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A Escola de Atenas é uma das pinturas mais famosas de Rafael. Foto © Wikimedia Commons

Ensaio

“Politeía”, democracia e as tecno-oligarquias digitais

| 31/01/2025

Ó Atenas, Alexandria, Roma,
apareceu algo que vos destruirá!
O coração de um fantasma bate.
O homem começou a morrer
[1].

 

 O que é uma democracia? Contrariamente ao senso comum, dada a ausência quase total da filosofia do debate público das ideias, a política não é um assunto de políticos, mas é primeiramente uma questão filosófica. À ideia de política (politeía), no seu sentido clássico, subjaz procurar racionalmente o bem dos cidadãos da Pólis como um todo, na sua organização, nos seus dinamismos, estruturas e diversidades étnicas, religiosas ou morais. A política é um assunto da comunidade, de procura de pontos comuns e de partilha de valores comuns. Só uma vigilância de pensamento crítico e a busca de uma linguagem comum permite discutir e pôr-se de acordo sobre o que nos une enquanto seres que busca o humano comum. Não basta ser nomeado “político” para se fazer política ou compreender a política, tal como o hábito não faz o monge, nem a batina o padre. Seria manifestamente muito pouco se assim fosse. Trata-se de voltar às fontes filosóficas da Europa, como inspiração para o tempo que vem, de preparar a emergência futura da dos moderados, lúcidos e criativos, porque esta é a época da revivescência de extremos-espectrais e de forças obscuras adormecidas no interior da vida.

Segundo Aristóteles, “o homem é, naturalmente, um animal político” (homo politicus)[2], o que faz do humano um “animal racional cívico”, um ser social, na medida em que se ocupa e preocupa com o bem-estar, a vida boa e o florescimento harmónico da pólis, país ou nação. Nesse sentido tudo o que se passa na comunidade política ou da pólis diz respeito a cada um e a todos, envolvendo uma “ética da responsabilidade” (Hans Jonas), uma “racionalidade comunicativa” (Habermas) ou uma ética política do “homem compassional” (Myriam Revault d’Allonnes) que se abre naturalmente à contraposição de princípios, teorias e práticas de regime de governança. O humano só é plenamente humano se se realiza como tal no seio da pólis, com os outros e para os outros, no exercício de uma racionalidade ética que seja compassional. Quando assim não é, ou é animal (besta) ou é deus, sendo ambas degradações idolátricas e despóticas do que é ser simplesmente humano.

Assim, a política, na sua verdadeira acepção e génese, não é um assunto de alguns ou de uns quantos, mas de todos quanto habitam a pólis e para além das suas fronteiras, mesmo se delegamos esse poder (por sufrágio universal e participação cívica) na representação institucional de alguns para o efeito. Ora, o problema está mesmo aqui, no conceito de representação e na forma como essa representação é concebida e concretizada. O que representa? Quem representa? Como representa? Independentemente do ordenamento jurídico de cada fronteira ou nação, a política enquanto tal tem uma dimensão ontológica universal. Qual é a sua essência – o ser da política? Como conciliar e articular a conquista natural de poder (não despótico, moderado e escrutinado publicamente e por instâncias intermédias) e governo para o bem comum enquanto dimensões da acção política? O que é o bem comum e as suas possíveis configurações numa sociedade diversificada e multicultural?

Funcionários do Departamento de Recenseamentos dos Estados Unidos, nos anos 1960, com equipamentos de processamento de dados. Foto © U.S. Census Bureau employees, https://www.census.gov\/history / via Wikimedia Commons.

 

A aparente evolução hodierna para uma democracia oligárquica onde os já milionários potenciam ao máximo os seus lucros tornando-se bilionários ou trilionários…, onde o pobre ou a classe media (a que ainda existe e resiste à erosão), que é infelizmente uma grande parte da humanidade, vê os seus magros recursos serem comidos pela inflação e pelo aumento brutal de impostos. A promessa universal de que tudo estaria ao nosso alcance, o apelo ao consumo desmesurado como realização dos nossos desejos mais excêntricos parece hoje ser uma pura utopia. Se uma certa concepção da democracia ultraliberal defende que esta não gera per si desigualdade gritantes nem assimetrias, então o que é estará na origem das desigualdades várias entre os humanos?

