Estados Unidos

Políticos em campanha instrumentalizam imigrantes

| 18 Set 2022

Manifestação a favor da imigração nos EUA. Foto © Nitish Meena | Unsplash

Manifestação a favor da imigração nos EUA: o jogo político adquiriu uma nova face. Foto © Nitish Meena | Unsplash

 

Os migrantes que, dos países da América Central, demandam os Estados Unidos da América (EUA) em busca de uma vida melhor estão, nestes dias, a ser objeto de instrumentalização por parte de governadores estaduais que procuram, desse modo, conquistar votos dos seus eleitorados. A Igreja Católica que, esta segunda-feira, 19, inicia uma semana dedicada precisamente às migrações e aos migrantes, procura mobilizar as comunidades cristãs, procurando apoiá-los em mais esta adversidade.

Mas com atitudes substancialmente diferentes.

O jornal The Washington Post apresentava neste sábado, 17, o caso de Israel Garcia que, depois de peripécias sem conta, desde a Venezuela até à fronteira sul dos EUA, teve a garantia de poder manter-se no país, num abrigo no estado do Texas, até que os serviços federais da imigração decidissem o seu destino. Na última semana, apesar de os agentes de segurança lhe lembrarem que não podia trabalhar, outro tipo de agentes, que trabalhavam provavelmente a soldo do governador que está em campanha eleitoral pela manutenção do lugar, aproximaram-se dele, oferecendo bilhete de avião gratuito para Washington, além de moradia e emprego.

Como se costuma dizer, quando “a esmola é grande, o pobre desconfia” e Israel García, carpinteiro de 27 anos, desconfiou do que lhe prometiam e recusou a oferta, apesar de ela se ajustar como uma luva àquilo que desejava.

Mas, nas últimas semanas, têm-se multiplicado denúncias de líderes de imigrantes e de ativistas, de que angariadores de migrantes têm andado a oferecer “paraísos” noutras partes do país. Ao mesmo tempo, tornou-se público que os governadores republicanos da Florida e do Texas têm enviado para o estado de Massachusetts e para Washington aviões e autocarros carregados de imigrantes. O argumento é este: a pressão vinda do lado do México é grande; os imigrantes nos estados de fronteira já são excessivos; o Governo federal não resolve o problema; então, que sejam os estados que apoiam o Presidente Biden a partilhar a situação.

 

Migrantes despejados frente à casa da vice-presidente

No caso da Florida, o governador DeSantis, que tem também o lugar em disputa nas eleições que se aproximam, disse ao Washington Post que, no abrigo que tem disponível, há lugar para 700 pessoas, mas já foram atendidas 24 mil, desde que abriu em julho.

Face às denúncias de angariadores de migrantes para irem para os autocarros e aviões, mandou colocar alertas para o risco de tráfico humano, praticado por terceiros. Mas o responsável de uma organização católica de assistência que tem estado a fornecer alimentos, vestuário e outros apoios, queixa-se de que há, de facto, pessoas não identificadas a recrutar ilegalmente.

Cada um dos que chegam a estes destinos imprevistos são confrontados com o abandono, uma mão-cheia de nada e um risco maior de serem expulsos sem audição prévia.

Os responsáveis estaduais estão a demarcar-se de grande parte destas transferências, mas a verdade é que são públicas e assumidas muitas delas. A mensagem político-partidária vai ao ponto de, segundo The Washington Post, um autocarro ter despejado este sábado, cerca de 50 migrantes, incluindo um bebé de um mês, a maior parte deles oriundos da Venezuela, em frente à residência da vice-presidente dos EUA, Kamala Harris.

No mesmo dia, o governador do Texas, Grego Abbot, enviou três outros autocarros de imigrantes para Nova Iorque.

 

Dois arcebispos, dois posicionamentos
O Cardeal Timothy Dolan reforçou a necessidade de ajudar os imigrantes, mas recusou leituras políticas. Foto © Hudson Institute

O Cardeal Timothy Dolan reforçou a necessidade de ajudar os imigrantes, mas recusou leituras políticas. Foto © Hudson Institute

 

Foi precisamente em Nova Iorque que o arcebispo, cardeal Thimothy Dolan, se quis encontrar com alguns dos migrantes despachados por Abbot, dizendo que a perspetiva católica é “vê-los com os olhos de Jesus”, citando aos jornalistas com quem falou na última sexta-feira, as palavras evangélicas “tive fome e deste-me de comer…era estrangeiro e acolheste-me”.

Mas, de acordo com a revista católica America, dos jesuítas, depois de, nas últimas semanas, cerca de 6.000 migrantes terem chegado a Nova Iorque em autocarros, o cardeal fez questão de evitar uma leitura política da situação.

“A nossa perspetiva não é a perspetiva política” que outros podem ter sobre o que levou um grande número de solicitantes de refúgio de dezenas de países a entrar nos Estados Unidos a partir do México, disse ele, citado pela revista. “A nossa perspetiva é ajudá-los… (com) um sentido de honra de que somos capazes de ajudar essas pessoas em quem vemos a face de Deus.”

Já o arcebispo de Miami, Thomas Wenski, considerou “desconcertantes” os relatos de envolvimento da Flórida no transporte por avião de migrantes para Martha’s Vineyard, em Massachusetts. “Qualquer ação para transportar pessoas sob falsos pretextos e deixá-las presas sem assistência seria diminuir a sua dignidade humana e objetificá-las” – denunciou ele, num comunicado.

Indo em sentido diferente do arcebispo Dolan, acrescentou que “a imigração não é apenas uma questão política, mas uma questão humana e moral fundamental. Pois os imigrantes não são números sem rosto – mas seres humanos. Eles são nossos irmãos e irmãs”, vincou. “O nosso sistema de imigração desintegrado é um problema, mas os imigrantes não são ‘problema’. Os imigrantes têm sido bons para a América, e a América tem sido boa para eles.”

Admitindo que o tema da imigração e o modo como os EUA lhe devem responder possam ser objeto de discordâncias, o arcebispo de Miami é contundente: “a imigração é mais do que uma questão de ‘segurança de fronteira’. A justiça e a prudência exigem que os tratemos com dignidade e encontremos um meio razoável para que suas contribuições e presença sejam reconhecidas dentro da lei”.

O vigor da posição de Thomas Wenski tem certamente como destinatário antes de mais, o governador do estado a que pertence, também por outra razão. Como explica, com ironia, Jonathan Merritt, na sua coluna no Religion News Service, o governador DeSantis “gosta, na campanha, de fazer o papel de um cristão orgulhoso, que cita versículos da Bíblia em discursos de lugares-comuns. Mas, aparentemente, quando se trata dos repetidos mandamentos da Bíblia como ‘não maltrates ou oprimas o imigrante’, ele está disposto a fazer algumas concessões”.

“Mas quem o pode culpar disso?”, pergunta o colunista. “É difícil para um político seguir a moral do cristianismo e, ao mesmo tempo, ganhar eleições”.

 

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