Numa destas noites em que assistia, já ensonada, ao que mais parecia ser um reality show sobre o que tinham dito e feito nesse dia os candidatos à Presidência da República de Portugal, arregalei os olhos quando André Ventura se apropriou orgulhosamente do lema fascista “Deus, Pátria, Família”, acrescentando-lhe uma palavrinha apenas: “Trabalho”. Vindo dele, talvez nem fosse já caso para arregalar os olhos… era só mais do mesmo. Mas naquele momento dei por mim a recordar a manhã de 6 de novembro de 2024, em que liguei o televisor e tive de esfregar os olhos para confirmar que estava mesmo acordada e a ver bem: Donald Trump havia sido eleito Presidente dos EUA. Pela segunda vez.
E recordei também como me entristeceu (ou, confesso, enraiveceu) ouvir aquele homem narcisista, autoritário e xenófobo a encher a boca para falar de Deus no seu discurso de vitória. “Deus poupou a minha vida por uma razão. E essa razão foi salvar o nosso país e restaurar a grandeza da América. (…) Deus vos abençoe e Deus abençoe a América”, disse então Trump, referindo-se ao momento em que, durante a campanha eleitoral, havia sido atingido por um tiro na orelha, numa aparente tentativa de assassinato.
A verdade é que, segundo estudos divulgados nos dias seguintes, seis em cada dez cristãos norte-americanos votaram nele para Presidente dos EUA. Entre os católicos, a percentagem atingiu os 54%, e nos evangélicos terá chegado aos 60%. Os mesmos estudos indicavam que, sem ter sido decisivo, o fator religioso tinha sido “relevante” para levar o candidato republicano de volta à Casa Branca. De resto, uma das imagens mais marcantes da campanha eleitoral de Trump fora precisamente a de que havia sido “escolhido” por Deus para a “missão” de liderar o país. E não apenas cristãos, como também muitos judeus ortodoxos, o viam como tal.
Mas voltando àquela manhã de 6 de novembro: estava eu ainda presa ao ecrã, a tentar processar como fora possível a reeleição de Trump, quando tocaram à porta. Era o carteiro e trazia o recém-lançado livro do padre e teólogo checo Tomáš Halík, com quem eu tinha agendada uma entrevista para dali a dias. Lembro-me de olhar para o seu título – O Sonho de uma Nova Manhã – e de pensar que, coincidência ou não, expressava precisamente aquilo que eu desejava naquele momento. Lê-lo nos dias seguintes devolveu-me alguma esperança no mundo que estava para vir. E no cristianismo.

O livro O Sonho de uma Nova Manhã chegou-me às mãos pouco depois de Trump ter sido reeleito. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Esta semana, nas vésperas das eleições que muitos descrevem como “as mais imprevisíveis de sempre”, mas com as sondagens a manterem-se firmes ao apontar que André Ventura (que, tal como Trump, diz que foi “enviado por Deus” para salvar o seu país) será um dos dois candidatos a obter mais votos e passar à segunda volta, senti necessidade de o reler.
Nesta obra, em que dialoga com um Papa imaginário sobre a verdadeira identidade do Cristianismo, Halík escreve: “Hoje, precisamos de uma fé madura – uma fé para o mundo de Herodes e Pilatos, onde Jesus nasceu, uma fé para um mundo de Putins e de assassinos em massa que vagueiam pelas ruas das nossas cidades”. E essa fé não pode tornar-se “nem um ópio calmante, nem nostalgia do passado, nem ideologia”.
É que a fé cristã está “indissociavelmente ligada ao amor e à esperança”, prossegue o teólogo católico checo, mas esta esperança “não é apenas otimismo, uma ilusão de que em breve tudo acabará bem”, e sim “uma força de fidelidade e de perseverança nos momentos de provação”. Até porque a história que começou em Belém “está – apesar de todos os Herodes, apesar de todos os assassinos – ainda aberta”, assinala Tomáš Halík, para concluir que “continuamos a poder entrar através dela e, apesar de tudo, ainda nos podemos levantar novamente e continuar o caminho”.
Quer isto dizer que a fé – que se exprime em rituais, cerimónias, orações, ou nos mais diversos tipos de arte… – também se exprime em ações concretas fora das paredes de um templo. Arrisco mesmo a escrever que se exprime sobretudo através delas. E em alguns momentos, agir é um imperativo dessa fé, como manifestaram recentemente os bispos da Igreja Episcopal dos EUA. Face à politica de perseguição e deportação de imigrantes da Administração Trump, que culminou na morte a tiro de uma jovem cidadã dos Estados Unidos da América por agentes federais da imigração na última semana, já “não bastam as palavras; chegou a hora do testemunho na ação”, disseram eles, assumindo que isso pode até implicar dar a própria vida. As palavras do bispo Robert Hirschfeld, de New Hampshire, aos clérigos da sua diocese não deixam margem para dúvidas: “Pedi-lhes que colocassem os seus assuntos em ordem e se certificassem de que tinham os seus testamentos escritos, porque pode ser que agora já não seja o momento para declarações, mas sim para nós, com os nossos corpos, ficarmos entre os poderes deste mundo e os mais vulneráveis”.
