
Um relatório recentemente divulgado documentou 667 agressões do regime ditatorial nicaraguense contra a Igreja Católica, entre abril de 2018 e agosto de 2023. Foto © Jorge Mejía Peralta, via Wikimedia Commons.
Só na semana passada, a Polícia Nacional da Nicarágua prendeu quatro padres católicos, todos pertencentes à diocese de Estelí, no norte do país. Na mesma semana, um novo relatório sobre a perseguição religiosa na Nicarágua dava conta de que o número de agressões à Igreja e comunidade católicas por parte do regime ditatorial de Ortega continua a aumentar: nos primeiros oito meses do ano, foram registados mais de 200 ataques.
O último padre a ser detido foi Álvaro Toledo, na noite de quinta-feira, 5 de outubro, horas depois de ter abordado, na sua homilia, as prisões ocorridas nos dias anteriores de três religiosos pertencentes à sua diocese (cujo administrador apostólico é o bispo Rolando Álvarez, também ele detido e condenado a 26 anos de prisão por alegados crimes de traição à pátria).
Na sua alocução, o padre Álvaro Toledo advertiu que a diocese estava “a ficar sem padres”, depois de no mês passado outro padre ter sido detido após pedir aos fiéis que rezassem pelo bispo Rolando Álvarez. “Sem sacerdotes, um povo, espiritualmente, está morto”, afirmou, aludindo à probabibilidade de ele próprio vir a ser preso brevemente.
Na madrugada seguinte, a sua detenção era confirmada pela rádio local Stereo Fe, através de uma publicação na página de Facebook, que entretanto foi apagada, mas que pode ser vista na imagem abaixo.

“2023 é o ano mais desastroso”
Os ataques à Igreja e comunidade católicas na Nicarágua têm vindo a aumentar ao longo dos últimos cinco anos. Um relatório apresentado na passada quarta-feira, 4 de outubro, pela advogada e investigadora nicaraguense no exílio Martha Patricia Molina documentou 667 agressões entre abril de 2018 a agosto de 2023. A estas, somam-se 70 contra outras confissões cristãs.
“Com os números que apresentamos, não há dúvida de que 2023 é o ano mais desastroso e em que a Igreja Católica sofreu a maior perseguição, com 205 ataques”, detalhou Molina, em conferência de imprensa, ao comparar o número dos primeiros meses deste ano com os de anos anteriores. “Em 2018, foram registados 90 [ataques]; um total de 84 em 2019; 62 em 2020; 55 em 2021; e 171 em 2022”, assinalou.
Quanto à natureza das 667 agressões registadas desde 2018, o relatório divide-as da seguinte forma: 117 ataques, cercos e obstruções a templos religiosos; 39 encerramentos de organizações sem fins lucrativos, meios de comunicação, projetos e obras ligados à Igreja; 214 atos de repressão contra religiosos; 71 casos de vandalismo e mensagens de ódio; 80 incidentes de roubo e profanação; 82 situações de repressão contra leigos; e 64 casos de proibição de procissões e atividades ao ar livre. O relatório refere ainda um total de 3.240 restrições às práticas de piedade popular.
É também relatada a apreensão de 13 imóveis que originalmente pertenciam à Igreja Católica. Atualmente, “estes edifícios estão a ser utilizados para criar universidades partidárias, porque servirão como centros de doutrinação para as gerações futuras”, denunciou Molina.
Relativamente aos agentes pastorais, 151 deles (83 mulheres e 68 homens) sofreram as consequências da perseguição do regime, tendo sido obrigados a interromper abruptamente o seu trabalho pastoral no país, devido a detenções ou ao exílio forçado. Os 68 homens afetados incluem 1 núncio, 1 bispo, 58 padres, 3 diáconos e 5 seminaristas.









