Os rituais de nascimento rongas e portugueses

30 Jan 19Entre Margens, Últimas

“A natureza dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantêm separados” (Confúcio: séc. V a C.).

A frase epigrafada é inspiradora e desafiadora, por permitir, entre outras questões, fazer-se uma reflexão sobre o desconhecimento mútuo entre povos.

Tentando encontrar exemplos que a expliquem, foi possível analisar o baptismo na Cultura e Religião Bantu (CRB) (especificamente a ronga, do sul de Moçambique) e o mesmo ritual de nascimento, na perspetiva da Tradição Católica Apostólica Portuguesa (TCA).

Nesse sentido, algumas questões podem ser levantadas: como será que o ritual tem sido realizado em cada uma dessas tradições? Serão utilizados os mesmos símbolos? Terá ele as mesmas funções? Os mesmos equivalentes? Os mesmos significados? Será que a análise, compreensão e partilha do seu modus operandi poderá contribuir para o fomento da interculturalidade e conhecimento mútuo entre diferentes povos?

Estas ou outras questões do mesmo género têm sido colocadas na área das Ciências Sociais e Humanas. É de lá que vêm algumas respostas simples, mas profundas, sobre a importância de se estimular o conhecimento entre culturas e povos. Casos esclarecedores, sugeridos a partir do contexto em análise, podem ser encontrados tanto na Literatura moçambicana, como na portuguesa.

Por exemplo, José Tolentino Mendonça afirma que: […] “até agora somos o esterco do mundo” […], de onde se depreende que urge que se nos ensine a dialogar. Outros autores, através de textos de géneros diferentes, mas com o mesmo título, “Civilização” dizem-nos: […] “O riso acabou” […] (Eça de Queirós) e “Antigamente (antes de Jesus Cristo)/os homens erguiam estádios e templos/e morriam na arena como cães./Agora…/também já constroem Cadillacs” (José Craveirinha). A questão central nestas abordagens é a de que com os grandes avanços tecnológicos e científicos, aparentemente a humanidade cresceu, mas os Homens ainda não são civilizados. Daí a importância do diálogo para se fomentar o conhecimento mútuo porque, afinal, eles têm a mesma natureza.

Que conhecimento será que poderá ser explicado a partir de rituais de nascimento? Observando as acções desencadeadas na iniciação da criança nas duas tradições em análise, verifica-se a existência de semelhanças culturais que podem estimular o diálogo intercultural.

Descrevendo, de modo muito breve, a CRB, verifica-se que há quatro etapas a serem seguidas, nomeadamente: a imposição do nome à criança (Kutxula vito), dando-se-lhe um nome dos espíritos dos seus antepassados, o de um chefe da sua família/comunidade, o de um vizinho ou um nome ligado a um evento. Em qualquer dos casos, o nome recebido será daquele que passará a ser ou a simbolizar o padrinho da criança. Para realizar essa imposição é necessário que se invoquem os espíritos dos antepassados da família envolvida no acto (o kuphahla, pedido de bênçãos aos antepassados – eles é que intercedem pelas famílias bantu, junto a Deus). Esse evento deverá ser realizado logo a seguir à primeira lua nova após o nascimento da criança.

De entre vários pequenos actos que sucedem ao surgimento da lua nova, há que se destacar o grito que é dado pela primeira pessoa da aldeia que a vê e diz “Quengelekezeeeeeeeeee”, marcando o momento de as mães acabadas de dar a luz à uma criança serem purificadas e passarem a purificar os seus recém-nascidos. (Este momento e parte do ritual do baptismo são representados no poema “Lua Nova”, c.f. NORONHA, Rui. Os meus versos. Maputo: Texto Editores. Pp166-171. Importa ainda dizer que, do ponto de vista antropológico o baptismo ronga pode ser lido em JUNOD, Henri. Usos e Costumes dos Bantu. Tomo I. Maputo: AHM. 1996.)

É dessa sequência que o baptismo da criança ou a sua purificação é realizado, sendo designado Kutsivela. O mesmo consiste em defumar o corpo da criança com recurso a um composto de pedaços de pele de diferentes animais, seguida da sua disposição por cima de cinza. Segue-se depois o Kuyandla, no qual o doutor da família invoca os deuses do menor (os espíritos dos seus antepassados), dizendo: “Aqui está a criança, que cresça e se torne homem, graças a estas mesinhas”. A seguir, a mãe mostra ao bebé a sua lua (a primeira surgida, após o seu nascimento). Esse ritual termina com o Kubieketa, que é a entrega simbólica da criança à sua comunidade.

Do que consta, relativamente ao baptismo de bebés na TCA, é que este consiste da imposição do nome à criança; seguido pela marcação com o óleo do crisma, significando a necessidade de se afastar o diabo – num ritual durante o qual se realizava o kyrie eleison.

Nesse sentido, a celebração do nascimento da criança, marca o renascimento pela fé, num ritual cuja presença da comunidade é importante, até porque é necessária a existência de um padrinho, para que se realize o baptismo. Além dele, o mais importante é o reconhecimento de um ente superior, Senhor da vida e do universo a quem a criança deve ser entregue ou apresentada, logo à nascença. Este ritual é marcado pela presença da luz da vela, com o desejo de que ilumine a vida da criança, desde tenra idade.

Em síntese, nas duas tradições a função do baptismo é a mesma, a da purificação à nascença, realizada a partir da unção da criança com cinza ou com óleos (ainda que invertendo ou abdicando-se de parte das etapas, dependendo do presidente da cerimónia e das épocas). Há equivalentes que se podem estabelecer, por em ambas se marcar o renascimento com recurso à recepção da luz da lua ou da vela, esta que guiará a criança para os caminhos considerados aceites na comunidade ou pela religião na qual nasce e renasce. Tanto num como noutro evento a ideia é reinserir a criança na sociedade, algo desencadeado a partir da fé em um ente superior ao Homem (Deus), até porque é necessário invocarem-se os espíritos, ou através do kuphahla ou através do kyrie eleison. Por fim, há que se destacar a existência de testemunhas, que são a sociedade e os padrinhos.

Em ambas as tradições, os símbolos utilizados na realização do ritual são praticamente os mesmos. Na CRB: fumo, água, tiçãs (com óleo), lua, cinza, invocação dos espíritos dos antepassados (kuphahla); na TCA: fumo, água, óleo, velas e invocação de santos (kyrie eleison). A única grande questão é que esse ritual é realizado de modos diferentes nas duas tradições.

Depreende-se após essa descrição que “a natureza dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantêm separados”. Daí a premência em estimular-se o diálogo intercultural entre povos. E o exemplo trazido através da comparação dos modos de fazer o baptismo poderão constituir um espaço de compreensão/diálogo moçambicanos e portugueses e quiçá entre muitos outros diferentes povos pelo mundo.

Sara Jona Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica (Maputo, Moçambique)

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Set 20@11:15_13:00

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Set
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Sáb
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Set 21@10:00_12:00

As visitas serão acompanhadas pelo arquitecto João Alves da Cunha; haverá duas visitas: às 10h e 11h.

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Set 21@11:00_18:00

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