Pergunto-me que cristãos terão sido aqueles que votaram em Trump, apesar de este desfecho de ataque aos mais vulneráveis ter sido mais do que anunciado pelo próprio e ser completamente anti-cristão. Cristãos ingénuos a quem bastou vê-lo a pavonear-se de Bíblia em punho para acreditarem que também ele era cristão? Cristãos que não foram capazes de enxergar para além do seu “não” ao aborto e da sua suposta defesa acérrima da liberdade religiosa? Cristãos que acreditaram no milagre do desvio da bala e viram nele uma espécie de messias? Ou não tão cristãos assim?
Por aqui, sei de quem se diga cristão e vá votar em André Ventura. Sei de quem se diga cristão e não faça sequer intenções de votar no próximo domingo.
Num comunicado após a reunião do seu Conselho Permanente, que decorreu na passada terça-feira, 13 de janeiro, a Conferência Episcopal Portuguesa sublinhou que “exercer o direito de voto é uma expressão concreta do serviço ao bem comum, de corresponsabilidade na construção da sociedade e um sinal de respeito pela democracia”. Os bispos insistiram na importância da ida às urnas, “mesmo quando existem discordâncias em relação às opções apresentadas” pelos candidatos a Belém. Mas perante a ameaça de que um cenário semelhante ao dos EUA venha a ser replicado em Portugal, os líderes católicos podiam (deviam?) ter ido mais longe e alertado para a importância de não entregar esse voto a quem ostensivamente vai contra os valores do Evangelho e a Doutrina Social da Igreja.
A declaração dos bispos católicos da Irlanda, que antecedeu as eleições gerais naquele país em 2024, é um bom exemplo do contributo que é possível dar para um voto mais esclarecido… e mais cristão. Os prelados irlandeses prepararam uma série de perguntas que os fiéis poderiam colocar aos diferentes candidatos, entre elas: “Está preparado para apoiar um sistema justo e mais célere para o processamento de pedidos de asilo? Irá opor-se publicamente a todas as formas de racismo, incluindo o racismo nas redes sociais?”. Ou ainda: “Qual é a sua posição sobre o fim imediato da guerra em Gaza e no Médio Oriente? Apoiará a promulgação do Projeto de Lei dos Territórios Ocupados de 2018, que visa proibir e criminalizar o comércio e o apoio económico a assentamentos ilegais em territórios considerados ocupados pelo direito internacional?”.
Já na Alemanha, antecedendo as eleições federais de fevereiro do ano passado e perante a progressiva ascensão do nacionalismo étnico e do extremismo de direita no país, os bispos católicos reuniram-se e aprovaram por unanimidade uma declaração que não podia ser mais clara: “Partidos extremistas de direita e aqueles que proliferam à margem dessa ideologia não podem ser um espaço de atividade política para cristãos e também não são elegíveis”. E foram ainda mais longe, fazendo uma referência explícita ao partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), afirmando que as crenças daquele partido eram “incompatíveis com a imagem cristã de Deus e da humanidade”. De referir que, entre as prioridades da AfD, estava a expulsão de milhões de imigrantes do país. E que um dos seus líderes quis recuperar o slogan nazi “Tudo pela Alemanha!” (qualquer semelhança com o que fez Ventura esta semana não será pura coincidência).
Se as declarações dos bispos surtiram efeito? Aparentemente sim: de acordo com estudos citados pelo National Catholic Register, os melhores resultados da AfD foram na antiga Alemanha Oriental, região com a menor população católica do país. E nessa região, foi nas áreas com maior concentração de católicos que a AfD teve menos votos. Os mesmos estudos indicaram que os católicos que frequentam a missa regularmente são menos propensos a votar na AfD.
Não seria mau que, em Portugal, tal como nos EUA, o fator religioso fosse relevante na escolha do novo Presidente. Mas só se aqui o voto dos cristãos – e já agora dos judeus, muçulmanos, bahá’ís, budistas ou outros – fosse coerente com aquilo que a sua religião defende. Porque todas elas, sem exceção, proclamam o amor, a tolerância, a justiça, a paz. E reconhecem que, antes de professarmos uma religião, somos humanos, responsáveis uns pelos outros, e pela casa comum em que habitamos.
Votemos, então. E que o nosso voto seja também expressão da nossa fé.










