Palavra aos católicos até 2024

Poder, mulheres, ecumenismo, moral e ministérios, os temas para aprofundar no Sínodo

| 28 Out 2023

O cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo, na conferência de imprensa final: “Uma Igreja que está criando espaço para todos.” Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Poder e estruturas de governo da Igreja; papel das mulheres; diálogo ecuménico; questões de moral individual; renovação da linguagem litúrgica e reconhecimento de mais ministérios – em síntese, estes são os tópicos que menos consenso oferecem e que têm de continuar a ser debatidos até Outubro de 2024, quando decorrer a segunda sessão da XVI assembleia geral do Sínodo dos Bispos (ver outro texto no 7MARGENS).

Entre os temas que mais debate têm provocado e que mais votos negativos receberam no Sínodo, a disciplina do celibato obrigatório é para profundar; a ordenação de mulheres nem sequer é referida e o diaconato feminino (ministério “abaixo” do presbítero) também é objecto de grandes divergências e tem de ser estudado; o termo LGBT ou “homossexual” não aparece na síntese, falando o documento genericamente apenas de “identidade de género” e “orientação sexual” ou de outros temas “controversos não só na sociedade, mas também na Igreja – como o fim da vida, as situações matrimoniais difíceis e as questões éticas relacionadas com a inteligência artificial.

Ainda assim, o documento admite que esses temas “levantam novas questões”, que “as categorias antropológicas” desenvolvidas até agora nem sempre captam “a complexidade dos elementos que emergem da experiência ou do conhecimento das ciências e requerem um aperfeiçoamento e um estudo mais aprofundado”. Mesmo assim, mesmo sendo necessário aprofundar o debate, “o comportamento de Jesus” indica “o caminho a seguir”.

Os 273 parágrafos do texto, divididos em três partes e 20 capítulos (além de uma introdução e uma conclusão) foram todos aprovados com maioria de dois terços – o cardeal Jean-Claude Hollerich, relator desta assembleia, “não dormiu”, disse o Papa Francisco, quando, no final agradeceu aos principais responsáveis pelos trabalhos, bem como a todos os que fizeram trabalho escondido. Dos 364 membros com direito a voto – 365 contando com o Papa Francisco – houve 346 a participar na votação. O bispo de Leiria-Fátima, por exemplo, viajou para Portugal neste sábado, para estar presente no domingo na missa inaugural de Américo Aguiar como bispo de Setúbal, e por isso já não participou nas votações.

Contra os que receiam que um sínodo dos bispos com leigos e leigas, religiosas e padres (ou seja, não-bispos) possa alterar a doutrina da Igreja ou trair expectativas de quem tem “fome e sede de Deus”, a maior parte dos participantes manifestou-se confiante “de que a sinodalidade é uma expressão da Tradição dinâmica e viva” da Igreja. O processo sinodal, acrescenta o texto, está “enraizado” nessa mesma Tradição e o próprio processo sinodal deve levar a Igreja à missão de “demonstrar e transmitir o amor e a ternura de Deus a uma humanidade ferida”.

Como exemplo, o documento recorda que a assembleia teve lugar “enquanto no mundo grassavam velhas e novas guerras, com o drama absurdo de inúmeras vítimas”. Mas não só: “O grito dos pobres, dos que são obrigados a migrar, dos que sofrem violência ou sofrem as consequências devastadoras das alterações climáticas ressoou entre nós, não só através dos meios de comunicação social, mas também das vozes de muitos, pessoalmente envolvidos pessoalmente com as suas famílias e povos nestes trágicos acontecimentos.”

 

“Autoridade”

 Conferência de imprensa de apresentação da síntese: a palavra é devolvida aos católicos do mundo inteiro. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Um dos participantes da assembleia, oriundo do Norte da Europa, defendeu, em declarações ao 7MARGENS, que o Sínodo tem “autoridade” e que “não é a primeira vez” que membros não-bispos têm direito a voto. Também o Papa “tem o direito de reconfigurar a composição” do sínodo, à luz da Episcopalis Communio, que regula o funcionamento dos sínodos; no nº 2 do seu artigo 2º, estabelece aquela constituição apostólica que “podem ser chamados à Assembleia do Sínodo outros (…) que não detêm o múnus episcopal e cujo papel é determinado de cada vez” pelo Papa. “Isso não diminui mas aumenta a autoridade do Sínodo”, dizia o mesmo participante, referindo o que, na sexta-feira, foi dito pelo padre Timothy Radcliffe, que orientou o retiro inicial e as reflexões introdutórias do Sínodo.

A síntese dos trabalhos insiste na validade do processo, contestada por vários sectores católicos. O sentido do caminho sinodal “é envolver todos os baptizados”. Repita-se: “Leigos e leigas, consagrados e consagradas, diáconos e sacerdotes foram, com os bispos, testemunhas de um processo que pretende envolver toda a Igreja e todos na Igreja” e na assembleia deste mês no Vaticano “ressoou a experiência de uma Igreja que está a aprender o estilo da sinodalidade e a procurar as formas mais adequadas para a realizar.

Na lógica da defesa da validade e legitimidade do processo, o documento reivindica ainda o facto de o caminho sinodal da Igreja estar “de facto, a pôr em prática” os ensinamentos do Concílio Vaticano II quem entre 1962-1965, tentou colocar em dia o ensinamento da Igreja. “Neste sentido, constitui um verdadeiro ato de ulterior receção do Concílio, prolongando a sua inspiração e relançando a sua força profética para o mundo de hoje. O Vaticano II foi “como uma semente lançada no campo do mundo e da Igreja” e a vida dos crentes, a experiência das Igrejas em cada povo e cultura, bem como os numerosos testemunhos de santidade ou a reflexão dos teólogos “foram o solo em que germinou e cresceu”. “O Sínodo 2021-2024 continua a aproveitar a energia dessa semente e a desenvolver as suas potencialidades”, defende a síntese.

