Com o fundo da guerra na Ucrânia e em Gaza

Político francês alerta para cinco riscos no mundo atual

| 18 Mar 2024

Dominique de Villepin

Foto: Dominique de Villepin © Georges Seguin (Okki) / Wikimedia Commons

 

Num mundo em risco, em que a clarividência e a sabedoria podem ser decisivas, torna-se relevante prestar atenção a quem alerta para os problemas que transcendem a ‘espuma dos dias’. Neste caso, trata-se do diplomata francês Dominique de Villepin, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros e primeiro ministro, na altura de Jacques Chirac, a apontar cinco riscos que, segundo ele o mundo atual enfrenta e que condicionam as decisões que se venham a tomar.

Os comentários foram feitos há dias no canal noticioso francês LCI, do grupo TF1, e surgiram no quadro da polémica desencadeada pelo presidente Macron sobre a eventual necessidade de colocar forças terrestres na Ucrânia.

Segundo Villepin, o debate sobre tal eventual medida, para ser útil, exigiria que, previamente, se respondesse a cinco questões, associadas à mudança que ocorreria se ocorresse a colocação de tropas terrestres em combate.

A primeira é o “alargamento do conflito”, que decorreria da solidariedade de um bom número de países que apoiam a Rússia. “Se enviássemos tropas terrestres, explica aquele antigo responsável político, será que sabemos se outros países, do lado russo, não irão enviar também tropas terrestres? Será que iríamos ter combatentes africanos, asiáticos, do Médio Oriente desse ‘sul global’ que também quer ajustar contas com o Ocidente?”.

A segunda grande questão é o “risco de abertura novas frentes”. Dominique de Villepin recorda ter sido um dos raros a alertar para ele, tendo, entretanto, sido aberta a frente de Gaza no Médio Oriente, podendo verificar-se ainda outras frentes – na Coreia, em África… “Então será que vamos fazer a guerra nos cinco continentes? O mundo não se reduz ao drama e à tragédia da Ucrânia”, alerta.

O terrorismo é apontado como o terceiro grande risco; não propriamente o terrorismo que poderia advir dos adversários na Ucrânia, mas do que chamou “um terrorismo oportunista”. “Quando há uma desordem deste tipo, não se preparou para um ano de guerra, mas para um ano de festa. “

Dentro de alguns meses, explica, a França irá comemorar o 80º aniversário do desembarque da Normandia, evento para o qual vão chegar delegações do mundo inteiro, enquanto, por outro lado, vários meses serão dedicados a celebrar os Jogos Olímpicos. “Talvez se devesse ter feito um pouco mais. Não vejo nada sobre a economia de guerra; não estou a ver preparação das pessoas para a defesa civil e para a guerra híbrida”. E aludindo ao debate desencadeado por Macron, juntou: “Não se tira como um coelho da cartola a ideia de entrar em guerra na Ucrânia sem qualquer tipo de preparação”.

O quarto problema relaciona-se com a eleição para presidente dos Estados Unidos da América, que “decidirá a nova ordem mundial”. “É seguro apostar que vamos passar por um período de isolacionismo e de protecionismo como nunca o mundo conheceu. Ou mesmo a rutura desta nova ordem mundial entre Trump e uma China que acaba de celebrar a reunião do seu parlamento e que se fecha e investe ainda mais na sua segurança. Trata-se de um contexto global que deve ser tido em conta”, acredita o político.

O último ponto é, para Villepin “talvez um dos mais importantes”: o risco nuclear. Em termos de dissuasão, enviar tropas terrestres colocaria a França [e outros países que com ela alinhassem] numa situação “nunca vista até hoje”, já que, em 40 anos de guerra fria, “nunca as forças do Pacto de Varsóvia e da NATO se defrontaram”. O comentador explica: “isso não foi por acaso; ficou a dever-se a uma gramática do nuclear”, cuja “regra da dissuasão” se baseia no “princípio da destruição mútua assegurada”, ou seja: “se uma patrte recorrer à bomba o outro responde e, no fim, morremos todos”.

Segundo esta “gramática”, “tropas terrestres da NATO na Ucrânia significam um risco que para potências responsáveis é inaceitável”. Mas o antigo responsável vai mais longe ao chamar a atenção para mudanças que têm ocorrido os últimos dez a quinze anos, que levam a que aquilo que então pareceria impensável seja hoje visto com outros olhos. “A retórica do inimigo, o ódio pelo outro desenvolveu-se de tal modo” que pode haver quem queira aproveitar para fazer um “acerto de contas”.

“Há uma regra a tirar de tudo isto. É que a lógica da força, quando não é controlada, conduz a uma escalada que pode ser fatal. E é isso que torna a situação na Ucrânia um perigo real. E essa é a razão pela qual este princípio eu o aplicaria também à situação em Gaza. É por isso que a atual política de Israel em Gaza constitui um perigo real, já que não há um controlo sobre o uso da força”, observou Dominique de Villepin.

 

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