AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Palavra aos católicos até 2024

Poder, mulheres, ecumenismo, moral e ministérios, os temas para aprofundar no Sínodo

O cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo, na conferência de imprensa final: “Uma Igreja que está criando espaço para todos.” Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Poder e estruturas de governo da Igreja; papel das mulheres; diálogo ecuménico; questões de moral individual; renovação da linguagem litúrgica e reconhecimento de mais ministérios – em síntese, estes são os tópicos que menos consenso oferecem e que têm de continuar a ser debatidos até Outubro de 2024, quando decorrer a segunda sessão da XVI assembleia geral do Sínodo dos Bispos (ver outro texto no 7MARGENS).

Entre os temas que mais debate têm provocado e que mais votos negativos receberam no Sínodo, a disciplina do celibato obrigatório é para profundar; a ordenação de mulheres nem sequer é referida e o diaconato feminino (ministério “abaixo” do presbítero) também é objecto de grandes divergências e tem de ser estudado; o termo LGBT ou “homossexual” não aparece na síntese, falando o documento genericamente apenas de “identidade de género” e “orientação sexual” ou de outros temas “controversos não só na sociedade, mas também na Igreja – como o fim da vida, as situações matrimoniais difíceis e as questões éticas relacionadas com a inteligência artificial.

Ainda assim, o documento admite que esses temas “levantam novas questões”, que “as categorias antropológicas” desenvolvidas até agora nem sempre captam “a complexidade dos elementos que emergem da experiência ou do conhecimento das ciências e requerem um aperfeiçoamento e um estudo mais aprofundado”. Mesmo assim, mesmo sendo necessário aprofundar o debate, “o comportamento de Jesus” indica “o caminho a seguir”.

Os 273 parágrafos do texto, divididos em três partes e 20 capítulos (além de uma introdução e uma conclusão) foram todos aprovados com maioria de dois terços – o cardeal Jean-Claude Hollerich, relator desta assembleia, “não dormiu”, disse o Papa Francisco, quando, no final agradeceu aos principais responsáveis pelos trabalhos, bem como a todos os que fizeram trabalho escondido. Dos 364 membros com direito a voto – 365 contando com o Papa Francisco – houve 346 a participar na votação. O bispo de Leiria-Fátima, por exemplo, viajou para Portugal neste sábado, para estar presente no domingo na missa inaugural de Américo Aguiar como bispo de Setúbal, e por isso já não participou nas votações.

Contra os que receiam que um sínodo dos bispos com leigos e leigas, religiosas e padres (ou seja, não-bispos) possa alterar a doutrina da Igreja ou trair expectativas de quem tem “fome e sede de Deus”, a maior parte dos participantes manifestou-se confiante “de que a sinodalidade é uma expressão da Tradição dinâmica e viva” da Igreja. O processo sinodal, acrescenta o texto, está “enraizado” nessa mesma Tradição e o próprio processo sinodal deve levar a Igreja à missão de “demonstrar e transmitir o amor e a ternura de Deus a uma humanidade ferida”.

Como exemplo, o documento recorda que a assembleia teve lugar “enquanto no mundo grassavam velhas e novas guerras, com o drama absurdo de inúmeras vítimas”. Mas não só: “O grito dos pobres, dos que são obrigados a migrar, dos que sofrem violência ou sofrem as consequências devastadoras das alterações climáticas ressoou entre nós, não só através dos meios de comunicação social, mas também das vozes de muitos, pessoalmente envolvidos pessoalmente com as suas famílias e povos nestes trágicos acontecimentos.”

 

“Autoridade”

 Conferência de imprensa de apresentação da síntese: a palavra é devolvida aos católicos do mundo inteiro. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Um dos participantes da assembleia, oriundo do Norte da Europa, defendeu, em declarações ao 7MARGENS, que o Sínodo tem “autoridade” e que “não é a primeira vez” que membros não-bispos têm direito a voto. Também o Papa “tem o direito de reconfigurar a composição” do sínodo, à luz da Episcopalis Communio, que regula o funcionamento dos sínodos; no nº 2 do seu artigo 2º, estabelece aquela constituição apostólica que “podem ser chamados à Assembleia do Sínodo outros (…) que não detêm o múnus episcopal e cujo papel é determinado de cada vez” pelo Papa. “Isso não diminui mas aumenta a autoridade do Sínodo”, dizia o mesmo participante, referindo o que, na sexta-feira, foi dito pelo padre Timothy Radcliffe, que orientou o retiro inicial e as reflexões introdutórias do Sínodo.

