AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Assembleia Sínodo dos Bispos, outubro 2024. Foto Clara Raimundo

Análise

Pontos a considerar para construir uma Igreja Católica sinodal em Portugal

| 01/01/2025

Assembleia Sínodo dos Bispos, outubro 2024. Foto Clara Raimundo

Assembleia Sínodo dos Bispos, outubro 2024. Foto © Clara Raimundo

 

O ano de 2024 foi o culminar do processo sinodal lançado em outubro de 2021. Depois de muitas pessoas terem sido escutadas e levantado a sua voz numa Igreja Católica que, historicamente, tem sido pródiga em falar e julgar, mas comedida ou até incomodada com a escuta, foram muitos os pontos críticos levantados, e também reconhecidas áreas em que ela tem sido testemunha do Evangelho. Chegou a hora de tomar decisões, em sintonia com as restantes Igrejas.

O que virá a ser uma Igreja Sinodal? Quem se dispõe a pôr os pés ao caminho para lhe dar coração e rosto? Como pode o Documento Final do Sínodo orientar os passos a dar? Eis algumas perguntas que, ao fim de um ano que culminou um percurso de mais de três anos, podemos fazer. Neste texto, pretendo propor aos leitores do 7MARGENS alguns tópicos que, assentes no caminho que a Igreja Católica percorreu em 2024, contribuam para a concretização de uma Igreja Sinodal entre nós. São sete os pontos aqui considerados:

 

  1. Temos a dádiva de contar com um Papa que, apesar dos seus 88 anos, continua com inspiração e energia para inquietar e desafiar os cristãos e todas as pessoas de boa vontade. E também para surpreender, como aconteceu no fim das votações de cada um dos parágrafos do Documento Final, ao fim daquele dia 26 de outubro que marcou o fim da segunda sessão do Sínodo. Depois de ter acompanhado de perto todo o processo, Francisco pede a palavra para anunciar que aquilo que o Espírito Santo inspirou aos delegados sinodais era por ele assumido e passaria a valer como documento oficial para toda a Igreja. Não deveríamos esperar a habitual exortação papal, que decidia o que, dos pontos aprovados, seria para levar em conta. Isso quer dizer, traduzido em miúdos, que o Papa Francisco assume mesmo a circularidade da escuta, do discernimento e da tomada de decisão. Roma continua e continuará a falar, assim como os bispos, mas é doravante assumido que há outros caminhos para a enunciação dessa palavra, a partir do caminhar do povo de Deus, sem que isso seja visto como perigo para a comunhão e a unidade.

 

  1. Importante, a meu ver, é o repto que a todos lançou o Papa – sempre ele – nessas palavras de encerramento. A dado passo, ele recita o fragmento de um poema da “mística das periferias”, Madeleine Delbrêl, que é uma denuncia da rigidez – “pecado que tantas vezes afeta clérigos, consagrados e consagradas” – e um apelo a viver a vida “como uma festa sem fim em que se renove o encontro contigo /como um baile, /como uma dança, /entre os braços da tua graça, /na música universal do amor”. E tem esta chamada de atenção: “Neste tempo de guerras, devemos ser testemunhas da paz, aprendendo também a dar forma real ao convívio das diferenças.”

 

  1. Esta aprendizagem da convivência das diferenças e das diversidades, que já tinha merecido uma referência destacada nos números 10 e 11 do Instrumentum Laboris, surge, no documento final, logo desde o primeiro parágrafo, sublinhado em diferentes momentos, mas com especial foco no ponto “A unidade como harmonia” (números 34-42). Apesar de as comunidades e as igrejas se pautarem pela diversidade de situações, de contextos e de experiências, há uma tendência a uniformizar tudo, tornando homogéneo e até idealizando aquilo que é diverso. Acontece que se a realidade fosse uniforme, a escuta não seria necessária.

