Conversão de Santo Inácio foi a 20 de Maio de 1521

Por causa de uma ferida, a história dos jesuítas começou há 500 anos

| 20 Mai 2021

Por causa de uma ferida que sofreu há 500 anos, a 20 de Maio de 1521, Inácio de Loyola resolveu repensar a sua vida. Foi estudar para Paris e ali, com mais dez companheirtos, fundou a Companhia de Jesus. Uma ordem dedicada à evangelização com formas e estratégias inovadoras. Nesta quinta-feira, os jesuítas iniciam em festa um Ano Inaciano e convidam quem queira a festejar com eles. 

Inácio de Loyola

Inácio de Loyola.

 

Inácio de Loyola achava que as reuniões faziam perder bastante tempo. O mais importante era a actividade apostólica dos jesuítas. Tudo o que pudesse retirar operacionalidade ao grupo era mau. Talvez por essa razão, a Companhia de Jesus, por ele fundada há quase cinco séculos (1534), só reuniu 36 vezes a sua Congregação Geral, a instância de decisão mais importante. Ou seja, uma média de 13-14 anos de intervalo entre cada uma.

A última aconteceu em Outubro de 2016, em Roma, e dela saiu eleito o jesuíta venezuelano Arturo Sosa, 31º na ordem dos superiores gerais da Societas Iesu, ou Companhia de Jesus. Um total de 215 jesuítas – entre os quais os portugueses José Frazão Correia e Miguel Almeida, anterior e actual provinciais –, de 62 países, traçaram os rumos da Companhia para os próximos anos. Temas como a promoção da justiça no mundo, a casa comum, o diálogo ecuménico e inter-religioso, a evangelização, o diálogo intercultural ou o trabalho com refugiados, entre muitos outros, estiveram em debate.

Para os jesuítas, trata-se sempre de encontrar, para cada tempo, novos métodos, novas linguagens e novas orientações em relação aos desafios propostos pelo Papa, ao qual os jesuítas, pelo seu fundador, prometeram uma obediência total “perinde ac cadaver” (até à morte).

A história, entretanto, começa há precisamente 500 anos, por causa de uma ferida, como assinala o Ponto SJ, portal dos jesuítas portugueses: no dia 20 de Maio de 1521, numa batalha em Pamplona: Iñigo (Inácio) López de Loyola (Loiola em basco, território em que a aldeia se situa) fica seriamente ferido numa perna. Forçado a uma longa convalescença, o acontecimento funciona como um retiro espiritual e marca a mudança radical da sua vida: Inácio deixa a carreira das armas e decide dedicar-se à evangelização, com novos métodos e novas linguagens.

Quinhentos anos depois, é essa conversão das armas à arma da palavra e da cultura que os jesuítas celebram em todo o mundo num Ano Inaciano convocado pelo geral, que se prolongará até 31 de Julho de 2022, dia da festa litúrgica de Santo Inácio, que decorrerá na sua terra natal. No dia 12 de Março do próximo ano, entretanto, assinalam-se os 400 anos da canonização do fundador da Companhia de Jesus, como refere o Ponto SJ num outro texto.

Para assinalar a abertura deste ano de celebração, as diversas comunidades de jesuítas portugueses estarão reunidas por meios digitais nesta quinta-feira, 20, a partir das 19h, quando se inicia uma emissão especial no Ponto SJ, que incluirá um vídeo sobre o Ano Inaciano, uma pequena intervenção do provincial e a ligação ao vivo entre as diferentes comunidades: Braga, Porto, Caldinhas, Coimbra, Covilhã, Caparica, Évora e Portimão. Esse momento termina com a transmissão da eucaristia no Colégio de São João de Brito, presidida pelo padre Miguel Almeida. Os jesuítas convidam quem queira para estar presencialmente nesse momento, em cada comunidade.

 

Expulsos ou forçados ao exílio mais de 700 vezes
Marquês de Pombal, Jesuítas, Claude-Joseph Vernet.

O Marquês de Pombal Expulsando os Jesuítas, pintura de Claude-Joseph Vernet.

