Podemos celebrar a vida comendo uma lichia?

| 11 Mai 2021

“A vida autêntica ocorre quando fazemos de cada caminho, um tempo de exploração da vida ao nosso redor.” Foto © Miguel Panão

 

Na segunda semana de Maio que a Igreja Católica dedica à vida, que tempo dedicamos nós a viver? A vida sente-se quando existem mudanças. A mudança é a base transformativa da vida. Por exemplo, quando nasce um bebé, o seu ambiente muda radicalmente. Por isso, respirar o ar exterior ao ventre materno pela primeira vez é uma das experiências mais transformativas na vida de cada um de nós. Uma experiência transformativa que se distingue de todas as outras por ser impossível prever o impacte que uma determinada mudança produzirá em nós. Penso, por exemplo, no atum.

Sempre gostei de atum. Aliás, a minha mãe sabe bem a razão do desaparecimento das latas de atum lá em casa. Com a ousadia típica do jovem, comia, por vezes, uma lata de atum ao lanche porque adorava o sabor. Quando uma vez fui em missão para Cabo Verde com mais um sacerdote da Comunidade Emanuel, fomos acolhidos por uma família cabo-verdiana que nos ofereceu um peixe. Não conhecia aquela textura, mas ao provar disse: “Olha! Sabe a atum!” – percebem o ridículo, certo? É que, para mim, jovem urbano, nunca me ocorreu que o atum da lata provém do peixe. Logo, aquele peixe não “sabia” a atum porque “era” atum!

Apesar de pequena, para mim, aquela foi uma experiência transformativa que abriu o meu horizonte para além dos costumes urbanos, e despertou a minha curiosidade para saber mais sobre a origem das diversas coisas que fazem parte da vida quotidiana. Portanto, existem experiências transformativas pequenas (como a do atum) e grandes (como respirar ar ao nascer), mas o que dá carácter transformativo às nossas experiências?

Todas as pessoas sabem o que é um pai ou uma mãe, mas só quando tiverem um filho nos braços ou acolherem alguém em sua casa para cuidarem como um filho, é que passam a saber, realmente, o que é ser pai ou mãe. Existem escolhas na vida que se fazem uma vez, e não é possível voltar atrás. Essas escolhas geram as experiências que podem mudar, radicalmente, a nossa vida e, por isso, são transformativas. Na Semana da Vida procuramos celebrar esta realidade em todas as suas facetas, mas fico a pensar se a melhor forma de celebrar não seria com experiências transformativas pequenas ou grandes. Por exemplo, já comeste uma lichia?

A lichia é um fruto tropical popular na China que podemos experimentar nos restaurantes chineses. Mas como está, usualmente, envolta em calda doce, que sabor tem, realmente, este fruto? Até que o comamos, não saberemos a que sabe. Mesmo que te digam ser doce, capaz de ajudar a gerir a pressão arterial ou na digestão, ou ainda ajudar melhorar a circulação sanguínea, a experiência de a comer é insubstituível. Por isso, as experiências transformativas são insubstituíveis e não precisamos de ir para o outro lado do mundo para as fazer.

A vida autêntica ocorre quando fazemos de cada caminho, um tempo de exploração da vida ao nosso redor. Agora que gradualmente nos desconfinamos, fico perplexo ao perceber que uma boa parte das pessoas prefere estar numa fila interminável para consumir na Primark, do que viver o tempo desconfinado que lhe é dado, fazendo um trajecto diferente nos arredores do lugar onde vive. A vida celebra-se explorando o que desconhecemos.

Num sábado de sol resolvi fazer uma caminhada por um trajecto habitual numa floresta, mas, sendo uma zona de caça, e vendo um carro no meio da estrada de terra batida, resolvi voltar para trás. Chegando a uma encruzilhada podia voltar para casa (esquerda) ou explorar um outro caminho que desconhecia (direita). Superei o desconforto da incerteza e segui pela direita. Chegando a uma outra encruzilhada podia ir para a esquerda onde a estrada era larga e usada, ou pela direita que me aproximava da floresta. Superei, de novo, o desconforto da incerteza e segui pela direita. Pé ante pé, e observando tudo à minha volta com serenidade, notei um grupo de abelhas que recolhiam o pólen em flores cujo nome desconheço. Quanta vida existe ao nosso redor, que não precisa de roupa nova, quando lhe prestamos a nossa total atenção.

Podemos realizar muitas manifestações pela vida, fazer webinars, Zooms, ou Lives no YouTube, e achar que essa é a melhor forma de celebrar a semana da vida, mas será mais vida digital, realmente, viver?

Tens um mundo imenso e inexplorado (por ti) ao teu redor. É desconfortável, incerto e cheio de coisas que desconheces, mas será essa falta de informação, que nos impede de prever o que pode acontecer, que faz de cada passo uma experiência transformativa que nos leva a celebrar a vida, vivendo intensamente. Fica o convite.

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra; para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos.

 

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