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Cravos de Abril.
Cravos de Liberdade. Foto © Luís Castanheira Pinto

Podes voltar, amigo Jorge.

 

Podes voltar, amigo Jorge. Hoje, mais do que nunca. Muitos dos que aqui vivem, precisam de ti. E de tantos como tu. Precisam muito do teu abraço. De muitos abraços solidários.

Compreendo a incompreensão. Como foi possível?… Percebo a incredulidade. O desespero. A desesperança. Como chegaram os EUA a este momento da história que achámos apenas caber a outros?

O que aqui vejo, no entanto, é que este país da vanguarda científica, cultural, social e política, do progresso tecnológico e do espírito empreendedor, ainda cá está. Os bastiões da diplomacia humanista são os mesmos. O país dos princípios democráticos, do multilateralismo e da visão de uma comunidade global, interligada, permanece. Os defensores da solidariedade e igualdade entre gentes e povos e da crença num mundo irmanado, não se demoveram.

São agora uma minoria.

Estão aflitos. Desnorteados. Tiraram-lhes o tapete. Lutaram pelos seus ideais como poucos Europeus o fariam. Saíram às ruas. Dedicaram tempo e dinheiro. Correram a comícios. Gritaram publicamente. Marcaram as suas casas com as cores da democracia. Discutiram com vizinhos. Angariaram fundos. Expuseram publicamente as suas razões. Perderam empregos – alguns, por isso mesmo. Alertaram para os perigos. Foram às escolas. Embrenharam-se nas comunidades. Falaram nos seus trabalhos. Interpelaram familiares e amigos. Ganharam inimigos. Entregaram-se de peito aberto ao que mais acreditavam. Por si, e pelos outros que creem vítimas de um sistema imperfeito.

Perderam. Os outros ganharam.

São agora uma minoria.

Estão descrentes. Sem soluções. Receiam um futuro que não imaginavam possível. Temem pelos seus. Têm vergonha do seu país. Pedem desculpa sem saber do quê. Nem porquê. Choram, sem pudor.

Hoje, ao jantar, reunimos amigos. Diferentes cantos do mundo. Uns, americanos. Ela, suspirava. O olhar perdido no vazio. O sentido de culpa por um desfecho que nunca desejou. Embaraço. Vergonha. O remorso ácido que morde fundo, nas entranhas. Sem razão que se apresente. Na sua humildade, pedia desculpa. Sem razão que se conheça.

Esta nossa vizinha, como tantos outros milhões de americanos com nomes, e rostos e vidas entregues a causas que eu e tu partilhamos, Jorge, precisam do nosso abraço. São hoje uma minoria. Nunca se imaginaram enquanto tal. Na sua fragilidade humana, sentem-se traídos pela história. Talvez até por um Deus em que acreditam. Acreditavam. Deram o seu melhor. Sentem que falharam.

A solidariedade dos que creem nos mesmos princípios que eles, são o seu melhor bálsamo. A fonte de esperança que precisam para continuar a lutar. Para não desistir. Para continuar a acreditar num mundo – num país que é o seu – em que os direitos humanos fundamentais são o farol e o norte do desenvolvimento civilizacional. Da história de que querem ser parte activa. Não observadores.

O teu abraço faz-lhes falta. Podes voltar, amigo Jorge. Vai ser bom ter-te por cá. Acredita.

 

Nota: Para compreender na sua verdadeira dimensão o presente texto deverá ler o “À Margem” de Jorge Wemans.

 

Luís Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

 

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