 

  1. É também nesta linha que pode ser entendido outro aspeto que representa uma inovação deste Sínodo católico sobre a sinodalidade: o que o documento final propõe não são normas a aplicar qualquer que seja a realidade local. Na concretização daquilo que o Sínodo aprovou, pode haver uma pluralidade de caminhos. Não há um modo único de agir e de proceder, porque as realidades não são todas iguais. Todos e todas podem olhar para a realidade da sua paróquia, do seu grupo, da sua diocese, do seu movimento e ver o que fazer e como fazer para que a Igreja Católica responda ao desafio que Francisco lançou a todos os batizados, na celebração de encerramento do Sínodo: como está a (ou irá) ser acolhido o grito do pobre?

 

  1. Claro que há uma tarefa urgente para criar dinâmicas de concretização daquilo que a Igreja Católica pede: é pegar no Documento Final do Sínodo e procurar lê-lo ou mesmo relê-lo. Ele requer algum tempo para a leitura individual e em grupo. Infelizmente, não temos conhecimento de muitas iniciativas ou mesmo campanhas para dar a conhecer e ajudar a refletir sobre um documento tão importante, depois de votado pelos representantes de toda a Igreja e homologado pelo Papa. Será preciso dizer que ninguém precisa de autorização para essa leitura ou para desafiar interessados em conhecer e refletir sobre esse texto?

 

  1. Deve dizer-se que pôr em marcha e no concreto algumas dimensões da sinodalidade é tarefa prioritária e urgente. Mas estão ainda pendentes outros assuntos de grande importância, que o Papa, para permitir que o trabalho sobre a sinodalidade fosse levado a bom porto, entendeu atribuir a dez grupos de estudo que, operando em espírito sinodal, deverão entregar os resultados até 25 de junho deste ano. Questões como o papel das mulheres na Igreja e os ministérios ordenados, ecumenismo, questões doutrinais, pastorais e éticas controversas, formação do clero e sinodalidade, o papel dos bispos, entre outras, constituem a agenda daqueles grupos. Como é próprio do processo sinodal, as instituições, grupos e comunidades e membros individuais da Igreja podem enviar contributos para grupos específicos, através da secretaria geral do Sínodo, no Vaticano. Estas matérias surgiram da primeira fase de auscultação do povo de Deus e deixaram vários setores inquietos e mesmo desagradados pelo facto de elas terem sido retiradas da agenda da segunda sessão da assembleia do Sínodo.

 

  1. Como se sabe, na sua assembleia de novembro, a Conferência Episcopal Portuguesa decidiu dedicar espaço ao processo sinodal na sua próxima reunião da primavera e convocou para o próximo dia 11 de janeiro, em Fátima, um encontro de conselhos diocesanos de pastoral e equipas de coordenação sinodal para refletir sobre a concretização de uma Igreja sinodal em Portugal. Ainda que uma reunião desta natureza não se destine a tomar decisões que envolvam as dioceses, servirá possivelmente para partilhar o que cada uma está a (pensar) fazer e debater um ou outro ponto. Matérias não lhe faltam e, de entre elas, os processos de tomada de decisão na vida das paróquias e comunidades e a transparência e prestação de contas. Não deveria ser esquecida uma ampla divulgação do Documento Final e tradução e publicitação da Nota do Papa para acompanhar aquele Documento, datada de 25 de novembro e disponível apenas em inglês e italiano. Vai ser interessante ver se os bispos estarão todos presentes neste encontro.

 

Seria importante que, nestes processos, não fosse esquecido que todos devem ser chamados a dar o seu contributo e não apenas aqueles setores que dizem o que os bispos e seus colaboradores gostam de ouvir e ver. Também não se deveria perder de vista que a Igreja Católica reafirma em permanência que existe não para si mesma, mas para anunciar a Boa Nova do Evangelho e fazer caminho com todos quantos buscam um mundo mais justo e fraterno.

