Pobreza, vergonha de todos nós

| 3 Ago 20

Cerca de 21,6 % da população que vive em Portugal, mais de uma em cada cinco pessoas, segundo dados do INE, vive uma situação de pobreza ou exclusão social. Mesmo as pessoas com emprego podem também ser consideradas pobres ou em risco de pobreza, se o seu ordenado não ultrapassar os 500 euros mensais. Se a degradada situação social do país já era um problema grave, com a chegada da covid-19, esta chaga social ainda mais se dilatou.

As razões desta grave situação são bem conhecidas. O elevado aumento de desemprego, causado pela pandemia, tem gerado um volume de desempregados, em quase todos os setores da nossa vida económica, apesar de alguns apoios do Governo. São famílias inteiras desempregadas, pelas mais diversas razões, relacionadas sobretudo com a pandemia que colocou a economia em cuidados intensivos.

Lembremos ainda a situação periclitante relativa aos jovens que têm entrado no mercado do trabalho, muitas vezes obrigados a aceitar condições indignas de um ser humano, sem contratos de trabalho ou contratos que não respeitam as leis vigentes do país. Por tudo isto, a pobreza ou a exclusão social, neste momento, devido ao elevado desemprego, atinge uma situação alarmante, com 58,4% da população em risco de pobreza, se a economia não arrancar nos próximos tempos. Certamente, com a preciosa e indispensável ajuda da União Europeia, que já acenou com a promessa de alguns milhões de euros.

Lembremos ainda a chegada de emigrantes, oriundos de várias partes do mundo. Nomeadamente, do Médio Oriente, sírios e libaneses. Do norte de África, sobretudo de Marrocos, e ainda da Ásia. Quase todos eles a viverem em péssimas instalações, no limiar da miséria. Como nos mostram as reportagens da comunicação social, encontram-se espalhados pelo país, mas sobretudo, nas obras da construção civil, em fábricas e na agricultura, sobretudo no Alentejo e no Algarve. Aceitando qualquer salário, vendem a sua força de trabalho por ordenados de miséria e em condições indignas, próximas da escravatura.

Note-se que mesmo as pessoas empregadas podem também pertencer à categoria dos pobres, desde que tenham alguns filhos ou familiares a seu cargo. Já não falando dos divórcios que, por vezes, deixam as pessoas numa degradada situação económica. Como uma recente reportagem da televisão mostrou, muitos destes casos acabam por levar algumas mulheres e mães a uma situação de prostituição forçada, para darem alimento e cuidados aos seus filhos. Junte-se a estes casos dolorosos o elevado número de crianças e jovens em risco de pobreza, a atingirem um quinto da população mais jovem.

O que hoje é novo na nossa situação de pobreza é a falta de autonomia económica e o elevado número de novos casos no país. Quem não ouviu já referir na comunicação social que mesmo pessoas da classe média e, por vezes alta, se encontram a receber apoios do Banco Alimentar, à procura do pão nosso de cada dia para quem, de um momento para o outro, tudo faltou, pelas mais diversas razões das suas vidas?

Perante esta nova e preocupante realidade, temos de olhar para este novo tipo de pobreza, que faz com que haja pessoas a passar momentos muito difíceis e sem saídas à vista, sobretudo nas grandes cidades.

Segundo o cardeal Tolentino, no genial discurso proferido no Dia de Portugal e das Comunidades, “ninguém pode ser deixado para trás”, numa altura em que o país vegeta, com pedintes de todos os setores da sociedade civil, procurando ajuda do Estado para as suas empresas, as hoje hibernadas pequenas e médias.

Face a esta situação, um recente documento enviado ao Governo, por um conjunto de individualidades da nossa sociedade, pedia que “este inscreva o combate à pobreza, como a primeira prioridade do país”. Este problema, nesta altura complexa e de tamanha desolação, remata o texto, “deve ser a prioridade das prioridades”.

O mesmo documento referia ainda que, “segundo os dados da OCDE, Portugal é dos países desenvolvidos onde é mais difícil sair da pobreza ou, do outro lado, deixar de ser rico”.

Este pertinente documento pedia ainda que o Governo garanta uma política social e solidária com uma ação multidisciplinar e integrada junto das famílias pobres, combatendo os problemas estruturais do país. Só assim, a pobreza e o escândalo da miséria poderão deixar de ser a vergonha de nós todos.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

 

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