Esta desigualdade e injustiça que o sistema neoliberal ou hiperliberal que visa potenciar a maximização dos lucros em rendimento de cada um, para virtuosamente serem distribuído por todos, tendo em conta o esforço de cada um e as horas de trabalho empregues para a obtenção dum resultado satisfatório, mesmo se nem todos têm em princípio as mesmas oportunidades nem experienciam as mesmas circunstâncias (familiares, sociais, culturais, geográficas, biológico-psíquicas…) de acesso aos melhores trabalhos e remunerações. Se o rendimento do trabalho estivesse indexado logicamente ao número de horas e ao esforço que esse trabalho exige do corpo humano, logo se verifica que os trabalhos mais duros de executar nem sempre são os trabalhos mais remunerados, antes pelo contrário.

Ainda que a mentalidade das empresas esteja hodiernamente em mudança relativamente aos paradigmas anteriores, com a valorização formativa dos trabalhadores, a dignificação das condições do local de trabalho, a distribuição de lucros pelos trabalhadores ou colaboradores, para além dos accionistas, a potenciação de tempo de lazer, de estudo ou da cultura, o certo que é esse ainda não é o paradigma dominante. Uma maioria das empresas segue a máxima de salários baixos e a maximização dos lucros, com o consequente aumento da precariedade laboral, cultural, ecológica e existencial que daí advém, cavando sempre mais o fosso entre pobres e oligárquicos numa mesma sociedade, e não apenas à escala mundial, ou entre países desenvolvidos e em vias desenvolvimento.

É neste exercício autocrítico que a democracia liberal representativa deverá pensar qual tem sido o seu real contributo, com os seus vícios e virtudes, para um retorno em massa dos discursos e movimentos extremistas, messiânicos e apocalípticos, que movem massas, populares ou elites, sobretudo classes mais desfavorecidas, mas também grupos tecno-oligárquicos (porque ávidas de segurança e identidade que o dinheiro manifestamente parece não lhes dar, como é o caso da oligarquia Musk, Bezos e Zuckerberg e afins, que necessitam do poder autoritário legitimado sobre as massas para narcisicamente se afirmar como dono e senhor absoluto). Para afrontar o problema dos extremismos político-ideológicos, e das novas bases sociais e (i)morais que eles pretendem impor, a dita democracia liberal tem necessariamente de fazer um exame de consciência total, uma espécie de retiro crítico intensivo e intempestivo, de suspensão momentânea dos seus prejuízos, por forma a encontrar em si os pontos críticos que lograram e logram ainda o pleno desenvolvimento das sociedades.

Saúde mental

“Como sair do engodo da anestesia mental e espiritual das sociedades por via da tecnologia do divertimento?” Foto © Tumisu / Pixabay

 

Isso só será possível se as instituições democráticas, ou o pouco que ainda resta da sua credibilidade, à escala nacional, europeia e mundial, forem capazes de exercer um pensamento crítico sobre elas mesmas, para trilhar novas possibilidade de desenvolvimento humano integral. Evidentemente que o tempo não pára, é certo, pelo que será quase inviável esse retiro imaginativo de suspensão, mas a irreflexão leva à erosão silenciosa dos princípios fundacionais dessas mesmas instituições democráticas e à impossibilidade de se regenerarem como forças vivas da estabilidade e da coesão societárias.

Que os ovos rareiam para fazer boas omeletes, sobretudo ao nível da representação política, isso coloca o problema da capacidade intelectual da maioria dos seus representantes de hoje e das suas motivações reais para estar na vida activa da política. Mas também questiona quem os elege e as razões que estão por detrás do interesse de cada um e das nossas próprias escolhas (escolhe-se em função de uma filosofia de vida e do bem comum ou em função dos interesses pessoais e dos ganhos individuais?). Não seria fundamental uma academia ou Universidade dedicada à formação em ciências políticas e éticas sociais dos cidadãos, capaz de facultar uma educação integral para uma cidadania consciente e mais participativa?

Mas a questão que se põe é mais radical e mais profunda ainda. Como sair deste engodo? Por um lado, a anestesia mental e espiritual das sociedades por via da tecnologia do divertimento (aplicações, redes sociais, hiperbolização dos ecrãs…), por outro, a ausência de práticas públicas e privadas em força que criem consciências cívicas livres e responsáveis, num sistema onde as instituições estão cada vez mais debilitadas e esvaziadas e sem forças para regenerar e impulsionar a própria sociedade (escola, redes culturais, política, sistema judicial, religião…), elas mesmas tomadas e embaciadas por esse “anestesiamento” tecnológico-virtual (a única forma, dado que já são os algoritmos a comandar todo o sistema online de procura e compra de conteúdos, é abandonar massivamente as redes sociais, até pela perigosíssima confluência entre o poder político e a riqueza megalómana de que as detém e a sua influência bélica nas massas de todo o mundo).