 

 

Marcos cronológicos do processo sinodal em 2024 

Janeiro – Desde 12 de dezembro que decorre uma segunda fase de auscultação das igrejas locais, sob o mote “Como ser uma Igreja sinodal em missão”, tendo como referência o documento-síntese da primeira sessão do Sínodo universal.

17 de fevereiro – O Papa decide criar dez grupos de estudo para aprofundar, em dinâmica sinodal, outros tantos temas surgidos na primeira sessão do Sínodo mundial sobre a Sinodalidade, em resposta a um pedido formal dos membros da primeira assembleia do Sínodo.

14 de março – Entrada em funções dos dez grupos de estudo, enquanto é divulgada uma carta do Papa ao cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo, em que são dadas orientações para o lançamento e operacionalização dos grupos, definindo a temática de cada grupo:

1) Alguns aspetos das relações entre as Igrejas Católicas Orientais e a Igreja Latina; 2) A escuta do clamor dos pobres; 3) A missão no ambiente digital; 4) A revisão da Ratio Fundamentalis relativa à formação dos presbíteros, numa perspetiva missionária sinodal; 5) Algumas questões teológicas e canónicas em torno de formas ministeriais específicas; 6) A revisão, numa perspetiva sinodal e missionária, dos documentos que regulam as relações entre bispos, vida consagrada e agregações eclesiais; 7) Alguns aspetos da figura e do ministério do bispo (em particular: critérios de seleção dos candidatos ao episcopado, função judicial do bispo, natureza e condução das visitas ad limina apostolorum) numa perspetiva missionária sinodal; 8) O papel dos representantes pontifícios (núncios) numa perspetiva sinodal missionária; 9) Critérios teológicos e metodologias sinodais para um discernimento partilhado de questões doutrinais, pastorais e éticas controversas; 10) A receção dos frutos do caminho ecuménico nas práticas eclesiais. [Ver uma sinopse sobre cada um destes temas no Vatican News.]

Fevereiro-março – Decorrem diligências entre responsáveis da Igreja Católica alemã e altos responsáveis do Vaticano, para encontrar um caminho de diálogo, em torno das decisões do Caminho Sinodal alemão, centrado particularmente no processo, entretanto desencadeado, conducente à criação de um Conselho Sinodal.

29 de abril a 2 de maio – Encontro Mundial de Párocos para o Sínodo, com cerca de 300 participantes de todo o mundo, para refletir sobre “como ser uma Igreja local sinodal em missão” e partilhar experiências pastorais.

15 de maio – Termina o prazo para o envio das sínteses dos contributos nacionais da segunda fase de auscultação entre as Igrejas e locais e/ou produzidos a nível nacional, para serem enviados à Secretaria-Geral do Sínodo, juntamente com as boas práticas recolhidas.

14 de junho – Termina em Roma uma reunião de dez dias com a participação de 20 teólogos (mulheres e homens, bispos, padres, homens e mulheres consagrados e leigos) de diferentes continentes, que trabalhou nos 107 relatórios das conferências episcopais e das Igrejas católicas orientais e mais de 175 de outras entidades internacionais.

 9 de julho – Em resultado de uma segunda etapa de “profunda escuta”, é apresentado no Vaticano o Instrumentum Laboris documento que será a base dos trabalhos da segunda sessão do Sínodo universal.

2 a 27 de outubro – Desenrola-se no Vaticano a assembleia final do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade, o culminar de um processo de escuta e oração que o Papa Francisco lançou no outono de 2021.

25 de novembro – O Papa Francisco publica uma nota para acompanhar o Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, como “restituição do que amadureceu” desde 2021, por meio da escuta e do discernimento, e como um “guia autorizado” para a vida e missão da Igreja.

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Das cantigas de amigo à vinha

[Metáforas vivas]

Das cantigas de amigo à vinha novidade

Este texto corresponde à homilia de domingo, 4 de outubro, [domingo xxvii do tempo comum ― a ― 2026; 1º dia da semana da educação cristã; 800 anos da morte de S. Francisco], proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This