Populações em fuga após novo ataque, no sábado, em Cabo Delgado

| 28 Jun 20

Cabo Delgado, Moçambique. Deslocados

As populações continuam a fugir, muitas veezs sem ter onde se abrigar. Foto © ACN-Portugal

 

Desde a madrugada de sábado que grupos fortemente armados atacaram Mocímboa da Praia (Cabo Delgado, no Norte de Moçambique) causando o pânico e levando à fuga das populações, noticiou a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) neste domingo, citando a irmã Graça António Guitate, das Filhas do Imaculado Coração de Maria: “Sim, às 5 horas, eles atacaram a vila de Mocímboa da Praia.”

A localidade tinha sido já atacada em meados de Maio, tendo os atacantes deixado marcas de destruição e obrigado à fuga da população, incluindo quatro monges beneditinos. E no final da semana havia mais relatos de ataques e consequentes fugas de população

Os relatos apontam para confrontos violentos entre exército e grupos terroristas, acrescenta a mesma fonte. Segundo a religiosa que falou à fundação, os combates duraram “até ao meio-dia” e terão causado muitas baixas entre os militares. “Não se fala em muitas infraestruturas danificadas, mas conta-se que morreram muitos militares moçambicanos”.

Este terá sido o confronto mais grave em Cabo Delgado desde que há quase três anos se sucedem ataques à região, levados a cabo por vários grupos armados, que algumas fontes ligam ao Daesh.

Horas antes do ataque, Graça Guitate e uma outra irmã da mesma congregação enviavam mensagens para o escritório de Lisboa da AIS, descrevendo um ambiente de caos humanitário na região de Pemba, a capital da província para onde têm fugido milhares de pessoas. Muitos padres e freiras têm também abandonando as suas missões.

“Os ataques têm sido cada vez pior aqui na nossa província, e os missionários nessa zona norte, nomeadamente de Palma, Mocímboa da Praia, Nangade, Mueda, Muidumbe, Macomia, Meluco, Quisanga e Ibo já abandonaram as missões”, diz Graça Guitate, ainda segundo a AIS.

 

Centenas de mortos, mais de 200 mil deslocados

Os ataques, diz por seu turno a irmã Joaquina Tarse, pareciam no início circunscritos à franja norte da província. Mas nos últimos meses eles alargaram-se progressivamente para sul, tendo já chegado às imediações de Pemba.

A situação já provocou até hoje centenas de mortos e mais de 200 mil deslocados e foi um dos temas principais da reunião da Conferência Episcopal de Moçambique entre os dias 9 e 13 de Junho. Os bispos falam em “atrocidades” e “actos de verdadeira barbárie” e pedem “uma resposta urgente a esta tragédia”.

Também o Papa falou do tema no Domingo de Páscoa, manifestando solidariedade com as populações e pedindo apoio da comunidade internacional para resolver a situação.

O bispo de Pemba, Luiz Fernando Lisboa, tem sido uma das vozes mais activas a pedir ajuda, até agora sem efeito. “O alojamento não é suficiente para todos, porque aqui em Pemba, por exemplo, as famílias estão a receber [os desalojados], mas há também grandes acampamentos sem as condições necessárias. Não há tendas suficientes, não há comida que chegue, porque é muita gente.” Como agora o tempo é mais frio, a situação agrava-se, pois faltam “mantas, e cobertores” para distribuir a todas as pessoas.

A Congregação das Filhas do Imaculado Coração de Maria está no terreno a apoiar os deslocados, não só com alimentos e bens, mas também no apoio psicológico e espiritual: muitas pessoas estão traumatizadas pela experiência de violência a que têm estado sujeitas, com casos de pessoas “que viram os seus pais, os seus irmãos a serem degolados…”

 

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