Política e informação ao nível da sarjeta em matéria religiosa

| 3 Nov 2021

Hoje é moda o ataque descabelado à religião, tanto por parte de alguns políticos, em nome de determinadas agendas, como de jornalistas – mas estes, regra geral, em nome da ignorância e incompetência.

Jornalismo. Notícias falsas

“Já estamos habituados a más práticas jornalísticas e sobretudo a uma profunda ignorância sobre o fenómeno religioso, que leva repetidamente alguns profissionais a ‘escrever no escuro’.” Foto © Nijwam Swargiary /Unsplash

 

Um deputado bolsonarista insultou há dias durante uma sessão plenária da Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), de forma inaceitável e soez, o Papa Francisco e o arcebispo de Aparecida (SP), D. Orlando Brandes, por razões políticas, chamando-lhes “pedófilos”, “safados” e “vagabundos”. O alucinado parlamentar classificou ainda os bispos como “gentalha” e acusou-os de proselitismo político.

O que aparentemente terá levado o indivíduo à ira foi o apelo do clérigo católico ao desarmamento e a frase proferida durante a homilia da missa realizada dias antes: “Para ser Pátria amada não pode ser pátria armada. Que seja uma Pátria sem ódio, uma República sem mentira e sem fake news”, reafirmando depois a importância da vacinação contra a covid-19 e defendendo a ciência.

Como se não bastasse, o deputado caluniador reconheceu mais tarde que se tinha excedido nas palavras, em particular nos insultos dirigidos ao Papa; todavia, a razão invocada não foi por ser um líder religioso, chefe espiritual de milhões de católicos no Brasil e em todo o mundo, mas apenas por ser chefe de Estado. Ou seja, o problema dele é diplomático, tendo em conta possíveis dificuldades criadas ao Governo que ele mesmo apoia, e não o reconhecimento da falta de educação, da afronta a boa parte da população brasileira e sobretudo na indignidade do seu comportamento que lhe retira legitimidade moral para continuar a sentar-se num órgão de soberania do estado de São Paulo.

É claro que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dirigiu entretanto uma carta à ALESP em que repudia o discurso insultuoso e caluniador do deputado e exige uma resposta rápida: “Defensora e comprometida com o Estado Democrático de Direito, a CNBB, respeitosamente, espera dessa egrégia Casa Legislativa, confiando na sua credibilidade, medidas internas eficazes, legais e regimentais, para que esse ultrajante desrespeito seja reparado em proporção à sua gravidade – sinal de compromisso inarredável com a construção de uma sociedade democrática e civilizada. A CNBB aguarda uma resposta rápida de vossa excelência – postura exemplar e inspiradora para todas as Casas Legislativas, instâncias judiciárias e demais segmentos para que a sociedade brasileira não seja sacrificada e nem prisioneira de mentes medíocres”. O presidente da CNBB anunciou que pretende fazer com que o parlamentar responda judicialmente por suas lastimáveis declarações.

Hoje é moda o ataque descabelado à religião, tanto por parte de alguns políticos, em nome de determinadas agendas, como de jornalistas – mas estes, regra geral, em nome da ignorância e incompetência.

Um caso recentemente passado em Portugal ilustra bem esta segunda afirmação. Uma estação de televisão generalista em Portugal, num dos seus programas, relatou o caso duma família que terá contratado um empreiteiro brasileiro para reconstruir uma casa. Segundo este casal o tal empreiteiro vigarizou-os em milhares de euros e perderam-lhe o rasto sem conseguirem reaver o dinheiro ou ver as obras acabadas. Segundo o mesmo casal este empreiteiro seria também pastor evangélico e co-fundador de uma igreja evangélica no Porto. Acontece que a referida comunidade cristã terá sido inaugurada em 1998 por um pastor já falecido; todavia, o dito empreiteiro apenas frequentou aquela comunidade religiosa durante uns meses mas não foi um dos fundadores e muito menos pastor de qualquer igreja.

O que fez o jornalista e a informação daquele canal? Não se deu ao trabalho de confirmar a informação, difundindo assim uma notícia falsa (no que à condição religiosa do empreiteiro diz respeito), contribuindo assim para pôr em causa a imagem daquela igreja, que merece respeito e tem o direito de não ver o seu bom nome difamado.

Já estamos habituados a más práticas jornalísticas e sobretudo a uma profunda ignorância sobre o fenómeno religioso, que leva repetidamente alguns profissionais da informação a “escrever no escuro” por falta de boas práticas. Custava muito exercer o contraditório ouvindo aquela comunidade religiosa ou, eventualmente, contactar a Aliança Evangélica Portuguesa onde a mesma será filiada?

Será que o velho princípio de perguntar primeiro e disparar depois está agora virado ao contrário? Ou estamos mesmo ao nível da sarjeta?

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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