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autores-antonio caseiro marques

Poder e responsabilidade da Comunicação Social

 

1.  Passei o último ano a falar sobre a liberdade e a democracia e dos riscos que ambas correm, colocados que estamos, quer a nível mundial quer mesmo a nível europeu e, até certo ponto, igualmente, em Portugal, dado o panorama que várias alterações têm mostrado, como, por exemplo, a eleição de Trump e o aumento de regimes autocráticos. Junta-se a isto a ausência de vozes fortes, que arrastem e entusiasmem as pessoas contra essa deriva autocrática. Nuns casos, pela ausência de líderes credíveis na oposição, noutros por falta de força e por total amorfismo das populações atingidas. Acrescem os regimes ditatoriais, que perseguem quem se lhes oponha, ao mínimo sinal de contestação, como acontece na Rússia, na China e em muitos outros países. As oligarquias que governam muitos países conseguem controlar os respectivos povos, através de subsídios e colocando no governo os dirigentes ambiciosos e sedentos de poder, que os satisfaçam, desse modo controlando uns e outros ou seja, governantes e governados.

Estas minhas exposições surgem a propósito do livro que publiquei por ocasião do cinquentenário do 25 de Abril de 1974 e do PREC que se seguiu, durante o qual a democracia e a liberdade estiveram perto de serem postas em causa, principalmente por movimentos de extrema-esquerda. E neste momento os perigos provêm, principalmente, de movimentos de direita e de autocracias iliberais.

Tenho procurado chamar a atenção de todos, mas nomeadamente dos mais novos, para estes riscos. E apelo a que estejam atentos para evitarmos que voltemos a ficar debaixo de uma ditadura, seja ela de esquerda ou de direita, que prenda ou elimine quem se lhe oponha, ao menor gesto ou posição. Friso aos ouvintes que parem para pensar, apesar dos perigos que possam correr e que lutem contra o medo de exporem as suas opiniões.

Por outro lado, ponho também ênfase na importância da palavra, falada e principalmente na palavra escrita, que denuncie a violação de direitos e anuncie os caminhos mais rectos à luz dos conhecimentos de cada um e às orientações baseadas nos direitos fundamentais reconhecidos e aceites por uma maioria significativa da população mundial.

Com base nestes princípios digo claramente que reconheço a todas as forças políticas e a todas as pessoas, seja qual for a sua cor política, a sua ideia sobre os acontecimentos mundiais ou nacionais, o respeito pela liberdade de expressão, ainda que não estejam de acordo com aquilo que eu penso, exigindo apenas que também me respeitem e reconheçam iguais direitos. A conclusão normal a retirar daí é a que nos leva a um exercício contínuo de direitos de cidadania e de organização da sociedade que resulta de eleições livres e democráticas e à prática de acções concretas. Porém, nas sociedades democráticas, é fundamental que todos os actores respeitem as suas instituições, as suas regras de funcionamento e não coloquem em causa os seus fundamentos, de forma a evitar a corrosão das mesmas, sem prejuízo da defesa de mudanças quando estas sejam consensuais, de forma a evitar conflitos ou a sua desagregação e consequente destruição por dentro, actuando de forma anárquica e consciente, com o mero propósito de satisfazer parcelas, por vezes ínfimas, de certos sectores da sociedade ou conjunto de pessoas que se revêem nessas orientações.

2. Leio diariamente o jornal de informação religiosa 7MARGENS, desde o seu nascimento e tenho-o apoiado dentro das minhas possibilidades, sempre que para tal fui solicitado. Divulguei a existência deste jornal digital e incentivei muitos militantes de movimentos de leigos católicos e pessoas amigas, praticantes ou não. Escrevi vários textos de opinião, que a redacção tem aceitado publicar, sobre assuntos relacionados com a Igreja Católica e o funcionamento de algumas das suas instituições e respectivas práticas.

