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Poliedro pastoral

| 29/08/2022

O sonho de uma Igreja missionária capaz de construir pontes e não muros pode refletir-se através de uma figura apresentada pelo Papa Francisco: o poliedro… Esta figura orienta-nos para saber que ser Igreja em saída significa ir em busca de todas as partes, a fim de uni-las no poliedro, arquétipo de construção social. Por isso é necessário assumir o desafio a converter o olhar e o método de interpretar a realidade a uma dimensão sistémica da vida.
Cardeal Tolentino Mendonça, SNPC 2.08.2022

 

poliedro Imagem de Mauro Borghesi/Pixabay

“Destaco as faces do poliedro pastoral que os relatos da caminhada sinodal proporcionam: a nível psicológico; a nível pessoal e de hierarquia eclesiástica.” Foto © Mauro Borghesi/Pixabay.

 


É necessário assumir 

O Papa Francisco pensa a Igreja, as várias comunidades eclesiais, como um poliedro, com faces diferentes, mas com grande interconectividade.

Destaco as faces do poliedro pastoral que os relatos da caminhada sinodal proporcionam: a nível psicológico; a nível pessoal e de hierarquia eclesiástica. Deixo para uma nova oportunidade o que se refere à instituição, à cidadania dos cristãos, às pessoas que demandam a Igreja, às famílias e outras formas gregárias.

A nível psicológico, estou em sintonia com Margarida Bruto da Costa, psicóloga, que atende na Santa Casa da Misericórdia, em Lisboa, e reconhece que as pessoas vivem as suas perguntas na solidão, não lhes proporcionando a Igreja, muitas vezes, o “encontro pausado”, sem ter disponibilidade para, “de mãos dadas, ouvir sem querer dar uma resposta apressada”.

Realmente, nem sempre a dimensão psicológica é tida em conta. Surge frequentemente a inquietação sobre o que vão fazer aos dados obtidos nesta fase da caminhada sinodal e a denúncia antecipada de irem parar ao arquivo morto das dioceses. A dúvida mantém alerta as consciências, mas não é o melhor para viver a liberdade em segurança.

A nível pessoal, faço minha a atitude de animadores pastorais, no Brasil, que fazem como Jesus de Nazaré: vêem a realidade a partir de baixo, das pessoas, do povo. “Sim, voltaremos os nossos olhos, a nossa memória fará brilhar este momento em que quisemos concretizar o Sínodo e projetar o futuro com audácia, respondendo ao desafio do sonho de Deus através de novos caminhos. Vamos poder dizer com orgulho: “Eu estava lá. Eu estava convosco”.

 

Quanto à hierarquia eclesiástica 

Apesar dos apelos fortes e evidentes do Papa Bergoglio contra toda a forma de clericalismo, o esquema hierárquico na vida da Igreja permaneceu intacto. As primeiras contribuições de algumas conferências episcopais europeias, designadamente França e Espanha, já foram publicadas. A atenção é posta na escuta, no pedido de participação de todos os membros da Igreja. (cfr. Vimeio Albanesi, padre italiano, Settimana News 12.08.2022.)

Os organismos da Cúria parecem participativos mais pelo seu número do que pela sua função. Sem nos incomodarmos com o seu número, parecem ser um conjunto de escritórios, alguns obrigatórios, outros possíveis para preencher as caixinhas da orgânica pré-estabelecida por indicação do bispo diocesano.

O limite evidente é que as orientações pessoais do bispo influenciam e determinam os resultados da gestão da pastoral. A escolha de participação é dirigida ao círculo que, necessariamente, se instaura em torno do novo prelado. Todavia, as referências ao serviço, à humildade, à santidade transbordam para cada função e missão: invocam-se passagens escriturísticas… A fé problemática dos batizados não é capaz de receber, antes de aceitar, esquemas de gestão hierárquica tão fortes e exclusivos. As sínteses indicadas também não são sempre teologicamente congruentes.

A caminhada sinodal entra agora na fase continental. As sínteses dos relatos diocesanos estão a ser divulgadas. A hora é de esperança. O sonho de Deus brilha no caminhar juntos tão a gosto do Papa Francisco.

 

Georgino Rocha é padre católico da diocese de Aveiro e desempenhou já o cargo de vigário diocesano da pastoral.

 

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