Nesse sentido, são muito bem-vindos os gestos concretos de alguns meios de comunicação social europeia de peso que recusaram a presença em algumas redes sociais, em particular a X[3]. Muitos pensarão que abandonar essas redes é sair do mundo ou estar à margem, bem pelo contrário, sair do virtual é entrar verdadeiramente no mundo real, no mundo humano, da cultura, da natureza, da vida. Pensava-se que seríamos mais livres e afinal vivíamos na opressão e na escravatura do senhor-algoritmo que tudo comanda. É neste vazio ético de percepções e de tédio generalizado que proliferam as ideologias desumanizadoras, que no início se mostram inofensivas e até pueris no modo como se expressam e actuam, como se costuma dizer, falam terra-a-terra, acenam com a Terra prometida, de leite e mel, mas depois de tomarem o poder logo se revelam catastróficas para o nosso viver juntos em sociedade e para o indivíduo enquanto tal, instaurando um regime de perseguição arbitrária e de medo face ao outro diverso de nós.

René Girard em 2007, num colóquio em Paris: o desejo mimético na origem da violência humana. Foto © Vicq/ /Wikimedia Commons

É aqui se manifesta em plenitude essa “mentalidade tirânica latente” (Jan Patočka) que dobra os próprios regimes democráticos e alguns dos seus “ilustres” representantes sempre ávidos de exercício de poder arbitrário sobre os outros. Sobre isso, a filósofa Adela Cortina é bastante assertiva, quando, numa recente entrevista, afirma que “vincular a insegurança à imigração é uma moralidade intolerável”[4]. Não sendo isso um problema recente, não deixa de ser o nosso actualmente, dado que bodes expiatórios ou sacrifícios expiatórios sempre houve ao longo da humanidade, sendo mesmo isso, segundo a tese original do antropólogo René Girard, que está na origem da violência humana – o desejo mimético. O desejo do desejo do outro, neste caso, até o desejo daquilo que o outro não tem ou o pouco que tem.

Para se ter consciência dessa imoralidade que vincula uma coisa à outra, como causa-efeito, sem qualquer base de apoio racional e sociológico, é preciso que os seus ideólogos tenham alguma ideia do que significar ser um ser ético-moral. Se não têm, para além da educação familiar, talvez fosse imperioso recebê-la em âmbito escolar ou académico de especialização em estudos políticos. Toda a gente fala de “ética republicana”, mas muito poucos saberão o que isso significa ou implica efectivamente, sobretudo a classe política, da esquerda à direita, a quem um pouco mais de filosofia não faria mal nenhum. A ética e a sua racionalidade é o que mais se pressupõe na vida política, mas é também a menos sabida ou estudada (veja-se a lacuna irreparável da maior parte dos cursos do sistema universitário português, sem uma unidade curricular relativa à ética…).

No fundo, cada um actuaria de acordo com os princípios que recebeu no seu familiar, e já seria bastante se assim fosse, em alguns casos, mas isso não é suficiente para se compreender e interpretar a complexidade da realidade e do mundo global e a maneira como a realidade está interconectada. Para além dessa dimensão afectivo-familiar dos valores recebidos, é necessário perceber que há uma racionalidade nos comportamentos, atitudes e propósitos, um alcance ou horizonte que transcende o microcosmos onde nascemos ou vivemos. A ideia de Universidade é isso mesmo, aprender a ver a vastidão e a universalidade do mundo segundo uma certa racionalidade e plausibilidade, a não se fechar numa vivência paroquial da realidade, e aí experimentar, nessa abertura ao que nos chega e acontece, que nem somos o melhor povo do mundo nem o pior, mas que só somos aquilo que somos na coabitação e na presença de outros, dessa diferença que nos singulariza, e não a homologação de um identitarismo nacionalista que tudo uniformiza e seca ao seu redor como um eucalipto.

Estátua de Immanuel Kant (1724-1804) em frente à Universidade de Königsberg: o “pensa por ti” kantiano implica sempre dar o contributo individual para o bem universal de todos. Foto: Direitos reservados.

No que ao digital diz respeito, nomeadamente as redes sociais, não se defende aqui de modo algum um regresso à idade do ferro. Digamo-lo: Nem tudo vai mal nem tudo vai bem. Se tivermos consciência histórica facilmente perceberemos que não vivemos no pior dos mundos nem no “fim da história” ou no “choque de civilizações”. O que há hoje é uma liquidez das figuras institucionais e das fronteiras do poder, que tinha por base outrora, em sociedade mais rígidas e estratificadas, garantir a boa coexistência, não sem tirania e sem o exercício da violência para garantir a lei e a ordem, em detrimento das liberdades básicas individuais, que só eram permitidas no quadro estrito da comunidade.