Cópia de mulheres religiosas alemanha ordenacao, Foto Direitos Reservados

Grupo de religiosas alemãs que defende que as mulheres devem poder celebrar eucaristias. Foto: Direitos Reservados.

Louvo a iniciativa de quem meteu pés ao caminho, as mãos na massa, para colocar este jornal de pé e de o manter, apesar das dificuldades evidentes que todos os jornais sentem, facto que eu conheço muito bem por experiência própria.

É com base naquilo que escrevi acima que me sinto à vontade para discordar da publicação, no dia 30 do mês de Junho, de uma entrevista com uma alegada bispa, que foi ordenada em Espanha, por outras bispas, alegadamente sagradas por um bispo que se manteve no anonimato, à revelia da hierarquia católica, clandestinamente.

Respeitando embora a liberdade de o 7MARGENS se fazer eco da dita sagração e de a divulgar de forma tão exuberante, não posso deixar de questionar a divulgação desse acontecimento. Ele nada traz de importante ou sequer disruptivo para a Igreja e certamente também nada de louvável para os diferentes intervenientes. Estes colocaram-se todos numa situação de excomunhão com a Igreja Católica. E fizeram-no, não tenho dúvidas, como gesto provocatório e de revolta pela lentidão das mudanças que se verificam dentro da Igreja e de desprezo por uma tradição milenar. Na entrevista, foi evidenciado o facto de a dita bispa ser casada com um padre católico, certamente suspenso do exercício das suas funções religiosas.

Embora concorde, em princípio, que a Igreja caminhe no sentido de permitir o casamento opcional de sacerdotes, a ordenação de mulheres e que um dia até possam ascender à condição de sucessoras dos apóstolos, não tenho dúvidas que tal vai demorar muito tempo. Assim, tudo isto não passa de um acto de afrontamento à hierarquia da Igreja a que dizem pertencer, correndo o risco de serem colocados numa situação de excomunhão, de nada lhes valendo tal gesto ou atitude. Pelo contrário, podem ter contribuído para atrasar qualquer processo de avanço naquele sentido. Haja em vista o que se passa na Igreja Anglicana, em que muitos dos seus sacerdotes têm vindo a requerer a sua entrada na comunhão católica em virtude de não estarem de acordo com a ordenação de mulheres como padres e bispos. Estaremos perante mais uma seita.

Finalmente, – é a minha opinião – o 7MARGENS, não prestou um bom serviço à Igreja Católica, podendo ter contribuído para criar uma ilusão em certas pessoas, também elas ávidas de deixarem de ser leigas e exercerem o seu apostolado nessa condição, antes ambicionando ascender a uma categoria dentro da Igreja, que lhes tem sido negada, por tradição, até agora. Certamente, algumas delas não por se sentirem com vocação para tal, mas apenas para cumprirem ou alcançarem um desiderato ideológico feminista, tão em moda nos tempos que correm. Não sei se a “paz”, em sentido lato, e o “bom senso” que o Sete Margens se propõe defender no seu estatuto editorial, não terão sido postos em causa, no que à Igreja Católica diz respeito.

 

António Caseiro Marques é advogado e dirigente da Acção Católica Rural.

 

NR: O 7MARGENS tem, em António Caseiro Marques, um valioso leitor, apoiante e colaborador desde a primeira hora; e agradecemos muito esse facto.

Não temos como objectivo prestar “serviço à Igreja Católica” nem a qualquer outra confissão religiosa ou instituição de qualquer índole, seja ele “bom” ou “mau”, porque não somos um jornal da Igreja Católica, mas uma publicação, feita com critérios profissionais, acerca do fenómeno religioso. Nesse sentido, noticiamos o que consideramos importante ou relevante, estejamos ou não de acordo com conteúdos, propostas, mensagens ou estratégias.

No caso concreto, independentemente de nos revermos ou não na estratégia dos grupos e pessoas que estão por detrás daquela decisão, achámos pertinente fazer a entrevista, pois ela corresponde a um tema que é muito debatido no interior da Igreja Católica.

 

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