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[À Margem]

Pode haver paz na Palestina (e em Israel) à revelia dos palestinianos?

| 13/02/2026

As informações mais recentes sobre a situação em Gaza, regularmente difundidas pelas Nações Unidas, falam por si: entre 30 de janeiro e 5 de fevereiro, “os relatos de ataques aéreos, bombardeamentos e tiroteios continuaram em toda a Faixa de Gaza, tendo sido registado um aumento do número de ataques e mortes, em comparação com as semanas anteriores”.

Os ataques resultaram, segundo a mesma fonte, em 82 palestinianos mortos, incluindo crianças e um profissional de saúde, e 162 feridos. O número total de vítimas desde a entrada em vigor do atual cessar-fogo, em 10 de outubro passado, elevou-se para 574 mortos e 1.518 feridos.

Mas há que perguntar… desde o cessar-fogo? Como pode haver bombardeamentos e um tão grande número de mortos e de feridos se a guerra foi suspensa? Pois! É que não foi suspensa. Passou para um patamar que alguns designam de “baixa intensidade”.

Mas… pelas regras acordadas para a primeira fase do cessar-fogo, as forças armadas israelitas não teriam de recuar para uma dita linha amarela que, ainda assim, lhe dava o controlo de mais de 50 por cento da minúscula Faixa de Gaza? Certo. Mas isso é, como se pode ver, no papel.

 

2.

Desde que entrou em vigor o cessar-fogo, registou-se um crescente silêncio mediático em torno da situação e destino da Palestina. As movimentações que encheram as ruas de cidades, um pouco por todo o mundo, ao longo de boa parte de 2025, para exigir o fim do genocídio do povo palestiniano, esmoreceram. A máquina de propaganda de Trump fez crer que ele havia cometido um feito histórico, que culminará numa reconstrução que trará a felicidade e a paz à região.

É certo que a redução da intensidade do conflito e o alívio trazido pela chegada (controlada) de alguma ajuda alimentar e medicamentosa reduziram as ameaças à vida da população palestiniana e isso é bom – e seria excelente se fosse o ponto de arranque para o estabelecimento de uma paz justa. No entanto, meteu-se um inverno especialmente rigoroso (também lá), que apanhou a esmagadora maioria das famílias com as casas destruídas e a terem de abrigar-se em condições de grande precariedade, incluindo sob os escombros dos prédios bombardeados.

Com infraestruturas de saúde em grande parte arrasadas e boa parte da população a carecer de cuidados de saúde, as agências humanitárias desempenham um papel essencial. Mas também aqui o controlo que as autoridades israelitas estão a fazer sobre elas obrigou quase quatro dezenas, entre as quais algumas das mais importantes, como a OXFAM, a Caritas Internacional, a Action Aid e os Médicos Sem Fronteiras, a abandonar a Faixa de Gaza a partir do início deste ano.

© UNOCHA Um menino caminha perto de tendas em Jabalya, no norte de Gaza.

“Meteu-se um inverno especialmente rigoroso (também lá), que apanhou a esmagadora maioria das famílias com as casas destruídas.” Fot © UNOCHA

3.

O chamado plano de paz de Donald Trump permitiu até agora duas coisas. Uma foi a troca dos reféns israelitas em poder do Hamas por prisioneiros palestinianos, o que é em si mesmo positivo, mas resolveu, sobretudo, um problema vital de Israel, que mantinha o governo de Netanyahu sob forte pressão. A outra foi o apagamento das imagens terríveis da destruição de pessoas e bens em Gaza nos ecrãs televisivos e nas plataformas digitais. Eram essas imagens e histórias dramáticas que alimentavam a contestação internacional da política genocida de Telavive. E, no entanto, na Gaza real, que todos vimos ser aniquilada, essa realidade não mudou. Mantém-se em lume brando.

Trump fez, entretanto, deslocar as atenções da opinião pública internacional de Gaza para Washington ou para Davos, onde pôde montar a sua própria encenação do futuro que sonha para a Faixa de Gaza ocupada, nomeadamente do Conselho de Paz que ele lidera “a título vitalício”, em que se entra por convite e que, nas suas palavras, “incluirá os líderes mais poderosos e respeitados do mundo” (além de recusas de líderes como Espanha, França, Reino Unido). Mas aquilo que foi apresentado no Conselho de Segurança da ONU como uma iniciativa para Gaza, já ganhou, em declarações posteriores de Trump, um horizonte mais vasto, a ponto de estar a ser sugerido que o presidente americano pretende criar uma espécie de ONU privada, que sirva os interesses dos EUA.

A verdade é que nem os palestinianos foram consultados nem os protagonistas deste Conselho, entre os quais estão investidores imobiliários norte-americanos e israelitas, aludem ao papel que é suposto os palestinianos terem na decisão do futuro da terra que é a sua. Ao escutar as intervenções no evento constitutivo do Conselho de Paz, na Cimeira de Davos, todos referiam desejar dar aos palestinianos (a “essas pessoas”, no dizer de Jared Kushner, genro de Trump) a capacidade de “prosperar e ter uma vida boa”, mas sem especificar nem qual nem como.

 

4.

No silenciamento de que os palestinianos foram objeto, desde o início do cessar-fogo, os grandes meios de comunicação têm uma responsabilidade incontornável. Não podem alinhar nas estratégias comunicacionais dos novos candidatos a colonos da Palestina (ou da Venezuela ou, eventualmente, da Gronelândia, do Canadá ou do México) sem fazer as perguntas que lhes competem – sob risco de não passarem de mais um braço daquelas estratégias.

O Tribunal Internacional de Justiça declarou ilegal a ocupação, por Israel, de Gaza, da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental – “o pouco que resta da Palestina”, como costuma sublinhar a advogada e relatora da ONU Francesca Albanese, que se encontra sob sanções de Trump e ameaçada pelo governo da França. Grande parte da comunidade internacional reconhece o direito dos palestinianos a constituírem um Estado independente. É verdade que o direito internacional anda pelas ruas da amargura, mas é precisamente por isso que é necessário defendê-lo e lutar pelo seu reconhecimento e aplicação.

A luta que os palestinianos vêm travando há tantas décadas contra um regime colonial violento e cruel – que tem espezinhado a sua história e identidade e esmagado o seu direito à terra, ao teto e ao pão – revelou a força das suas raízes na luta desigual que se agudizou com os gravíssimos ataques e mortandade do Hamas em 7 de outubro de 2023.

Não é de crer que esse espírito de sobrevivência e esse desejo de reconhecimento se dissipe com projetos megalómanos que se pautam mais por interesses económicos e politico-ideológicos do que pela dignidade, liberdade e justiça social.

E cabe citar aqui o Papa Paulo VI que, no longínquo ano de 1972, citava o profeta Isaías: “A Paz será obra da Justiça” (cf. Is. 32, 17). E acrescentava: “repetimo-lo hoje com uma fórmula mais incisiva e dinâmica: ‘se queres a Paz, trabalha pela Justiça’”.

Aqui está um critério para discernir aquilo que se está a montar perante o mundo como a imposição de um processo de paz, vendido como ‘acontecimento histórico’ (Trump dixit). Será ele mais do que uma manobra enganadora ao serviço de poderes hegemónicos, coligados com grandes interesses económicos? Oxalá seja.

 

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