Defende-se aqui uma educação exigente e universal capaz de dar as bases e os instrumentos de um pensamento crítico relativamente a tudo o que diz respeito à nossa existência. Defende-se aqui, isso sim, esse “ousa saber” (sapere aude!) horaciano, esse “pensa por ti” kantiano, na medida em que esse pensar implica e visa sempre dar o contributo individual para o bem universal de todos. “Pensa por ti” só é possível na medida em que se pensa com os outros e nos outros. Certamente que nem todos serão capazes disso, seria uma pura utopia pensar assim, pois haverá sempre elementos que, por diversos motivos e circunstâncias, pessoais ou culturais, não podem dar afectivamente o que não têm em si mesmos.

A humanidade no seu todo é demasiadamente ampla para que muitos outros possam contribuir para uma mudança real do estado de coisas. Mais do que um “New Deal”, precisamos sim de “Outras Luzes” que desmitifique e desmistifique vigorosamente o programa ideológico das “Novas Sombras”, não de intelectuais desafectados ou inafectivos que vivem na sua torre de marfim e debitam uns quantos mandamentos moralistas para os outros, mas de gente culta e lúcida que cultive humildemente, em si primeiramente e depois nos outros, o amor à verdade, ao justo e ao sublime, no seio de instituições plausíveis.

Para o filósofo dissidente checo Jan Patočka, morto às mãos do regime totalitário comunista, no seu livro “Platão e a Europa”, é a relação com o ser, que é dinâmico e a descobrir, que caracteriza a utopia europeia, bem mais que a dominação colonial ou o progresso tecnológico. É à diminuição ou ocultação da exigência de verdade que se mede o nosso declínio e não a perda da influência ou do poder da Europa no mundo. Se isso é verdade, essa relação com o ser não pode deixar ser também histórico-contextual, atendendo à realização do humano na sua concretude existencial (pois o ser tem necessidade de comer, de beber, de trabalhar, de lazer, de ler, de ver, de rezar ou de respirar…).

Filósofo checo Jan Patočka (1907-1977): “É a relação com o ser, que é dinâmico e a descobrir, que caracteriza a utopia europeia.” Foto: Direitos reservados.

Se se quer que a democracia tenha futuro, desde o presente, não é possível esquecer a emancipação material e cultural das classes populares, protegendo e estimulando o emprego e controlando o preço na saúde e na educação, com forte investimento nas infra-estruturas e no acesso aos bens culturais e educativos[5]. É preciso que as promessas da democracia se façam sentir concretamente, de modo estruturado, consistente e permanentemente, por forma a evitar a sua ocupação por formas políticas inautênticas. A melhor forma de desmascarar a suposta pureza moral destas formas radicalizadas ou ideologizadas de política inautêntica, é mostrar assertivamente que elas estão bem enraizadas no sistema que elas pretendem combater, descartando ao mesmo tempo o comportamento elitista de certos democratas que se consideram superiores culturalmente aos outros. Isso impede a democracia e os seus agentes de ver as coisas de modo diferente e a própria sociedade de um outro modo que não o do chauvinismo político-social de uma certa elite ou pseudo-elite.

Isso só será possível reinventando novas gramáticas existenciais e um novo paradigma educativo que seja capaz de suscitar, muito para além do desempenho e do sucesso escolar objectivo, o espanto, a beleza, a justiça, a fraternidade e a verdade. Como não recordar a actualidade do pensamento desse grande filósofo da ciência política que foi o americano Alexis de Tocqueville, que escrevia no seu livro Da Democracia na América: «Como ninguém difere dos seus semelhantes, ninguém poderá exercer um poder tirânico, pois, neste caso, os homens serão perfeitamente livres, porque serão de todo iguais; e serão perfeitamente iguais, porque serão de todo livres»[6].

Num tempo em que o carácter de tudo e de todos é posto à prova, em que há a percepção generalizada de não haver ninguém entre os humanos que escape aos vícios da corrupção, da desonestidade e da mentira, é mais do que necessário homens e mulheres lúcidos que, sabendo-se ignorante ou não possuindo a verdade, não deixam de procurar a excelência para si e para os outros, que procurem ver em cada ser humano, na diferença e singularidade de cada um, um contributo possível para a mudança de paradigma. Não só é desejável, como é possível, pois o que está em causa já não é o viver bem, mas a nossa própria sobrevida enquanto humanidade habitante deste planeta.

