Pontes para o divino- Calendário Litúrgico Ortodoxo

| 27 Set 2023

“Para alguns, seguir o calendário, é uma prática espiritual significativa, num tempo revelado como uma hypostase (duas naturezas, divina e humana, que não se confundem), em que os fieis fazem pontes alterando os seus ritmos de vida e locais de celebração.” Ilustração © Alberto Teixeira

 

No Cristianismo o calendário litúrgico é uma importante ferramenta para organizar e estruturar os acontecimentos e celebrações religiosas ao longo do ano, com base em episódios significativos dos Evangelhos, dos santos e da história das igrejas locais e universais.

Na ortodoxia o ano litúrgico inicia-se a 1 de Setembro, tendo como primeira festa, a 8 do mesmo mês, a Natividade da Virgem Maria (“Esta comemoração é como uma fonte para celebrar todas as festas do Senhor abrindo a história do Evangelho”, diz o Metropolita Epifânio).

O calendário litúrgico desempenha vários papeis nas tradições religiosas:

Memória e comemoração, para ajudar os fieis a recordarem e celebrarem acontecimentos e figuras religiosas importantes;

Ensino, como ferramenta educativa sobre histórias e princípios centrais da sua fé;

Unificação da comunidade, observando as mesmas festas, em torno das quais se fomenta a comunhão espiritual;

Ponte com o divino, como uma forma de ligação que proporciona sensação de transcendência e proximidade com Deus.

No entanto, essa ponte com o divino, pode variar de pessoa para pessoa, quer pelo seu empenhamento ao longo do ano, ou devoção particular.

Para alguns, seguir o calendário, é uma prática espiritual significativa, num tempo revelado como uma hipostase (duas naturezas, divina e humana, que não se confundem), em que os fieis fazem pontes alterando os seus ritmos de vida e locais de celebração.

Os cristão seguem a tradição recebida do judaísmo, que divide o ano solar em ciclos litúrgicos, que se dividem em períodos, sobre festas fixas às quais se sobrepõem festas móveis.

Também recebemos do judaísmo a tradição de dois calendários, civil e religioso, iniciando-se este último na primavera, com Nissan (23 de Março em 2023) como o primeiro dos meses do ano prescrito a Moisés e Aarão (Ex 12:) quando germina a cevada; Enquanto que o civil se inicia ao pôr do sol de 29 de Elul para 1 de Tishrei (este ano, de 15 para 16 de Setembro em 2023), festejando-se Rosh Hashaná, o aniversário do universo.

Nas diversas tradições hebraicas, a actualmente dominante considera que Rosh Hashaná (Génesis 1:14, Números 10:10, Ezequiel 40:1) é efectivamente o novo ano eclesiástico.

Da tradição judaica recebemos a importância de preservar para o primeiro dia do ano a necessidade de uma profunda reflexão sobre a nossa vida, dando lugar ao arrependimento sincero.

O Novo Testamento não tem referência específica a Ano Novo, mas para o apóstolo Paulo é central na sua doutrina a necessidade de arrependimento e reconciliação com Deus para encontrar o Homem Novo, que se enquadra muito bem neste tempo.

As primeiras comunidades de cristãos organizaram o seu tempo de acordo com as tradições recebidas, com os costumes locais e o poder eclesiástico e civil, que levaram ao I Concílio Ecuménico (Niceia, 325) a necessidade de fixação de data comum para o pilar basilar do cristianismo: A Páscoa e a Ressurreição do Senhor. Também foi neste Concílio que ficou determinada a mudança do dia santo semanal de Sábado para Domingo.

Naquele Concílio ficou determinado que a Páscoa se celebraria sempre no Domingo que se segue à lua cheia do equinócio da primavera no Oriente, isto é, depois do dia 21 de março e sempre após a Páscoa judaica.