 

Contam as biografias que Inácio tinha um temperamento bem disposto e nada austero, mas que rapidamente percebeu, na sua convalescença, que a carreira militar não era o seu futuro.

Decide depois partir “sozinho e a pé”, em Paris, onde chegou por volta de 1527-28. Na capital francesa ainda teve de mendigar, por não ter dinheiro para pagar os estudos que decidira empreender. E seria ali que, com mais dez companheiros (incluindo o português Simão Rodrigues), iniciaria uma aventura que rapidamente se tornou uma das mais importantes instituições da Igreja Católica.

Inácio ofereceu ao Papa os préstimos do grupo, para o serviço que Paulo III achasse mais importante. Com a Reforma protestante de Lutero a provocar novas divisões e conflitos na cristandade, o Papa não hesitou: aí estava quem poderia “levar à prática os decretos do Concílio de Trento” (convocado pela Igreja Católica para responder ao movimento iniciado por Lutero) e assim enfrentar o protestantismo nascente, então considerado como heresia.

Em 27 de Setembro de 1540, o Papa Paulo III assinou a bula (decreto papal) Regimini Militantis Ecclesiae, que formalizava e aceitava a fundação da Companhia de Jesus. A nova ordem religiosa conheceu logo a seguir uma expansão rapidíssima, graças às inovações teológicas e culturais introduzidas por Inácio e companheiros no contexto eclesial do século XVI: o humanismo da época aliado “ao respeito pelas pessoas e pelo modo de ser das populações”, como caracterizava o padre jesuíta e historiador António Lopes, que morreu em 2007; o rompimento com a rigidez e o imobilismo que então predominavam nas ordens monásticas; a opção por viver não em clausuras, mas no meio das cidades; e, através de uma sólida formação teológica e espiritual, a definição de projectos, finalidades e estratégias claras de evangelização – uma ideia que, aliás, ficaria plasmada nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, espécie de guião espiritual trabalhado como um programa de mudança de vida, com objectivos e metas concretos.

A expansão seria tão rápida quanto ameaçadora para os poderes políticos e religiosos da época. A influência dos jesuítas extravasava para o âmbito político e económico. O império comercial criado pelo padre Lavalette na Martinica ou as “Reduções do Paraguai” (espécie de repúblicas comunitárias dos índios, animadas pelos jesuítas, e cuja experiência passou para o cinema, no filme A Missão) acabaram por ser pretextos óptimos para os governantes tomarem medidas contra a Companhia.

O marquês de Pombal expulsa os jesuítas de Portugal em 1759. Em França, Luís XV condena-os três anos depois. E a Espanha adopta a mesma atitude em 1767. Quatro anos mais tarde, o Papa Clemente XIV suprime a Companhia de Jesus. Um grupo de 70 jesuítas procura então refúgio junto da imperatriz ortodoxa Catarina, da Rússia, e do rei protestante Frederico II, da Prússia.

Só até 1814, quando a ordem foi restaurada, os jesuítas já tinham sido expulsos ou forçados ao exílio mais de 700 vezes. Presentes no ensino, nas missões católicas da América Latina ou do Extremo Oriente, ou como confessores de reis e governantes, tinham-se tornado a ordem masculina mais numerosa e poderosa da Igreja. De tal modo que a linguagem popular dos cidadãos de Roma rapidamente baptizou o padre-geral da Companhia: ele era o “papa negro”, devendo-se o negro à cor da batina então usada pelos companheiros de Inácio, e por contraste com a cor branca da mesma veste papal.

 

Periferias, Exercícios Espirituais e ir “até ao Inferno”
Mártires, UCA, Jesuítas

Mosaico dos Mártires da UCA, em El Salvador, com os rostos dos seis jesuítas e duas funcionárias da Universidade assassinados em 1989. Foto © GuanacoSolido503/Wikimedia Commons

 

Fruto da evolução das últimas décadas, e a par de instituições de ensino como colégios e universidades, os jesuítas estão hoje presentes em muitas situações que envolvem riscos, por trabalharem com pobres, refugiados ou outras populações marginalizadas – as “periferias” de que fala Francisco, o primeiro jesuíta a usar a veste branca papal. E isso já valeu o martírio de muitos, como foi o caso dos seis jesuítas professores da Universidade de Centro América (El Salvador), assassinados em 1989, por esquadrões da morte.