Les Aventures de la Dialectique, de Merleau-Ponty: “É através da acção consciente que poderemos alcançar o novo paradigma de um progresso humano e cosmológico ‘possíveis’.”

A emergência de pessoas com carácter e lucidez nas instituições e no espaço público, que visem não só o seu próprio bem, mas o bem-estar de todos, implica, não um grupo de sábios, mas um saber governativo colegial, aberto, autocrítico e actuante no seio das comunidades humanas. Implica que as instituições democráticas recuperam o seu vigor e a sua pertinência para serem na sociedade plataformas de sustentabilidade e de comunicações entre os indivíduos e os diversos agentes da acção política, educativa, cívica, cultural, religiosa, artística e científica.

Para Paul Ricoeur, “visar a vida boa com e para os outros, em instituições justas”, é o que é próprio das instituições político-culturais – a expressão do exercício de uma vida digna de ser vivida. Aqui reside, parece-me, o mais urgente do debate intelectual e civilizacional do nosso tempo, capaz de mobilizar o que há de melhor em nós para a realização dessa vida boa com os outros, seja qual for esse outro que nos habita, em instituições justas, abertas e autocríticas. Só quem não está seguro de si ou da sua própria identidade é que se fecha à possibilidade de habitar a alteridade e de lhe corresponder, fazendo do medo a emoção mais primitiva do seu actuar.

Aqui se abre também a possibilidade de uma nova forma de democracia, pós-liberal (nem liberal nem iliberal), “entre a indigência da direita e uma política comunista titubeante”[7], cujos contornos e figurações a definir filosoficamente (filosofia da instituição), como terceira via (uma outra ou nova democracia liberal, cuja raiz seja a fraternidade humana vivida e cosmológica) capaz de abrir uma fenda nos velhos sistemas de governança do mundo puramente já constituídos.

É preciso ter consciência de mesmo aqui as lutas políticas e os conflitos no seio da sociedade são insuperáveis, quer dizer, não há solução definitivas para as formas de vida e problemas da nossa vida societária em constante mudança. Sobra-nos a “irresolução absoluta”? Não, com certeza, mas a decisão vigorosa diante do espanto do mundo, a interrogação permanente e o exercício da liberdade que busca a génese de uma verdade que não é somente a nossa, de ser para algo e não somente a liberdade de ser isto ou aquilo, transcendendo assim a paralisia situacionista do efémero sem eternidade.

Ainda nos passos do filósofo Merleau-Ponty e dos seus escritos de filosofia política, diremos que é através de uma “acção que seja consciente e que se confronta com o julgamento de uma oposição”[8], a acção colegial da cidadania que é a expressão de uma “virtude sem qualquer resignação”[9], que poderemos alcançar esse novo paradigma ou via de um progresso humano e cosmológico “possíveis”. E muito para além dos grilhões da liberdade com que o canto da sereia do digital nos prendeu ao mastro do naufrágio. Trata-se, portanto, a defesa de um compromisso de natureza social, antes de ser de natureza política ou económica, na medida em que a “mutualidade das nossas relações constitui o melhor antídoto às relações de dominação”[10]. É este sentido social da nossa existência concreta que nos associa em relações de complementaridade, reciprocidade e cooperação aos outros que torna possível as condições de realização democrática de cada indivíduo.

Jean Moulin, herói da resistência francesa ao nazismo: ‘É preciso ousar ter coragem, não só para procurar a verdade, mas também para a fazer’. Foto: Direitos reservados.

Faz-se pertinente aqui o grito radiofónico de Thomas Mann, exilado nos EUA, em 27 de Junho de 1943, aos seus concidadãos alemães, sobretudo aos jovens da resistência, discurso tão actual quanto o foi outrora nos alvores do terro humano: “… que vós saibais e proclameis, agora que a noite cobre a Alemanha e a Europa, que “nasce uma nova fé, a fé na honra e na liberdade”[11]. É essa fé que não podemos perder na hora actual, tal como os nossos pais, outrora emigrantes ou exilados a salto, vislumbraram, no seu gesto de páscoa nova (de passagem e de promessa de um novo mundo), um novo futuro para nós, seus filhos e filhas, herdeiros de uma promessa de vida forjada a sangue e a suor. É nesta fé perceptiva, neste milagre da razão sensível e poética, que pede uma resposta às interpelações do mundo, da vida e do outrora na sua radical desnudez, que se joga também o contributo da experiência religiosa ou crente, em particular a cosmovisão hebraico-cristã, que procuraremos desvelar no próximo artigo, tendo por base o contributo da sociologia filosófica de Hartmut Rosa.