Na Igreja Católica Romana, vigora entretanto a decisão do Concílio de Trento (1545), sob os auspícios de Gregório XIII, passando a Páscoa a ser celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia que ocorre depois do equinócio da Primavera (no hemisfério norte, outono no hemisfério sul) e o início do ano eclesiástico com o primeiro Domingo do Advento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A diferença de método de cálculo afasta por vezes as datas de celebração da mais importante festa do cristianismo que é a Ressurreição do Senhor.

Na altura de Niceia (século IV) foi compilado em Roma, por Fúrio Dionísio Filocalo ( não confundir com a Filocália, de Orígenes), um calígrafo que escreveu e ilustrou o que poderá ser a primeira tentativa documentada de organizar as festas cristãs ao longo do ano.

A Eusébio de Cesareia (ca 265 a 339), conhecido historiador da Igreja dos primeiros séculos, não é conhecida a elaboração de nenhum calendário, ainda que mencione muitas datas das festas cristãs, a evolução das práticas e tradições litúrgicas em várias comunidades ao longo do tempo, que permitiria elaborar um calendário rudimentar.

No século IV, o ano solar era estruturado segundo um calendário introduzido por Júlio César no ano 46 AC, que a maioria dos estados europeus utilizou civilmente até à reforma gregoriana.

As Igrejas ortodoxas têm-se mantido no calendário juliano até que em 1923, no Sínodo de Constantinopla, essa prática foi alterada, dando lugar ao calendário juliano novo, conforme os estudos do sábio servo Militan Milokovic.

Este calendário, fundado sobre o calendário juliano e gregoriano, tem como objectivo provisório restabelecer correspondências de datas entre os dois calendários.

Naquele sínodo, não estiveram representadas algumas igrejas, como o Patriarcado de Moscovo, que não comungam da aproximação entre cristãos proposta por Constantinopla e se têm mantido distantes sobre este assunto.

A recente decisão da Igreja Ortodoxa da Ucrânia (OCU) em aderir ao calendário juliano novo tem sido, de forma ignorante, alvo de alguns comentários, de quem pouco ou nada sabe sobre o assunto, e a justificou apenas com uma decisão política, quando tal calendário já é seguido por muitas igrejas ortodoxas, pelo menos desde o referido sínodo de 1923.

Para os fiéis ucranianos esta novidade eclesiástica tem um “profundo significado simbólico e espiritual, porque neste dia o Senhor começou a pregação do Reino de Deus, testemunhando o cumprimento das profecias do Antigo Testamento com a vinda do Messias, sobre o fim do Antigo e início do Novo Testamento, deixando uma vida pecaminosa e começar uma nova vida. Ficando reservado o direito das paróquias e mosteiros, que o desejarem, utilizar o calendário juliano, sem coerção e calma razoável, dando oportunidade a todos de aceitar mudanças”. (Metropolita Epifânio, Kiyv 31 de agosto de 2023)

Neste calendário juliano novo, as datas poderão ter uma diferença de 13 dias, como por exemplo a Festa da Natividade de Maria, continua a ser celebrada a 8 de Setembro do tempo civil e não a 21 (8 do calendário juliano).

O Natal ou Natividade do Senhor também coincide com o dia 25 de Dezembro do tempo civil (calendário gregoriano).

A Páscoa e Ressurreição do Senhor serão comemorados em 2024 no dia 5 de Maio, respectivamente; no calendário juliano será no mesmo dia e no calendário gregoriano no dia 31 de Março.

Muitas Igrejas Ortodoxas locais já praticam o calendário gregoriano e por outro lado há Igrejas de rito bizantino mas em comunhão com Roma que seguem o calendário novo juliano.

Algumas das mais conhecidas nesse ciclo juliano novo, sãoPatriarcado Ecuménico de Constantinopla, o Patriarcado de Alexandria, o Patriarcado de Antioquia, as Igrejas da Grécia, Chipre, Roménia, Polónia, Bulgária, Ucrânia e Greco-Católica (unida a Roma).

 

Alberto Teixeira é cristão ortodoxo

 

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