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| 25/08/2020

As férias costumam servir para muita coisa. Para refletir, passear, conviver, partilhar, encontrar os que raramente se veem… Também para nos inteirarmos da vida com a liberdade de quem não tem de cumprir horários, de quem não tem de se responsabilizar por nada muito em especial, para além do ser de si e do deixar-se ser com cada outro.

Ainda assim, sobretudo num ano em que tudo é diferente, chega a fazer falta recuperar alguns prazos perdidos, finalizar alguns projetos frequentemente adiados e até planificar o que, a seguir ao descanso, irá acontecer.

A consciência dos três tempos do nosso tempo de que gosto de falar, responsabiliza-nos por aprender com o passado, para que ele, por deixar de ser pensado em excesso, não se transforme em depressão; aprender com o presente, para que ele, por deixar de ser vivido em turbilhão, não se transforme em stresse; e aprender com o futuro, para que ele, por também deixar de ser sentido como uma violenta catadupa de ameaças, não se transforme em ansiedade.

É, aliás, recomendado que, quando se pára merecidamente nesta época do ano, se deixem as coisas orientadas para que o regresso ao trabalho não seja uma queda brutalmente avassaladora e, em breve, se diga qualquer coisa como – estou agora mais cansada do que há um mês e a precisar de ter novamente férias.

Mas, enfim, aproveitando estes dias diferentes para fazer algumas coisas visivelmente úteis, dei-me conta, de uma forma inegável, daquilo que já sabia, mas usualmente não valorizava – quase minuto a minuto estão a entrar notícias que o são e outras que apenas servem para preencher ecrãs e que representam somente coisa nenhuma. Fiquei a saber que existiam uma série de personagens que me eram absolutamente estranhas. Vou, naturalmente, usar nomes fictícios: a Maria que decidiu chamar Alberto ao cão; o João que tem um gato sem medo da água; a Felismina que toma banhos de espuma para relaxar; a Micaela que fez a dieta milagrosa; o X que comprou uma casa no campo; o Y que arrendou uma casa na praia e costuma abrir as janelas pelas 11h da manhã…

O A, B, C, D, E, … que gostava muito de ser famoso e que bem tenta, nas redes sociais, mas, afinal, não consegue nada a não ser impressionar-se com aquilo que não impressiona ninguém – ’bora aí aparecer a rir, mostrar paisagens magníficas, fazer descrições de degustações nos restaurantes com estrelas deste país…

A verdade é que ler ou apenas ver tudo isto acaba por se traduzir em tempo e tempo, como sabemos, é o principal sinónimo de vida. Estamos sempre a ser interrompidos pelas notícias que o não são, mas enchem colunas; pelos episódios de vida alheia que é como se fossem importantes, mas também não interessam nada; pelos factos transformados em circunstâncias aparentemente relevantes, mas sem qualquer significado.

Tudo isto representa o mundo em que vivemos. Quando estamos muito ocupados até podemos não dar por ele, mas, se temos um pouco mais de descontração, percebemo-nos submersos e atafulhados de coisa nenhuma.

Este Verão tomei uma decisão – acabar com as notificações das notícias. Basta saber o que se passa à nossa volta uma vez por dia; acabar com as sucessivas intrusões por causa da casa, do gato, do banho de espuma ou da milagrosa dieta. Não preciso de ter acesso à vida privada de gente desconhecida; dedicar-me de forma inteira a cada coisa que estou a fazer, pois, desse modo, sairá bem feita, com muito mais probabilidade. É só útil, nos tempos que correm, aprendermos a estar bem onde realmente nos encontramos; concentrar-me com serenidade, como forma de testemunho. Afinal a tendência para a dispersão e quadros diagnósticos que, a partir dela, podem desencadear-se, está cada vez mais disseminada e só conduz ao sofrimento de quem quer aprender, não conseguindo, muitas vezes, fazê-lo por défice de atenção instalado.

Parece que o nosso mundo é assim, mas, por enquanto, ainda somos livres. Podemos fazer as nossas escolhas e os nossos apelos – há tanta coisa interessante para descobrir e pensar, que, na verdade, nos revela que não faz falta estarmos sempre conectados. Também precisamos de elogiar o bom jornalismo, aquele que, sem se deixar influenciar pelas galerias desfilantes, vulgo redes sociais, não inventa factos, mas reflete os que o são para nos ajudar a caminhar bem enquanto por cá andarmos.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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