Parafraseando Jean Moulin, esse grande herói da resistência francesa à invasão hitleriana em França, que repousa no Panteão Nacional, desde 1964, em Paris: ‘É preciso ousar ter coragem, não só para procurar a verdade, mas também para a fazer’. Pois, nem mais nem menos, uma verdade não realizada, é uma verdade simplesmente não dita ou escondida, e essa verdade sempre a fazer-se é, por sinal e na sua essência, uma verdade iminentemente dialógica ou comunicativa, nunca sem os outros e a sua erradicável diferença. Mais uma vez ressoa a máxima de Kant, “ousa saber”, por ti, em carne e osso, no contacto com realidade vivida, e não somente pelas redes do virtual descarnado e impessoal, nunca sem os outros. Pois, o saber é o caminho da sabedoria para um agir comum, para um “fazer juntos” a gaia ciência deste mundo.

 

 

Notas

[1] W. B. Yeats, Quarante-cinq poèmes, suivi de La Résurrection, Nrf/Gallimard, Paris, 1993, p. 200.
[2] Para um aprofundamento filosófico-antropológico desta questão, ver a excelente monografia colectiva: «L’animal politique», in Revue Épokhè 6, Editions Jérôme Millon, Grenoble, 1996.
[3] Para o efeito, veja-se o excelente artigo “Fugir do X”, de Eduardo Jorge Madureira, in jornal digital 7Margens, 23 de Janeiro de 2025 (https://setemargens.com/fugir-do-x/): «Como Monique Canto-Sperber constata, certos pontos de vista tornam-se hegemónicos, enquanto as refutações e rectificações são inaudíveis. “Já não há um ‘livre mercado de ideias’, para usar a expressão do filósofo John Stuart Mill, e a liberdade de expressão é dissolvida na viralidade do falatório”.» Na verdade, se nos alvores da modernidade se procedeu a uma desmitologização histórico-crítica e existencial dos temas centrais da fé cristã (Alfred Loisy, Rudolph Bultmann…), impõe-se hoje também uma desmistificação e desmitologização da “religião” tecnológico-digital e dos seus múltiplos avatares (Michel Foucault, Jean Baudrillard, Byung-Chul Han…).
[4] Adela Cortina, «Entrevista», in Público (P2), 12 de Janeiro de 2025, p. 19.
[5] Cf. Lucas Chancel (professor na Sciences Po, no Centro de Investigação sobre as desigualdades socais e do departamento de economia), in Le Monde, 25 de Janeiro de 2024, p. 26. No mesmo sentido, ver a entrevista de Joseph Stiglitz, prémio Novel da Economia, na France Culture, intitulada: “Joseph Stiglitz em guerra com o libertarianismo” (https://www.radiofrance.fr/franceculture/podcasts/france-culture-va-plus-loin-l-invite-e-des-matins/joseph-stiglitz-en-guerre-contre-le-libertarisme-3370725), no contexto da sua memorável conferência na Universidade Sorbonne (Paris), no passado dia 23 de Janeiro.
[6] Alexander de Tocqueville, Da Democracia na América, Relógio d’Água, Lisboa, 2008.
[7] Maurice Merleau-Ponty, Signes, Folio essais, Paris, 2001, p. 556.
[8] Maurice Merleau-Ponty, Les aventures de la dialectique [1955], Tel-Gallimard, Paris, 2024, pp. 303-305.
[9] Maurice Merleau-Ponty, Signes, p. 47.
[10] Franck Fischbach, Faire ensemble. Reconstruction sociale et sortie du capitalisme, Seuil, Paris, 2024.
[11] Thomas Mann, «Discours de Thomas Mann: “Vous ne serez pas morts en vain !”», in André Malraux, Entre ici, Jean Moulin, Éditions Points, Paris, 2010, p. 50.

 

João Paulo Costa é presbítero católico e investigador em filosofia no CECH da Universidade de Coimbra. Autor de Indícios – à escuta dos traços de Deus (UCP editora, 2016) e de À Sombra do Invisível – fragmentos de um crer sapiencial (Documenta/Sistema Solar, 2020).

 

(Imagem de destaque: Rafael, A Escola de Atenas, Museu do Vaticano)

 

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