A experiência desta primeira sessão foi muito positiva, diz o texto e sublinham os cardeais Mario Grech, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, e Jean-Claude Hollerich, o relator-geral desta assembleia. “É uma Igreja que está criando espaço para todos”, e essa é a atitude de Jesus, “em que ninguém se sente excluído”, referiu Grech, na curta conferência de imprensa de apresentação da síntese. Depois de uma maratona que começou pouco depois das 15h30 (hora de Roma, 14h30 em Lisboa), a votação, ponto por ponto, do documento de síntese terminou cerca das 20h30. Uma hora depois, o texto era apresentado aos jornalistas.

 

“Algo maior”

O cardeal Jean-Claude Hollerich, relator desta assembleia: no início, “alguns bispos não estavam contentes”, mas isso “mudou”. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Hollerich admitiu que, no início do Sínodo, “alguns bispos não estavam contentes”. Hoje, isso mudou. As mesas pequenas, com grupos que misturavam cardeais, bispos, clérigos, religiosos e leigos, com uma grande “diversidade de origens, línguas e culturas”, como diz o texto, bem como o “diálogo no Espírito”, o conhecimento entre pessoas diferentes, permitiu que todos sentissem que “fazia parte de algo maior”, disse o cardeal luxemburguês. Mesmo se, admite a síntese, “não é fácil escutar ideias diferentes, sem ceder imediatamente à tentação de retorquir” ou “oferecer a própria contribuição como um dom para os outros e não como uma certeza”.

Agora, os católicos do mundo inteiro têm à sua disposição “não um documento final, mas um instrumento ao serviço do discernimento que terá ainda de continuar”, dividido em três partes: “O rosto da Igreja sinodal” apresenta “os princípios teológicos que iluminam e fundamentam a sinodalidade”; “Todos discípulos, todos missionários” trata dos “actores da vida e da missão da Igreja e das suas relações; “Tecer laços, construir comunidade” apresenta a sinodalidade “como um conjunto de processos e uma rede de organismos que permitem o intercâmbio entre as Igrejas e o diálogo com o mundo”. Em cada uma delas, enumeram-se as convergências, as questões que ainda têm de ser aprofundadas e as propostas de caminhos a seguir: “algumas são sugeridas, outras recomendadas, outras pedidas com mais força e determinação”.

A partir de agora, a palavra cabe de novo às conferências episcopais e às comunidades locais. Até ao próximo ano, de novo no Vaticano.

(O texto integral da síntese está publicado na página do Vaticano, para já, apenas na sua versão em italiano.)

 

Jacinda Ardern lança bolsas de estudo para líderes políticos emergentes que privilegiem a bondade e a empatia

"Cuidar das pessoas" é objetivo

Jacinda Ardern lança bolsas de estudo para líderes políticos emergentes que privilegiem a bondade e a empatia novidade

Um novo programa de bolsas de estudo para líderes emergentes apoiado pela Ação para o Progresso Global, uma iniciativa do Centro para o Progresso Americano (CAP Action). Este será um projeto liderado pela ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern e consistirá em apoiar governantes que privilegiem a bondade e a empatia na tomada de decisões.

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita

Com as eleições no horizonte

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita novidade

O conselho permanente dos bispos da Igreja Católica de França considera, num comunicado divulgado esta quinta-feira, 20 de junho, que o resultado das recentes eleições europeias, que deram a vitória à extrema-direita, “é mais um sintoma de uma sociedade ansiosa, dividida e em sofrimento”. Neste contexto, e em vésperas dos atos eleitorais para a Assembleia Nacional, apresentaram uma oração que deverá ser rezada por todas as comunidades nestes próximos dias.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança”

Tolentino recebeu Prémio Pessoa

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança” novidade

Na cerimónia em que recebeu o Prémio Pessoa 2023 – que decorreu esta quarta-feira, 19 de junho, na Culturgest, em Lisboa – o cardeal Tolentino Mendonça falou daquela que considera ser “talvez a construção mais extraordinária do nosso tempo”: a “ampliação da esperança de vida”. Mas deixou um alerta: “não basta alongar a esperança de vida, precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança e a deseje fraternamente repartida, acessível a todos, protagonizada por todos”.

“O 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba”

“O 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba” novidade

O último dia de “Reflexos e Reflexões” prometia uma tarde bem preenchida: o debate sobre “o 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba”, e a peça de teatro “House”, de Amos Gitai, pelo teatro La Colline. Aqui deixo uma síntese do debate, que tentei fazer com a maior fidedignidade possível, a partir dos apontamentos que fui tomando (era proibido tirar fotografias ou fazer gravações, para garantir que todos se sentiam mais livres para falar). [Texto de Helena Araújo]

E Jesus, estaria ele no Tik Tok?

7MARGENS/Antena 1

E Jesus, estaria ele no Tik Tok? novidade

“Falar Piano e Tocar Francês” é o título do livro do maestro Martim Sousa Tavares. Arte, música, cultura, paixão e mediação são temas do livro e pretextos para a conversa no programa 7MARGENS, da Antena 1. Que começa por uma pergunta: e Jesus, estaria ele hoje no Tik Tok?

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This