Esse compromisso estava já na origem e na forma como Inácio pensou a ordem. Quando o Papa Paulo III promulgou a bula fundadora dos jesuítas, Simão Rodrigues e Francisco Xavier estavam em Portugal, de onde partiriam, na Primavera de 1541, para o Oriente. E Lisboa tornar-se-ia um entreposto fundamental para os companheiros de Inácio: era daqui que partiam em direcção à Índia, China, Japão ou América Latina. António Vieira, José de Anchieta, João de Brito, além de Simão Rodrigues e Francisco Xavier, são alguns dos mais importantes nomes dos que daqui saem para evangelizar nas paragens mais longínquas.

No Oriente, Roberto de Nobili e Francisco Xavier perceberam o essencial nas suas missões asiáticas: adoptar os costumes das populações, aprender a língua, usar as mesmas vestes, fazer-se, se necessário, “bárbaro com os bárbaros” e tornar-se discreto enquanto estrangeiro. O essencial desta atitude verificou-se também no Japão do século XVI. Não cuspir, andar com os olhos baixos e o corpo direito, sem levantar a cabeça, eram conselhos práticos que o jesuíta italiano Alexandro Valignano dava aos seus colegas, como forma de respeito e inserção na vida local.

O sucesso da missionação jesuíta do Japão – no final do século XVI já havia 300 mil cristãos japoneses e, em 1580, oito dos 16 padres japoneses eram membros da Companhia de Jesus – também não foi pacífico: entre 1615 e 1640, os japoneses que se tinham tornado cristãos foram sujeitos a duríssimas perseguições – um episódio contado no livro Silêncio, de Shusaku Endo, passado ao cinema por Martin Scorsese.

Estes sucessos e insucessos não eram alheios aos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola. Metodologicamente rigoroso, ele propunha, com essa experiência, uma ascese acessível a todos os cristãos, num tempo em que a mensagem bíblica continuava, no catolicismo – e apesar da Reforma protestante –, propriedade do corpo eclesiástico. Os exercícios constituíam um forte apelo à transformação da espiritualidade de cada cristão e a uma vida dedicada aos outros, “para maior glória de Deus”.

Nos Exercícios, Inácio explicava o que fazer ao iniciar essa experiência: “Ver as pessoas, umas e outras. Primeiro as da face da terra, em tanta diversidade, assim em trajes como em gestos: uns brancos e outros negros, uns em paz e outros em guerra, uns chorando e outros rindo, uns sãos e outros enfermos, uns nascendo e outros morrendo, etc. (…) Ouvir o que falam as pessoas sobre a face da terra, a saber: como falam umas com as outras, como juram e blasfemam, etc.”

Esta atenção à realidade completa-se com a atenção ao que para um cristão deve ser a presença de Deus na mesma realidade: “Ver como Deus habita nas criaturas, nos elementos dando-lhes ser, nas plantas fazendo-as vegetar, nos animais fazendo-os sentir, nos homens dando-lhes o entender. E, em mim, habita dando-me ser, vida, sentir e entender. Ainda mais: fez de mim templo criando-me à semelhança e imagem de sua divina majestade.” Com este sentido, o geral jesuíta Arturo Sosa escolheu como lema deste Ano Inaciano a frase: “Ver novas todas as coisas em Cristo”.

Conta-se de um velho jesuíta que ironizava, sobre os membros da Companhia: “Fomos a todo o lado. Excepto ao inferno, claro. Se não, teríamos conseguido seguramente destronar Lucifer.”

Tudo por causa de uma bala que, há 500 anos, atingiu Iñigo López.

 

(Alguns dos elementos históricos deste texto foram adaptados do livro Vidas de Deus na Terra dos Homens, ed. Círculo de Leitores)

 

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