A síntese dos trabalhos insiste na validade do processo, contestada por vários sectores católicos. O sentido do caminho sinodal “é envolver todos os baptizados”. Repita-se: “Leigos e leigas, consagrados e consagradas, diáconos e sacerdotes foram, com os bispos, testemunhas de um processo que pretende envolver toda a Igreja e todos na Igreja” e na assembleia deste mês no Vaticano “ressoou a experiência de uma Igreja que está a aprender o estilo da sinodalidade e a procurar as formas mais adequadas para a realizar.

Na lógica da defesa da validade e legitimidade do processo, o documento reivindica ainda o facto de o caminho sinodal da Igreja estar “de facto, a pôr em prática” os ensinamentos do Concílio Vaticano II quem entre 1962-1965, tentou colocar em dia o ensinamento da Igreja. “Neste sentido, constitui um verdadeiro ato de ulterior receção do Concílio, prolongando a sua inspiração e relançando a sua força profética para o mundo de hoje. O Vaticano II foi “como uma semente lançada no campo do mundo e da Igreja” e a vida dos crentes, a experiência das Igrejas em cada povo e cultura, bem como os numerosos testemunhos de santidade ou a reflexão dos teólogos “foram o solo em que germinou e cresceu”. “O Sínodo 2021-2024 continua a aproveitar a energia dessa semente e a desenvolver as suas potencialidades”, defende a síntese.

A experiência desta primeira sessão foi muito positiva, diz o texto e sublinham os cardeais Mario Grech, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, e Jean-Claude Hollerich, o relator-geral desta assembleia. “É uma Igreja que está criando espaço para todos”, e essa é a atitude de Jesus, “em que ninguém se sente excluído”, referiu Grech, na curta conferência de imprensa de apresentação da síntese. Depois de uma maratona que começou pouco depois das 15h30 (hora de Roma, 14h30 em Lisboa), a votação, ponto por ponto, do documento de síntese terminou cerca das 20h30. Uma hora depois, o texto era apresentado aos jornalistas.

 

“Algo maior”

O cardeal Jean-Claude Hollerich, relator desta assembleia: no início, “alguns bispos não estavam contentes”, mas isso “mudou”. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Hollerich admitiu que, no início do Sínodo, “alguns bispos não estavam contentes”. Hoje, isso mudou. As mesas pequenas, com grupos que misturavam cardeais, bispos, clérigos, religiosos e leigos, com uma grande “diversidade de origens, línguas e culturas”, como diz o texto, bem como o “diálogo no Espírito”, o conhecimento entre pessoas diferentes, permitiu que todos sentissem que “fazia parte de algo maior”, disse o cardeal luxemburguês. Mesmo se, admite a síntese, “não é fácil escutar ideias diferentes, sem ceder imediatamente à tentação de retorquir” ou “oferecer a própria contribuição como um dom para os outros e não como uma certeza”.

Agora, os católicos do mundo inteiro têm à sua disposição “não um documento final, mas um instrumento ao serviço do discernimento que terá ainda de continuar”, dividido em três partes: “O rosto da Igreja sinodal” apresenta “os princípios teológicos que iluminam e fundamentam a sinodalidade”; “Todos discípulos, todos missionários” trata dos “actores da vida e da missão da Igreja e das suas relações; “Tecer laços, construir comunidade” apresenta a sinodalidade “como um conjunto de processos e uma rede de organismos que permitem o intercâmbio entre as Igrejas e o diálogo com o mundo”. Em cada uma delas, enumeram-se as convergências, as questões que ainda têm de ser aprofundadas e as propostas de caminhos a seguir: “algumas são sugeridas, outras recomendadas, outras pedidas com mais força e determinação”.

A partir de agora, a palavra cabe de novo às conferências episcopais e às comunidades locais. Até ao próximo ano, de novo no Vaticano.

(O texto integral da síntese está publicado na página do Vaticano, para já, apenas na sua versão em italiano.)

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

Padre da Obra da Rua morreu

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia novidade

O padre Telmo Ferraz, da Obra da Rua, celebra cem anos de vida e missão. Membro do clero da Diocese de Bragança-Miranda, nasceu no Mogadouro a 25 de novembro de 1925 e começou cedo o seu sacerdócio de rebeldia e compromisso social. Denunciava a tragédia humanitária provocada pelas condições péssimas em que viviam quantos davam a vida na construção de barragens naquele Trás-os-Montes longínquo e abandonado dos anos 1950. [Texto de Tony Neves]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

[Entre Margens]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória novidade

No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.