Mas fica-se muito preocupado que a RTP2 só tenha uma audiência média de 15 mil espectadores num universo de dez milhões. (As TV´s generalistas têm cerca de 300 mil cada). Mostra um país pobre.
Outro exemplo. Se morre um americano na guerra do Irão, é tragédia mediática. Se morrem quase centenas de crianças iranianas, é engano e estatística. Nem as mortes são iguais, continuamos a lei da selva por outros meios. Darwin admitiu que o ser humano só se tornou humano, quando trocou a sobrevivência do mais forte pela generosidade. “Humanidade” tem dois sentidos: ser humano e ser bom. Só somos humanos de verdade quando também cuidamos dos fracos, abandonados, derrotados e miseráveis.
Por isso, fica a ideia de que a miséria destrói a humanidade, mas a sobriedade pode salvá-lo. A miséria é o maior azar, a sobriedade é uma virtude. Votos de pobreza que gente sábia abraçou. Olhem os balanços: se o mundo inteiro vivesse no modelo dos ricos, o planeta entrava em colapso amanhã. Não aguentava. Se queremos democracia, temos de partilhar. Não é castigo, é convite: aceitar condutas de pobreza, viver com menos para que todos caibam.
Os miseráveis não são só os que dormem ao relento. Podemos colocar nessa categoria o atual governo norte-americano, e todos os ditadores do planeta. Os dirigentes europeus entram mais na categoria de indigentes de futuro, e os líderes do resto do mundo ficam-se pela pobreza de objetivos. E quanto ao jet-set, jatos privados, condomínios, contas bancárias gordas, NFT’s: nenhum exemplo de rumo, alegria genuína, ou faísca que faz a vida valer. São ricos de bolso e indigentes de coração. Miseráveis de espírito. Também estão fora do mundo, mesmo que sentados no topo dele, conforme a mensagem pequeno-burguesa de Frank Sinatra.
Por isso, a crónica fecha assim: talvez a salvação não esteja em acumular, mas em escolher. A sobriedade como estilo de vida, não como castigo. O espírito de pobreza, esse sim, pode ser o fundamento da moral. Parece que esse é o grande tema dos Evangelhos. Quem sabe? Quem ouve isto sorri, bebe mais um café e pensa: afinal, ser pobre pode ser o luxo mais caro e mais bonito que existe. E os verdadeiros ricos? São aqueles que perceberam isso a tempo.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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